Será possível hackear os códigos autoritários?
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Será possível hackear os códigos autoritários?O algoritmo desenhado pelas big techs já substitui instituições humanas, modulam normas, comportamento e estruturas de poder. Como luta coletiva e apropriação tecnológica popular podem alterar essa configuração? Seria o fediverso uma alternativa? Já parou para imaginar como a internet que conhecemos hoje se tornou o que é? Em Para além das máquinas de adorável graça: cultura hacker, cibernética e democracia, obra lançada pelas Edições Sesc São Paulo, o jornalista, cientista social e doutor em Antropologia Rafael Evangelista argumenta que a resposta está na ética hacker – uma cultura colaborativa que, desde os anos 1950, enfrenta problemas complexos pelo prazer da criação e encontrou no Brasil um terreno fértil para se expandir. Do software livre à luta contra a vigilância, o livro mostra como essa produção do comum moldou as redes que usamos e os riscos que elas representam para a democracia. O volume é o segundo da coleção Democracia Digital, organizada por Sergio Amadeu da Silveira, o título evoca o poema que inspira sua reflexão sobre um mundo assistido por máquinas de adorável graça. Disponibilizamos, logo abaixo, o posfácio. Nele, Evangelista discorre acerca do potencial da cultura hacker para a reconstrução da democracia. Começando por um resgate histórico e apontando caminhos para um futuro possível. Boa leitura! (R. A. P.) ![]() Posfácio Rafael Evangelista No último capítulo deste livro coloco uma pergunta provocativa: o que pode a cultura hacker contra o capitalismo de vigilância? O conceito de Shoshana Zuboff serve ali como sinedóque, metonímia, como significante para todo um conjunto de relações sociais baseadas em dados informacionais. A invenção desse modelo de negócio pelo Google (um conjunto de relações sociais baseadas em dados), no início do século XXI, marca uma virada para os negócios em torno da Internet. Estes não somente se tornam altamente lucrativos como dão direção e propósito ao capitalismo informacional: espalhar sensores pelo mundo, capazes de produzirem dados sobre tudo (coisas) e todos (pessoas) e fazer muito dinheiro com isso. Ao tentar responder à pergunta aponto para dois processos, que me pareciam fazer sentido à época (2017, quando este livro foi escrito): apropriação tecnológica e fazer parentes, ou seja, construir alianças políticas com aqueles que compartilham uma mesma condição de oprimido. Os hackers citados neste livro fizeram justamente isso: tomaram as rédeas das tecnologias que lhes extraiam o trabalho, a autoria, a liberdade, os produtos, os meios de vida, a capacidade de agência… E atuaram construindo pontes, associações, parcerias, colaborações, desenvolvendo suas identidades na luta. Ambas as ações – apropriação coletiva da tecnologia e construir alianças que nos modificam e nos fortificam – continuam parecendo um bom programa de ação, ainda que os desafios tenham se complexificado exponencialmente. E como se complexificaram! Se a primeira eleição de Donald Trump, em 2016, já era um dos primeiros indícios do gigantesco techlash que viveríamos – como os gringos gostam de chamar essa sensação de que algo deu errado na utopia digital –, de lá pra cá o gosto só ficou mais amargo. No Brasil, tivemos a eleição de Jair Bolsonaro, que copiou, tropicalizou e aprimorou técnicas de propaganda eleitoral desenvolvidas nos EUA. Foram montados milhares de grupos de WhatsApp, que buscavam emular estratégias de microssegmentação usadas na eleição dos EUA. Lá, no escândalo que ficou conhecido pelo nome da empresa que atuou coletando dados junto ao Facebook, Cambridge Analytica, as informações foram usadas para a criação de anúncios de acordo com o perfil dos usuários. Aqui, uma rede interconectada de controladores de grupos no aplicativo de mensagens atuou entregando propaganda reacionária, desinformação e jornalismo hiperpartidarizado direto na tela dos brasileiros (Evangelista e Bruno, 2019). Um agravante do problema nacional são as políticas de zero rating: quando a franquia de dados não é cobrada ao se acessar uma determinada plataforma digital que tem acordo com a operadora de internet. Um dos fatores que explicam o vício da população brasileira em WhatsApp é que o acesso a ele é, na prática, gratuito. Podemos dizer que, aproveitando-se disso, a extrema-direita hackeou o aplicativo para que se tornasse uma gigantesca máquina de propaganda. Mas, para além dos resultados eleitorais, o gosto amargo com as tecnologias digitais brota a partir de processos que começam antes, os quais levam à radicalização e à desordem informacional. A chegada no poder da extrema-direita é apenas seu ápice. Como dito, Zuboff marca o nascimento do capitalismo de vigilância no começo dos anos 2000. Porém, a máquina de engajamento das redes sociais só vai se consolidar no início da década seguinte. Ela é a contraparte que dá sentido ao novo modelo de negócios, o motor que se alimenta da energia psíquica dos bilhões que conecta. É por meio do que se convencionou chamar de engajamento que as plataformas extraem dados daqueles a quem vigiam, e cujo comportamento interessa prever e modificar. O conteúdo que mais interessa aos donos das redes sociais é o que desperta emoções, que faz o leitor reagir com emojis (representação codificada e hiperssimplificada de um sentimento), compartilhar naquela mesma ou em outras redes, redigir um comentário indignado ou, melhor ainda, produzir um “react”, um conteúdo derivado que contesta ou explora o original. Foi por meio do estímulo à produção desse tipo de conteúdo que a radicalização pôde se tornar real. Estímulo que também é econômico, pois muitas vezes o que se publica, e o que as plataformas amplificam, é remunerado por anúncios. O conteúdo feito sob medida para produzir engajamento é a base material, concreta, do cenário político que vivemos hoje. Por meio da discussão sobre como se desenvolveram esses mecanismos, que funcionam como pilares para a radicalização política, podemos esquadrinhar outros, análogos, e que incidem sobre outros campos da sociedade que não o da informação política – ainda que a informação, como elemento produzido a partir do dado, continue no centro. A partir daí, podemos retornar à pergunta original e atualizar a resposta sobre o potencial da cultura hacker para a reconstrução da democracia. Sim, pois a desestruturação da sociedade democrática não se dá somente por meio de governos autoritários, mas pela corrosão de instituições centenárias que, mal ou bem, garantem até agora um certo nível de participação política das pessoas na condução das coisas do mundo. Se, em meados do século XX, a tal democracia liberal não era lá muito democrática e às vezes nem muito liberal, hoje o horizonte de participação e atuação se estreita ainda mais e de uma maneira ainda mais insidiosa. É consenso a importância da informação de qualidade para o exercício da democracia. É a partir dessas informações que as pessoas atuam politicamente, também participando dos processos eleitorais. Os indivíduos formam suas opiniões e visões sobre o mundo em que vivem de duas formas: a partir de suas experiências diretas com o real, com sua presença física num mundo que conseguem experienciar diretamente; e por meio do relato de outros, que comunicam aos indivíduos como o mundo é para além de sua experiência concreta. Essas duas formas, contudo, não são estanques, ou seja, o que ouvimos sobre como o mundo é influencia na maneira como o percebemos diretamente, da mesma maneira como filtramos o que ouvimos a partir de nossas experiências. Diversas instituições medeiam os relatos sobre o mundo, a igreja, a arte, o sistema escolar, são alguns exemplos. Mas foi a imprensa a instituição que, ao longo do século XX, mais claramente se incumbiu de informar politicamente os cidadãos. Quando falamos da imprensa como instituição, não estamos nos restringindo aos veículos, mas a todo o sistema que gira em torno dos órgãos de imprensa e que os auxiliam. As regras legais que estipulam as responsabilidades dos repórteres, editores e donos de jornais; as escolas, em diversos níveis, que ensinam a produzir os mais diversos gêneros jornalísticos e ajudam a determinar quais são as produções de qualidade; os veículos críticos que discutem os acertos e erros dos profissionais de imprensa; os padrões éticos que estão na cabeça dos praticantes do campo e que informam o proceder profissional coletivo. Esse complexo, que mistura entidades formais e regras informais, às vezes implícitas, vai se modificando ao longo do tempo, aos sabor dos acontecimentos históricos e das transformações materiais. Ainda que a web surja em meados dos anos 1990, é nos anos 2000 que passa a ganhar mais centralidade como tecnologia de publicação de conteúdos, em texto e audiovisuais. Inicialmente, os jornais buscaram replicar no novo suporte seus modelos de negócio do período analógico. Ofereciam espaço aos anunciantes, intermediados por agências de publicidade, ao lado dos conteúdos que detinham os direitos. Entregavam alguns segundos de atenção da audiência segmentada, a qual buscava pelas informações confiáveis das marcas jornalísticas estabelecidas. Com os smartphones, o consumo de conteúdo online explode. A informação está no bolso e o aplicativo do veículo de confiança, instalado no aparelho, notifica a cada notícia recente. Grande mídia e mídias sociaisÉ nesse mesmo período que as redes sociais começam a ganhar mais tráfego e a concentrar a rede de contatos de todos. A relação passa a não ser mais dos indivíduos com as marcas famosas (com endereços na web conhecidos), mas também entre os indivíduos, que se conectam a partir de nomes de fantasia, registrados nas plataformas digitais de redes sociais. Os veículos já haviam tentado entrar na onda dos blogs, repetindo o formado em seus sites, e gradualmente foram se fazendo presentes nas plataformas. Parecia fazer mais sentido estar onde o leitor estava, nem que fosse para tentar atraí-lo para o site do veículo, onde se conseguia ganhar dinheiro vendendo anúncios. Para o público, seguir ou “ser amigo” do artista ou do jornalista famoso dava a sensação de proximidade. De repente, as análises aprofundadas e as informações de bastidores não estavam mais só na TV ou nos jornais, mas numa mesma sequência de mensagens junto com as fotos de seu colega de ensino médio ou da prima distante. As plataformas logo entenderam que fazia sentido atrair pra elas a presença e a produção de gente famosa e veículos de prestígio. Afinal, ninguém entra no Facebook ou no Twitter porque o software é bom, mas porque eventualmente o conteúdo relevante está lá de maneira mais fácil. Foram desenvolvidas políticas específicas visando atrair os veículos de imprensa, como compartilhamento de receita publicitária e diminuição de tempo de carregamento dos conteúdos. The New York Times, BuzzFeed, The Guardian, BBC News são alguns dos que firmaram parcerias. No Brasil, G1, R7, Veja, Estadão, entre outros. Rapidamente as plataformas absorvem dois patrimônios dos veículos tradicionais: o contato com os consumidores, que agora elas são os intermediários; e o contato com os anunciantes, principalmente via AdSense, a ferramenta do Google dominante no mercado que faz a intermediação da publicidade online. Com isso, passam a ditar indiretamente, via seus estímulos econômicos e o desenho de seus aplicativos, que formatos, pautas e angulações o jornalismo deve seguir. Isso passa por como os algoritmos são ajustados, na busca por usuários cada vez mais engajados no curte/comenta/compartilha. Os títulos das matérias, as manchetes, que antes sintetizavam, em uma frase com verbo ativo, o fato mais relevante noticiado, se tornam enigmas que às vezes chegam a desinformar, seguidos do famigerado “entenda”. As plataformas passam, inclusive, a dar cursos com dicas sobre a produção de conteúdos mais tendentes a viralização nas plataformas. Em 2019, o The Intercept1 revelou como o Google, durante o ápice do movimento contra Dilma Roussef, instruiu blogueiros sobre os temas mais quentes daquele momento. O exemplo de sucesso na ocasião foi o site O Antagonista, que estaria recebendo milhares de dólares por dia com anúncios. Para a plataforma, ainda que seus algoritmos privilegiem conteúdos sensacionalistas e de baixa qualidade, isso pouco importa. O dano de imagem incide sobre os veículos que ela hospeda, alguns claramente predatórios e descompromissados. A relação entre veículos de imprensa e plataformas digitais fica ainda mais desbalanceada no final da década de 2010, e um caso em especial é emblemático desse azedamento. Rompendo os compromissos estabelecidos, o Facebook decide, em 2018, que não vai mais privilegiar as informações publicadas pelos veículos de imprensa, e sim o contato entre conhecidos. Vai sugerir mais conteúdos de pessoas que se seguem e menos produções profissionais. No discurso, seria uma retomada dos contatos mais pessoais, próximos. Mas, na verdade, a plataforma passa a impulsionar conteúdos não profissionais que geram engajamento, publicados por pessoas que nem são tão próximas assim. Cria até um algoritmo para isso, o “Interações Sociais Significativas” (do inglês, Meaningful Social Interactions (MSI). Ele busca medir não a proximidade de relação entre as pessoas, mas o número de comentários, compartilhamentos e reações que o conteúdo teve. E cria um segundo número, o Downstream MSI, que é um preditor desse engajamento. Aquele conteúdo que a plataforma vê como com potencial para engajar passa a ser sugerido aos usuários. É claro, os veículos reclamam. E não só por estarem sendo prejudicados depois de tantos acordos, mas porque os efeitos das mudanças eram claramente socialmente divisivos. As denúncias de Frances Haugen, ex-funcionária da empresa, que vieram à tona em 2021, relatam que um editor do BuzzFeed chegou a mandar mensagens ao Facebook. Foi um alerta de que os conteúdos de pior qualidade de seu veículo, mas que provocavam mais discussões, estavam sendo privilegiados em detrimento das boas reportagens. Nascido como uma empresa voltada à produção de conteúdo viral para as redes sociais, o BuzzFeed vinha tentando produzir material de melhor qualidade, tendo inclusive conquistado alguns prêmios. Também não faltaram alertas vindos dos próprios funcionários do Facebook. Segundo documentos revelados por Haugen, funcionários alertaram que as mudanças no algoritmo estavam tendo o efeito contrário ao que a comunicação pública dizia desejar: estavam deixando os usuários mais raivosos e não criando laços mais afetivos entre as pessoas. Os funcionários apontaram também que os veículos e partidos políticos estavam orientando seus conteúdos no sentido de serem mais sensacionalistas e provocarem indignação, já que era isso que a plataforma estava valorizando. Havia solução para o problema, diziam os funcionários. Mas, como isso prejudicaria a performance medida pelo algoritmo, a proposta foi na prática engavetada. A história do algoritmo MSI do Facebook não é uma caso isolado. Outras plataformas de redes sociais, como o Twitter e o Instagram, também tiveram efeitos no sistema e nos formatos de produção de notícias. Mas ela é um exemplo claro de uma armadilha que acabou sendo montada e engoliu a imprensa tradicional. É um erro atribuir às plataformas a democratização da produção de notícias. O que elas fizeram foi subjugar todo um sistema de produção independente, com grande potencial de expansão a partir da popularização da Internet. Também não é o caso de negar os problemas com o sistema midiático antes do surgimento das plataformas. Só para nos determos no caso brasileiro, o cenário é, há anos, de concentração da propriedade nas mãos de poucos grupos monopolistas bastante poderosos. E, em diversos momentos, esses veículos de alguma forma produziram publicações e programas sensacionalistas, apelativos, que iam na direção contrária aos direitos humanos. Os programas policiais são o melhor exemplo, rotineiramente clamando por mais execuções policiais e transmitindo ideais conservadores. Porém, ao colocar um programa apelativo na grade, um rede de TV acaba sofrendo um dano de reputação, além de ser cobrada publicamente e, se for o caso, judicialmente. As plataformas conseguem estimular uma produção que favoreça seus interesses comerciais sem serem alvo de escrutínio público. PlataformasA plataformização vai além do jornalismo. Ela adentrou o mundo do trabalho e desestabilizou setores como o de restaurantes, o de entregas e o de transporte urbano. As plataformas sabem mais sobre os deslocamentos pela cidade do que as autoridades do Estado responsáveis pelo controle do tráfego. O planejamento urbano se vê obrigado a recorrer às empresas de transportes por aplicativos para ter dados Está afetando de maneira brutal a educação, de diversas maneiras. Professores concorrem com influencers, que frequentemente apelam a fatos “alternativos”, justamente para buscar engajamento. Os sistemas de gestão escolar plataformizados estabelecem um nível inédito de controle, seja dos profissionais da educação, seja dos alunos que, em casos extremos, tem seu olhar, durante as aulas, vigiado por câmeras, as quais buscam inferir níveis de atenção, alerta e estados emocionais. A autonomia pedagógica dos professores fica em xeque, pois os sistemas de controle informacional se impõem para garantir o cumprimento de um currículo padronizado e centralizado. Os professores perdem a capacidade de adaptarem o que darão em sala de aula à realidade local e política dos alunos. Se mistura também, é claro, às tentativas de controle político dos professores, vistos como subversivos. Ao mesmo tempo, as inteligências artificiais, que cada vez mais têm sido usadas para a produção de conteúdo escolar, o fazem a partir da extração e replicação automatizada de conhecimentos produzidos por educadores. Copia, remixa e reinterpreta o já produzido e, num segundo momento, concorre com esses profissionais no mercado de produção de materiais didáticos. A pervasividade das plataformas e seus efeitos em instituições centenárias é um processo que precisa ser levado mais à sério. Elas não só destroem instituições que pretendem substituir como dão a elas um caráter mais autoritário, fechado e centralizado. Frank Pasquale, no livro The Black Box Society (2015), fala sobre como sistemas automatizados e algoritmos secretos, utilizados pelas empresas de tecnologia, têm efeitos nos sistemas de reputação, que classificam pessoas a partir de dados pessoais, e nas finanças, ao oferecerem decisões sobre créditos a serem concedidos e investimentos. A crítica de Pasquale é um bom ponto de partida, mas não dá conta de um processo mais complexo e profundo. Um ponto importante, de fato, é o segredo. A sociedade está automatizando ações sem ter muita certeza sobre como essa automatização funciona. De maneira apressada, se discute também utilizar inteligência artificial em procedimentos do Judiciário, inclusive para minutas de decisões. Os sistemas que se cogita usar não foram desenvolvidos pela própria instituição, mas por empresas estrangeiras, sobre as quais não se tem convergência de interesses, propósitos e nem total capacidade de supervisão. IAIC’sEsses sistemas, controlados por certas empresas, substituem as instituições humanas, as quais têm partes socialmente distribuídas e compartilhadas. Pelo seu funcionamento, quem os controla e pela forma como esses sistemas são aplicados, podemos chamá-los de Instituições Autoritárias Inscritas em Código (IAIC). São autoritárias pois as decisões sobre seu desenho e operação estão restritos ao comando da empresa que a controla, o qual é pouco permeável a alertas dos próprios funcionários sobre os efeitos deletérios de seu funcionamento, vide o caso do MSI/Facebook. Além disso, a sociedade como um todo, ainda que seja extensivamente afetada, não conhece os algoritmos que sobre ela incidem. Os motoristas de aplicativos ou os motoboys que fazem entrega de refeições vivem tentando adivinhar os caprichos dos sistemas responsáveis por determinar o quanto receberão por fazerem seus trabalhos. Não há canais eficazes de questionamento das decisões tomadas pelas IAICs. Os responsáveis por elas fazem o máximo para evitar gastarem tempo e recursos processando questionamento a essas decisões. Também atuam sobre os governos, gastando rios de dinheiro com lobby em busca de evitarem a regulamentação do funcionamento desses sistemas. Por serem inscritas em código, as decisões nunca têm rosto. Funcionam automaticamente, como se fossem parte da natureza da plataforma, sem um responsável direto por cada decisão específica. Um conjunto de pessoas escreveu e validou o algoritmo, mas as decisões que ele operacionaliza não estão necessariamente descritas nele, serão uma relação a ser estabelecida com a base de dados. Se um carro autônomo atropela pessoas, será difícil condenar judicialmente os autores do código que o governou; situação completamente diferente se o condutor for humano. Por fim, são instituições porque conseguem mobilizar todo um conjunto diferente de atores externos que, apesar não se reduzirem a ela, não tem outra alternativa que não seguir suas regras. As associações de jornalistas, os veículos de mídia, as faculdades de comunicação, no fim do dia são levadas a seguirem o que as plataformas impõem. No livro Algorithmic Institutionalism: the changing rules of social and political life, Ricardo Mendonça, Fernando Filgueiras e Virgilio Almeida, fazem crítica semelhante a que estou estabelecendo aqui, ao argumentarem que algoritmos, especialmente os de larga escala e impacto social, devem ser compreendidos como instituições que moldam normas, padrões de comportamento e estruturas de poder. Ao propor a ideia de IAICs, no entanto, procuro apontar que não são exatamente os algoritmos a se tornarem instituições, mas sim empresas que se organizam a partir de códigos e estabelecem um novo tipo de institucionalidade de caráter autoritário. As IAICs têm uma forma de atuação diferente das instituições típicas do século XX. Michel Foucault (1977) descreveu estas, essencialmente modernas, como operando por uma lógica disciplinar. Incumbem-se de moldar as subjetividades, de forma a produzir “bons estudantes”, “bons soldados”, “pacientes saudáveis”, “bons trabalhadores”. Já Gilles Deleuze (1992), ao analisar uma sociedade que se anunciava repleta de dispositivos informacionais, no fim do século XX, vai falar em sociedade de controle, que se sobrepõe à sociedade disciplinar. Controle aqui precisa ser entendido a partir da cibernética, ou seja, como gerenciamento informacional. Yuk Hui postula a passagem de um modelo de moldagem, característico da sociedade disciplinar, para um de modulação, da sociedade de controle. Nesse sentido, a escola, por exemplo, se transforma de instituição de moldagem em dispositivo de modulação. A escola vai perdendo seu papel de formação, seja de bons operários (na sua versão mais conformista) ou de bons cidadãos (na sua versão emancipadora). Perde importância confinar alunos em um espaço fechado para que se tornem sujeitos. A educação cibernética trata os alunos como objetos informacionais, continuamente monitorados, sobre os quais operam mecanismos de modulação (Evangelista e Cruz, 2024). Trata-se de incidir com o input certo para se ter o output desejado. Pode acontecer no espaço da escola, mas também em casa, no ônibus, na praça, sobre alunos que não convivem em uma sala de aula real, mas estão interagindo com seus computadores, interligados informacionalmente. Na obra em que aprofundou sua conceituação sobre o capitalismo de vigilância, A Era do Capitalismo de Vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder (2021), lançada pouco depois da publicação deste livro, Shoshana Zuboff fala na emergência do que chama de poder instrumentário. Este seria de uma ordem diferente do poder totalitário, o qual entendo como seu antecessor e típico das sociedades disciplinares. Ela não fala nesses conceitos, sociedade disciplinar ou sociedade de controle, mas ilustra o totalitarismo com uma obra de ficção emblemática da disciplina, 1984, de George Orwell. Embora a sociedade de 1984 seja repleta de câmeras, elas estão lá como meio de imposição disciplinar de um regime autoritário. Não à toa, no final trágico, Winston Smith finalmente é reeducado, passa a amar o Grande Irmão e torna-se totalmente submisso. A ficção que Zuboff traz para ilustrar o poder instrumentário foi escrita por um cientista que buscou descrever o que para ele seria uma sociedade ideal, mas que foi lida pelos críticos da época como uma distopia: Walden 2: uma sociedade do futuro. O comportamentalista radical, B. F. Skinner, postulava ser inútil convencer (ou moldar) os indivíduos. Mais produtivo seria tratá-los como seres outros, sem recorrer à empatia, buscando produzir estímulos que conduzissem seus comportamentos, sem que eles percebessem. Em outras palavras, seria mais eficaz modular os indivíduos em vez de buscar moldá-los. Mark Zuckerberg, da Meta, e Larry Page, do Google, são citados por Zuboff – e poderíamos adicionar Elon Musk, do X – como “executivos da utopística aplicada”, ou seja, estão imbuídos de implementarem as visões de sociedade de Skinner. Ela cita ainda Alex Pentland, autor do conceito de “mineração da realidade”, no qual dados passivos dos usuários (como localização, padrões de movimento, chamadas telefônicas e interações on-line) se transformam em modelos preditivos do comportamento humano. Essas são ferramentas que sabemos hoje serem utilizadas pelo marketing, para a venda de produtos. No entanto, Musk e Peter Thiel, da Palantir, que presta serviços de segurança para a CIA e o Pentágono, são alguns dos integrantes de grupos de executivos e técnicos do Vale do Silício com poucas restrições ao uso dessas tecnologias numa verdadeira condução da humanidade. É a anulação da política das instituições do liberalismo, cujo caráter democrático sempre foi frágil, para um cenário ainda pior, em favor de um poder que controla o outro como se fosse uma espécie incapaz. Talvez caiba atualizar a pergunta do último capítulo deste livro, de modo a dar conta dos desafios muito mais distópicos que se colocam. O que pode a cultura hacker frente às novas Instituições Autoritárias Inscritas em Código, que ganharam o mundo a partir do financiamento proporcionado pelo capitalismo de vigilância, pela exploração dos dados para o lucro, e que agora se apresentam como viabilizadoras de um poder que “refaz a natureza humana” (Zuboff, 2021, p. 352)? Liberais, com seus governos e seus sistemas legislativos e de justiça, buscam quase desesperadamente “regular” as plataformas, dar às IAICs algum grau de transparência e controle público a partir das instituições do Estado. Mas o próprio Estado, e suas casas legislativas, acabam às vezes acuados, outras vezes pressionados e em vários momentos sendo de alguma forma comprados por empresas que conseguem modular a opinião pública. A cultura hacker pode ser ajudada por leis. Afinal, a GPL, a licença de software que é um verdadeiro manifesto político para o movimento software livre, foi um sucesso justamente por subverter o sistema de copyright tornando-o copyleft, impondo o compartilhamento e a retribuição sobre as tentativas de apropriação privada do trabalho colaborativo. Mas a cultura hacker não é exatamente sobre criar licenças, é sobre democratizar a tecnologia apropriando-se dela socialmente. Nesse sentido, as redes federadas e descentralizadas (fediverso), são softwares livres que buscam manter o espírito de conexão e comunicação livre da web de antes do capitalismo de vigilância. A partir de protocolos abertos, proporcionam instalações locais de softwares, com os dados dos usuários sendo mantidos sob controle dos mesmos, permitindo o estabelecimento de políticas de moderação e contato por eles acordadas. Os tais protocolos abertos permitem que cada local de instalação se comunique com todos os outros, e com uma diversidade de outros aplicativos, mas só quando e nas condições que a comunidade desejar. Para funcionar de fato como oposição e alternativa às IAICs, o movimento em torno do fediverso não pode se resumir a fazer bons softwares. A cultura hacker é sobre apropriação da tecnologia e também sobre fazer parentes, construir alianças entre identidades às vezes distintas mas muitas vezes complementares. A formação de coletivos, como alguns que já surgem em torno do fediverso, com os mais diversos tamanhos, com as mais diversas naturezas, pode permitir uma alternativa entre a grande centralização dos Estados, das Big Techs ou das instituições tradicionais, e soluções de caráter individual e individualistas, que isolam os sujeitos e enfraquecem os vínculos sociais. Redes descentralizadas e federadas podem funcionar não só como um refúgio frente a apropriação de dados de comportamento e das políticas de modulação, mas também como eventos de construção política em torno da tecnologia. De modo a que a própria tecnologia se torne mais diversa. Não é possível colocar o gênio de volta na garrafa. As transformações do século XX não se resumem aos efeitos das IAICs, elas são parte de uma própria reestruturação do sistema em que o autoritarismo se mostra presente. Mas não será possível colocar as práticas políticas, democráticas e justas que a humanidade precisa sem se considerar a tecnologia como elemento essencial. | A A |
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