Cinema: O carnaval do fim do mundo
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Cinema: O carnaval do fim do mundoDocumentário retrata o singular ano de 2021 em Olinda e Recife, quando a folia não saiu às ruas devido a pandemia – e o retorno dionísico do frevo em 2023. O obra explora o sincretismo cultural e religioso da festa e contada pelos olhos de quem a faz acontecer Por José Geraldo Couto, no blog do IMS Artífices da foliaAo contrário das grandes reportagens sobre o carnaval, que observam o espetáculo “de fora”, contando com a muleta de comentadores, “especialistas” e sabichões, aqui esse universo é desvendado “por dentro”, com as palavras e gestos de seus artífices: músicos, cantores, passistas, bonequeiros, porta-estandartes, foliões. É por meio deles que percebemos o sentido profundo do carnaval e de sua inserção orgânica na vida do povo. Toda a primeira parte do filme – o ano de 2021 – é filmada em preto-e-branco e tem um tom entre o melancólico e o esperançoso (“No ano que vem a gente volta”), alternando os vívidos depoimentos com imagens das ruas e ladeiras quase desertas. Algumas dessas imagens são belíssimas e expressivas ao extremo, como a do Homem da Meia-Noite desfilando solitário sob a chuva noturna em Olinda, essa cidade tão plena de história e beleza. Ficamos conhecendo então as entranhas de um carnaval ao mesmo tempo grandioso e caseiro, que extravasa dos dias de festa para o cotidiano e o imaginário de recifenses e olindenses. Todos têm alguma história (ou muitas) para contar sobre os grandes personagens dessa mitologia: o Galo da Madrugada, o Homem da Meia-Noite, a Mulher do Dia, o Velho do Cariri (que desfila montado num jegue), o Menino da Tarde… E não é só o frevo, claro. Há também o maracatu, o caboclinho, o samba etc. Mas o frevo é uma espécie de ápice dionisíaco, uma expressão de alegria física indomada. Atrás do seu ritmo contagiante só não vai quem já morreu, como cantou Caetano Veloso num frevo célebre. Vocação para a misturaUm dos temas mais interessantes explorados pelo filme é o caráter de sincretismo cultural e religioso da festa. Quem aborda muito bem o fenômeno é o padre André Canuto, que divide seus afazeres na paróquia com os de diretor de Preservação e Memória do Cariri Olindense: “A estrutura das procissões, no fundo, é a mesma dos cortejos carnavalescos. Os que carregam os andores dos santos também carregam os estandartes”. Essa vocação para a mistura, para a inclusão, é uma das características mais marcantes do carnaval pernambucano, em que músicos, passistas e foliões se amalgamam, sem cordões de isolamento, sem separação entre palco e arquibancada, num organismo único, pulsante e plural. Atestando o pendor para a carnavalização de tudo, um dos bonecos mais populares de Olinda é o de John Travolta, criado em 1979. O documentário consegue captar, a meu ver, a força e a singularidade desse fenômeno. Suas últimas imagens são expressivas. Depois de tudo, na manhã da Quarta-Feira de Cinzas, quatro ou cinco músicos do “Orquestrão” caminham trôpegos, exauridos e extasiados, pelas ruas desertas do Recife antigo. Há ali um ar de missão cumprida: o carnaval recife-olindense resistiu bravamente à pandemia de covid, agravada pela estupidez abissal do governo Bolsonaro. Quem não se interessa pela cultura popular brasileira está dispensado. | A A |
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