A ferida e a máquina racista no século XXI

 

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A ferida e a máquina racista no século XXI

Pensadora decolonial vê, na resistência palestina, um teste decisivo para a humanidade. Cresceu em meio às lutas de libertação africana. Aos 16, já figurava em relatórios policiais. Enquanto Vaticano pede perdão e “vigília” contra a escravidão, ela exige abolição real

A 25 de maio de 2026, veio à luz a encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV — um documento que, entre seus capítulos mais densos, contém uma frase que nenhum de seus predecessores havia pronunciado com tanta franqueza: “em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.” O perdão é pela escravização. Pela cumplicidade das instituições eclesiásticas na montagem do aparato colonial. Pela legitimação, durante séculos, de práticas que o próprio documento admite terem sido “reguladas e, em alguns casos, autorizadas” pela Sé Apostólica a pedido de soberanos — os mesmos soberanos que financiaram a expansão portuguesa pelo Atlântico e pelo Índico.

Horas antes da publicação da encíclica, o vaticanista e historiador da UFRJ Thiago Gama colhia, para Outras Palavras, as respostas escritas de Françoise Vergès. Filósofa, ensaísta, cineasta em formação, Vergès nasceu em Paris de pai reunionês e mãe francesa — ambos militantes comunistas anticoloniais. Cresceu na Ilha da Reunião, território oficialmente francês desde 1642, onde o colonialismo nunca foi passado: é a estrutura do presente.

Seu pai, Paul Vergès, cofundou o Partido Comunista da Reunião em março de 1959, aos 34 anos, e foi seu secretário-geral por décadas. Sua mãe, Laurence Deroin-Vergès, era jornalista do diário comunista Témoignages e liderança da União das Mulheres Reunionesas. Françoise cresceu recebendo em casa publicações de movimentos de libertação nacional de todo o mundo — e sendo acompanhada, desde cedo, pela polícia colonial. Aos 16 anos, já figurava nos relatórios de vigilância policial.
A encíclica de Leão XIV reconhece, no parágrafo 176, que “foi preciso aguardar o século XIX para encontrar uma condenação formal, absoluta e universal da escravatura” — e que o atraso constitui “uma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios.”

No parágrafo 178, o documento vai além do passado: alerta que “o colonialismo apresenta, nos nossos dias, um rosto inédito,” sob a forma de extração de dados, perfis epidemiológicos, mapas genéticos — as novas “terras raras do poder.” A era digital, adverte Leão XIV, “não será pós-colonial, mas colonial de outra forma,” se os povos não recuperarem a soberania sobre seus próprios dados.

Vergès não esperou a encíclica para dizer isso. Seu trabalho sobre o capitalismo racial como “máquina de morte” — conceito que ela radicaliza a partir de sua própria infância sob vigilância colonial na Reunião — chega a estas páginas com uma urgência que o documento papal, involuntariamente, amplifica. Onde Leão XIV pede perdão, Vergès exige abolição. Onde a encíclica convoca à “vigilância,” ela propõe sabotagem. A distância entre os dois vocabulários não é apenas teológica: é a distância entre a instituição que tardou dezoito séculos para condenar a escravatura e a mulher cujo dossiê policial foi aberto quando ela tinha dezesseis anos.

Eis a entrevista

Em suas conferências recentes, você analisa como as democracias ocidentais são construídas sobre a “fabricação racial da morte prematura” — não como acidente, mas como lógica central de extração. Em 2026, com o colapso ambiental e a militarização acelerando no Sul Global, como o feminismo decolonial pode oferecer um programa concreto para sabotar essa máquina da morte?

Não creio que o feminismo decolonial possa, sozinho, responder plenamente a essa questão. Nenhuma teoria deveria se tornar o texto, a referência.

Para sabotar a máquina da morte do capitalismo colonial/racial, precisamos ouvir muitas vozes, tomar emprestado de muitas práticas, aprender com estratégias de sabotagem passadas e presentes. A sabotagem é uma estratégia e uma prática que devemos levar muito a sério, pois seu objetivo é perturbar uma máquina cuja sobrevivência repousa sobre o terror, o medo e a morte — e que, por isso mesmo, utiliza todos os instrumentos que reforçam o terror e o medo: a desumanização, a humilhação, a criminalização, a prisão, o assassinato, a tortura, o exílio, a censura. A sabotagem exige ser pensada com cuidado. Mas temos uma longa história de contra-estratégias — falsificação de documentos, aprendizado de como escapar de instrumentos de vigilância cada vez mais sofisticados, saber criar um movimento clandestino, criação de refúgios e santuários no interior do panóptico, contrabando de armas, combate à censura.

Para lançar o objeto capaz de perturbar a máquina, precisamos conhecer seu mecanismo e seus pontos fracos. É preciso aprender isso, para saber o quando, o quê e o como. A sabotagem não é uma estratégia “pacífica” — ela ameaça o poder, que reagirá com toda a sua força. Daí a importância de ter um plano B. A sabotagem não exige ser forte, mas ser inteligente e imaginativa. Os Houthis são um grande exemplo recente. Esse movimento político do Iêmen — país pobre e pequeno, atacado pela Arábia Saudita por anos — demonstrou que, com as “armas dos pobres,” era possível perturbar o fluxo de navios de poderosas empresas na entrada do Canal de Suez. O Irã está perturbando a formidável máquina de morte dos EUA e de Israel ao fechar um gargalo: o Estreito de Ormuz. E poderíamos recuar às táticas de guerrilha vietnamita contra um exército que usava napalm, bombas e terror — sem esquecer as táticas dos exércitos quilombolas contra os escravizadores. Onde estão, então, os gargalos atuais da máquina da morte ao redor do mundo?

Para que serviria um gargalo feminista decolonial? Com base em sua teoria da fabricação racial da “morte prematura” como lógica central de extração, poderíamos dizer que qualquer estratégia que perturbe a negação estrutural e sistêmica das necessidades vitais já é um começo. O Ocidente se apresenta como higiênico, limpo, perfumado — mas mal consegue mascarar o cheiro de seu núcleo podre. Por que não jogar sangue, urina, fezes nos banqueiros, bilionários, soldados, ministros — em todos aqueles que negam o acesso à água e à intimidade? Transformar o medo ocidental da “sujeira” em arma. Durante a guerra de libertação argelina, mulheres argelinas se cobriam de fezes para que os soldados franceses não as estuprassem. Lembremos o Dirty Protest (1978-1981) dos prisioneiros republicanos na Irlanda do Norte, que recusavam se lavar e cobriam as paredes de suas celas com excrementos e urina para obter o status de prisioneiro político. Imaginemos uma greve massiva das mulheres do cuidado e da limpeza — nada abriria: escritórios, universidades, bancos, escolas, shoppings, teatros, hotéis, lojas…

Um programa concreto é um programa contra o colonialismo, o capitalismo racial e o imperialismo. Por tempo demais, o capitalismo travou guerra contra as espécies humanas e não humanas e contra o planeta. Nunca aceitou soberania nem liberdade. Se eu fosse percorrer a longa história das “democracias” que lutaram com toda a sua força contra as aspirações e lutas por igualdade e soberania, precisaria de muitas páginas. Olhando apenas para a segunda metade do século XX, sob o império da Pax Americana, vemos um estado de guerra permanente, de terra arrasada, de florestas e terras queimadas, rios poluídos, massacres e torturas, apoio a golpes militares e ditaduras, assassinatos. O feminismo decolonial deve contribuir ativamente para o desmantelamento desses regimes — trazendo à luz todos os seus mecanismos mórbidos, recusando a normalização da desumanização por meio da participação em educação popular, greves, coletivos pelo abolicionismo prisional, abertura de refúgios, espaços para crianças aprenderem, comerem e brincarem, lutas camponesas, lutas antifascistas e antirracistas.

Em seu livro A Programme of Absolute Disorder (2024), você argumenta que descolonizar verdadeiramente o museu exige inventar outras maneiras de apreender o mundo humano e não humano. Como podemos implementar essa “desordem absoluta” em instituições do Sul Global sem que sejam recolonizadas pela “indústria da reparação” ocidental e seus especialistas em “restauração da inocência”?

As instituições do Sul Global são muito diversas: patrocinadas pelo Estado ou pela cidade, de propriedade privada, servindo à burguesia, às comunidades, aos turistas. Poderíamos começar fazendo uma cartografia precisa dessas instituições: qual é a história da instituição; como, quando e por quem foi adquirido o acervo; se o museu fica numa grande cidade, numa cidade pequena, numa aldeia; qual é o processo de contratação; quais são suas hierarquias sociais, raciais e de gênero; quem limpa e quem faz a guarda, e como são contratados faxineiros e guardas; quanto ganham; quem decide o orçamento e a programação. O que quero dizer é que não podemos discutir um programa de desordem absoluta sem compreender a economia política, social e cultural das instituições do Sul Global.

O “Museu do Amanhã,” no Rio de Janeiro, não pode ser comparado ao “Paço do Frevo,” no Recife. Visitei os dois. O Museu do Amanhã é uma réplica de qualquer museu/shopping center ocidental, cujas instalações foram projetadas para deslumbrar visitantes com exibições imersivas e interativas sobre a catástrofe climática — com dinheiro de grandes empresas privadas que criam essa mesma catástrofe climática. O Paço do Frevo é completamente diferente. Portanto, um programa de desordem não seria o mesmo para ambos. Não sei se o Museu do Amanhã pode ser redimido; sua criação gerou gentrificação — que muitas vezes é justamente o propósito dos projetos museísticos atuais: consumo, turismo, expulsão dos não brancos e dos pobres. É greenwashing no mais alto nível. Talvez transformá-lo numa vasta espaço para encontros, trabalho coletivo, ajuda mútua, serviços de saúde, serviços jurídicos para os pobres, crianças?

Os museus nacionais do Sul Global precisam questionar suas próprias narrativas nacionais, questionar o fetichismo do objeto e da arte, contribuir para o desmantelamento do mercado especulativo de arte, exibir todo o seu acervo, pagar bem seus faxineiros, guardas e cozinheiros. Deve haver programas de justiça social e racial. Não se trata apenas do que está nas paredes e dos textos que acompanham a arte, mas de fazer do espaço social e cultural um ensaio do que poderia ser. O museu é feito por forças sociais: há um projeto, recursos precisam ser encontrados, uma equipe é formada — mas quem toma as decisões finais? Quais forças sociais criam um “pós-museu,” um museu em processo de descolonização, um trabalho em andamento — porque não podemos ter um museu decolonial num mundo ainda sob a colonialidade.

Para responder mais diretamente à questão da “indústria ocidental da reparação e seus especialistas em ‘restauração da inocência’“: sabemos que as demandas pela devolução de obras de arte saqueadas e de restos humanos — que existem há décadas — forçaram os museus ocidentais a alguma responsabilidade. O Ocidente espera ser agradecido, mas o ladrão não pode fazer exigências. As devoluções não devem se tornar ocasião para cerimônias de perdão. O Ocidente deve carregar o fardo de seus crimes — não eternamente, mas até que tenha reconhecido plenamente o que seus séculos de colonização, guerra permanente e capitalismo racial produziram.


A reparação é sobre abolição — ou seja, o fim do capitalismo colonial/racial.

Mas talvez uma pergunta que pudéssemos nos fazer, como exercício, seria: “E se estivéssemos construindo um mundo sem museus?” Seria o fim de tudo? Quero que nos façamos essa pergunta para que possamos clarificar o que queremos com um “museu”: que arquitetura, que acervo, que técnicas de conservação e preservação. O que queremos salvar? Por quê? Como? Para quem?

Você frequentemente crítica como certas correntes feministas tornaram-se cúmplices da islamofobia e do secularismo imperialista. No atual contexto global, como podemos construir um feminismo que não seja auxiliar do Estado e da polícia, mas um “feminismo das encruzilhadas” que priorize a solidariedade internacional com a Palestina, o Sudão e o Congo?

O feminismo que é auxiliar do Estado e da polícia é o feminismo branco burguês. Ele é cúmplice do genocídio, da colonização e da exploração/extração. Na Europa, algumas feministas se posicionaram claramente ao lado do Estado de apartheid israelense e do genocídio. Na França, temos feministas de extrema-direita muito vocais — islamofóbicas, anti-árabes e antimigrantes —, protegidas pela polícia quando marcham nas ruas. Com a ascensão do fascismo e dos movimentos de extrema-direita na Europa, com o genocídio em Gaza, não podemos mais ignorar o fato de que, historicamente, sempre existiram feminismos conservadores, reacionários e racistas.

Os feminismos que defendo e apoio — e uso o plural porque penso nos feminismos islâmico, negro e indígena — são feminismos que compreendem que a solidariedade internacional contribui para a luta por justiça e liberdade no próprio país.

Você declarou recentemente que “a Palestina é a medida de nossa capacidade de mudar o mundo.” Como a resistência em Gaza e na Cisjordânia redefine a própria categoria do “humano” para o Sul Global, e por que essa luta é o teste decisivo para os movimentos antirracistas e anti-imperialistas do nosso século?

Gostaria de retornar à declaração feita em 9 de outubro de 2023 pelo ministro da Defesa de Israel, Yaev Gallant: “Estamos impondo um cerco total à cidade de Gaza. Não há eletricidade, não há comida, não há água, não há combustível. Tudo está fechado. Estamos lutando contra animais humanos, e estamos agindo de acordo.” Em 17 de setembro de 2025, Marco Rubio, o Secretário de Estado norte-americano, ecoou os sentimentos de Gallant ao afirmar que o que havia acontecido em Gaza podia ser explicado “porque em 7 de outubro, animais — animais bárbaros — realizaram essa operação contra pessoas inocentes.” (Os grifos são meus.) A animalização dos humanos é uma constante colonial; ela é inerente ao seu processo de desumanização. A distinção racista, tão antiga quanto a escravidão colonial, a colonização e o imperialismo, dividiu o mundo entre os “humanos-humanos” — brancos e cristãos — e todos os outros, os “animais-humanos.” O que me interessou aqui foi o fato de essa distinção ressurgir, no século XXI, na boca de um representante de um Estado que se apresenta como a única “democracia no Oriente Médio.”

A distinção entre humanos-humanos e animais-humanos é puramente racista. Ela significa que os “humanos-humanos” detêm a propriedade da terra e da água, o direito de colonizar, de impor suas leis, de extrair recursos, de despossuir — e exigem que os “animais-humanos,” cuja terra toma, cuja água privam e cujo ar e ambiente contaminam com seus resíduos tóxicos, trabalhem para eles. Os animais-humanos não são bem os animais que merecem proteção, cuidado, afeto e amor, nem bem os humanos, que merecem proteção, cuidado, afeto, direitos, respeito e dignidade. Mas é precisamente por terem um lado humano que os humanos-humanos lhes causam sofrimento, os esfomeiam, os torturam, os aprisionam, os insultam, os roubam, os privam do acesso às necessidades básicas e os estupram. É esse aspecto humano que é visado pelos atos que servem, para os humanos-humanos, como meio de afirmar sua superioridade — uma necessidade que precisam verificar diariamente, pois mesmo o menor desafio ao seu status de humanos-humanos é vivido como uma ameaça existencial. A ganância dos humanos-humanos por tudo que os animais-humanos possuem — terra, água, recursos, ideias, objetos, arte, práticas sociais e culturais — não conhece limites. Eles concebem sua coexistência com os animais-humanos apenas sob a condição de que as vidas destes não importem — de que possam ser tornadas vulneráveis à morte prematura.

Mas o que enfurece o Estado de apartheid de Israel, os Estados Unidos imperialistas e racistas e seus cúmplices europeus é que a firmeza dos animais-humanos prova sua humanidade ao mundo — ao mesmo tempo em que os humanos-humanos são mostrados pelo que realmente são: predadores racistas, ladrões, estupradores e assassinos.

Existe uma longa história, no Sul Global, de redefinição do humano — entre outros, Sylvia Wynter, Aimé Césaire, Frantz Fanon, Denise Ferreira da Silva. Para outros, a própria palavra está demasiado contaminada pela Europa para ser salva. Mas o que os palestinos estão mostrando com clareza é que o regime de colonização racista ainda está conosco — e que é inevitavelmente desumanizante. O Estado etnonacional de Israel tem uma política de expansionismo colonial; sua ideologia sionista requer expansão e purificação pelo genocídio. É sustentado pelos Estados Unidos — um Estado fundado sobre a doutrina liberal e sobre o genocídio e a escravidão. Nunca haverá paz enquanto a colônia existir. Para que o estado de guerra permanente termine, o imperialismo precisa morrer — e, com ele, o capitalismo racial. Se é extremamente importante para toda a humanidade que o Estado de apartheid de Israel seja derrotado, é a derrota do imperialismo norte-americano que importa. Ele causou tanto sofrimento e morte que sua derrota é a condição para a sobrevivência da humanidade. Em outubro passado, The Lancet Global Health publicou um relatório com os seguintes dados: as sanções e o bloqueio dos EUA e da Comunidade Europeia causaram a morte de mais de 500.000 pessoas por ano entre 1971 e 2021 — ou 38 milhões no total. 38 milhões! Conseguimos realmente medir do que o capitalismo racial, a colonização e o imperialismo são capazes? A devastação sistêmica do planeta, o surgimento de uma classe de bilionários protofascistas, a fabricação de fomes e privações.

A Palestina é o teste decisivo para os movimentos antirracistas e anti-imperialistas do nosso século porque, desde a Nakba, resistiu ao apagamento. Sumud, como os palestinos chamam: firmeza diante da brutalidade e da desumanização sem limites.


Em diálogo com a “atitude reconstrutiva” proposta por Geoffroy de Lagasnerie, como podemos ir além da crítica necessária da violência colonial para construir ativamente espaços de “criatividade coletiva”? A “desordem absoluta” que você propõe é um gesto negativo de destruição — ou é, em si mesmo, a fundação arquitetônica de uma nova gramática da dignidade?

A destruição sistêmica é uma característica fundamental do capitalismo colonial/racial. Não creio que a crítica da violência colonial seja sobre o “passado” — ou que seja uma ruminação melancólica. Pode ser, admito, mas a violência colonial ainda está presente: no saque de terras, na exploração, na extração, na plantation e no campo — de migrantes, de trabalhadores, de refugiados —, no sistema carcerário, nos feminicídios, nos assassinatos impunes de pessoas negras, árabes e indígenas. É claro que estou do lado de uma nova gramática da dignidade — mas também sei que enfrentamos inimigos determinados que, historicamente, nunca hesitaram em queimar vivos, mutilar, torturar, matar, apagar. E continuam fazendo isso. Em total impunidade. O Estado de Israel recebe apoio incondicional dos países mais ricos do mundo — em primeiro lugar, os Estados Unidos, mas também os Estados da Europa Ocidental. Mercenários e exércitos de procuração matam no Sudão e no Congo. Governos na Índia, na Bolívia, no Quênia, na Alemanha, no Chile não hesitam em criminalizar a dissidência — suas polícias recebem ordens de espancar, torturar e matar. Ir além da crítica necessária da violência colonial para construir ativamente espaços de “criatividade coletiva” não pode significar ignorar quem e o quê enfrentamos. A violência colonial ainda é uma política dos poderosos. Pessoas são privadas de água, terra, comida, ar, saúde, moradia. Isso é muito concreto. E enquanto lutam, constroem ativamente espaços de “criatividade coletiva.” Essa construção não ocorre no vazio. Espaços de liberdade e de criatividade coletiva são conquistados contra o Estado e o Capital.

A preparação de um trabalho sobre as lutas anticoloniais comunistas na região do Oceano Índico ressoa tão profundamente com os compromissos decoloniais e internacionalistas de nossa série — e acreditamos que enriqueceria imensamente a conversa.

Tanto meu pai, Paul Vergès, quanto minha mãe, Laurence Deroin-Vergès, eram comunistas anticoloniais. Eram também feministas — em sua vida cotidiana e em seu ativismo. Em março de 1959, quando tinha 34 anos, meu pai cofundou o Partido Comunista da Reunião e foi seu secretário-geral por décadas. Minha mãe era jornalista no diário comunista Témoignages e uma das lideranças da União das Mulheres Reunionesas.

Minha mãe, que era francesa, já era militante comunista quando conheceu meu pai em Paris. Meu pai havia nascido no que hoje é o nordeste da Tailândia, filho de mãe vietnamita e pai reunionês. Cresceu na Reunião com seu irmão gêmeo, Jacques Vergès, que se tornaria mais tarde advogado dos nacionalistas argelinos e dos fedaíns. Minha mãe faleceu em 2012, meu pai em 2016. Eu havia convencido meu pai a entregar seus papéis pessoais ao arquivo local, ao qual acrescentei os de minha mãe. Enquanto os examinava em 2016, pensei que tinha material para um filme sobre as lutas comunistas anticoloniais na ilha — mas também sobre o forte internacionalismo no qual cresci. Meu pai se encontrou com Ho Chi Minh, Castro, Mao e líderes comunistas em todo o mundo; trabalhou com membros moçambicanos da FRELIMO, com ativistas em Madagascar, Maurício, Comores e Seicheles; participou de encontros comunistas internacionais em Moscou e em outras cidades. Em casa, recebíamos jornais de movimentos comunistas e de movimentos de libertação nacional de todo o mundo. Eu os lia e escutava conversas políticas. Sabia que o mundo era maior do que o mundo estreito da escola francesa e da vida (pós)colonial. Sempre acompanhei meu pai a reuniões políticas. Os anos 1950-1980 foram tempos de intensa repressão: censura, assassinatos, comunistas condenados à prisão por nada, proibição de carregar a bandeira vermelha — carregar a imagem de meu pai era proibido e sujeito a multa e prisão. Testemunhei buscas policiais em casa; meus pais recebiam ameaças de morte; meu pai era constantemente acusado de algo; éramos constantemente seguidos pela polícia. Mas, quando crianças, tudo nos era explicado — e eu sempre tive certeza da solidariedade do povo da Reunião. Compreendi cedo que o que era chamado de “França” na escola — suas cidades, sua história, sua literatura, sua poesia — era também um Estado que usava a mídia, os tribunais e a polícia para esmagar um movimento que temia profundamente, fazendo desaparecer seus líderes.

Com aquele filme, eu queria resgatar o que havia sido aquele comunismo anticolonial e seu internacionalismo.

Mas ao retornar à Reunião em 2024, depois duas vezes em 2025, e novamente recentemente em 2026, percebi que a pacificação foi rápida. A pequena burguesia de cor que ocupa o poder político é totalmente favorável à assimilação com a França; ela instrumentaliza alguns tropos culturais do movimento comunista que contribuiu para enterrar — a língua e a cultura —, mas nunca fala de capital e colonialidade. Quis explorar essa forma de pacificação. Também li milhares de páginas de relatórios policiais — a vigilância era meticulosa, tudo era registrado, cada ato, cada reunião. É claro que, entre esses milhares de relatórios, meu pai aparecia em quase todas as páginas. Surpreendi-me, porém, ao encontrar relatórios sobre mim mesma — eu era uma menina de 16 anos, estudante do ensino médio.

Tenho agora dois projetos: 1) um documentário sobre como a vigilância policial numa (pós)colônia prefigura o que está acontecendo na França hoje — criminalização da solidariedade, repressão, censura, policiamento, julgamentos, condenações; 2) um filme de voz mais pessoal, mais de autor, sobre o comunismo e o internacionalismo pelo olhar de uma criança e de uma adolescente. Sempre amei o cinema, e ele foi tão importante para as lutas em todo o mundo. Tenho curiosidade por filmes que abordam a repressão, a censura, a resistência — preciso vê-los para compreender como o cineasta conta a história. Minha mãe, que adorava cinema, me levava a um pequeno cineclube na Reunião, onde eu via filmes soviéticos, cubanos, argelinos. Os cinemas só passavam pepluns, filmes de guerra ou propaganda cristã — embora eu também queira ver esses. Mais tarde, quando morei em Argel durante meu último ano do ensino médio e o seguinte, frequentava a cinemateca de Argel — que era um sonho para uma menina de 17 anos: tantos filmes, tantos cineastas do Sul Global! Espero poder fazer esses filmes.

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