Bonsai econômico

 

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Bonsai econômico

Alegoria de 40 anos de submissão aos mercados. Amputamos excessos. Refreamos impulsos. Disciplinamos os galhos que se rebelam. Nada escapa – só a desigualdade. E ainda assim, admiramos – como se fosse natural

Dizem que o país precisa crescer.
Desde que seja para um lado.

Para quê mexer na mesa inclinada, se ela já facilita o jogo?
Um conhece a declividade.
O outro acredita na neutralidade das regras.

Outros, mais zelosos, falam em crescer com responsabilidade.
Há ainda os que preferem algo mais modesto: crescer pouco, mas crescer agarrado nas bordas do passado.


Cultivando a economia como quem cuida de um bonsai.

Amputamos excessos. Refreamos impulsos. Disciplinamos os galhos que se rebelam.

Nada escapa.
Só a desigualdade, que escorre — feito chorume — nutrindo galhos e exigindo mais poda.

Há quem veja nisso um ideal.
O sonho — bem passado, alinhado, bem contido.

O bonsai não é pequeno por natureza.
Ele foi sistematicamente reprimido.

Suas raízes, dilaceradas.
Seu horizonte, encarcerado no vaso.

E ainda assim, admiramos.
Como se fosse natural.


Chamamos de estabilidade o que é privação.

No bonsai econômico, nada cresce o suficiente para romper o vaso.
Não faltam sementes.
Falta espaço.

Discutimos os galhos, evitamos o vaso.
E o vaso permanece intocado — foi embutido.

E, como todo embuste, poderia ser diferente.

No país do bonsai, misturamos limite com paisagem.
Expansão passa por excesso.
E a poda, inevitável.

Porque o problema nunca foi o excesso dos galhos.
Foi o tamanho do recipiente.

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