Chumbo na asa da “Águia Americana”

 

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Chumbo na asa da “Águia Americana”

EUA sairão desmoralizados da guerra, militar e politicamente. País paga o preço dos atos de Trump – que não conteve a ascensão chinesa e se enfraqueceu eleitoralmente. Israel sabota a trégua negociada, do mesmo modo que fez contra o “Conselho de Paz de Gaza”

O chumbo na asa da “Águia Americana” e o desgaste de Israel podem viabilizar algum tipo de acordo. Mas, a intrincada rede de disputas regionais e globais envolvidas, incluindo a China e a robusta resistência do Irã, indicam que a tendência é das tensões continuarem dominando o cenário político e militar no Oriente Médio nos próximos tempos.

A iniciativa de EUA-Israel de voltarem a atacar conjuntamente o Irã e gerar mais uma guerra no Oriente Médio, reafirma uma histórica relação em que ambos têm objetivos comuns. Mas, há também diferenças entre os objetivos de Trump e Netanyahu.

Para Israel, trata-se de facilitar seu caminho para dominação da chamada “Grande Israel”, eliminando ou enfraquecendo seu inimigo regional mais forte. Para Trump, além do apoio a Israel no combate ao Irã, o outro alvo indireto é a Chinai, que é o principal inimigo declarado dos EUA na disputa estratégica da bipolarização geopolítica mundial. Pois o Irã é a principal base de relação politicamente mais próxima da China no Oriente Médio. Além de ser um grande fornecedor de petróleo, é uma peça importante na chamada Nova Rota da Seda.


Assimetrias e vantagens relativas do Irã

Desde o início, estava claro que havia uma assimetria significativa, em termos de poder bélico, favorável à aliança EUA-Israel. Mas, o Irã também tem diversas “vantagens” relativas, especialmente para quem está em posição de defesa e tem controle do território.

Vantagens “naturais” e demográficas, como um grande território acidentado, favorecendo a defesa, pois é a segunda superfície em extensão no Oriente Médio, depois da Arábia Saudita. Entretanto, soma 93 milhões de habitantes, o mais populoso da região.

Vantagens históricas pois, além de todo legado civilizacional desde o império persa (tecnologia, filosofia, arte, organização estatal e estratégia militar) e da resistência contra invasões após o fim do império persa, o Irã tem uma larga experiência de outras guerras defensivas e enfrentamento de golpes de estado pró-imperialistas, até a revolução iraniana de 1979, que derrubou a ditadura do Xá Reza Pahlavi e constituiu a soberania nacional na forma particular de uma “República Islâmica”, teocrática.

Depois disso, demonstrou força ao resistir a várias agressões imperialistas, principalmente com a histórica guerra de oito anos contra o Iraque (1980-1988), quando Sadam Hussein tentou uma invasão ao Irã menos de dois anos após a nova república. Naquele evento, além de interesses próprios, o Iraque também estava sendo instrumento de uma guerra por procuração dirigida pelos EUA. Além do mais, Sadam contou também com forte apoio militar da Rússia-URSS, além de outros países ocidentais e da China. No fim, o Irã acabou sendo vitorioso porque, apesar das perdas humanas e materiais incalculáveis, impediu completamente a invasão e a situação final foi de manutenção das suas fronteiras e um fortalecimento político e militar de sua soberania.

Finalmente, também obteve uma vitória na recente chamada “Guerra dos 12 dias” (junho de 2025) provocada por Israel e os EUA – na medida em que, apesar de perdas humanas e materiais substanciais, conseguiu manter mais uma vez os seus recursos fundamentais e seu território.

Mesmo tendo um poder econômico e militar bem inferior à da aliança EUA-Israel, antes da atual guerra o Irã tinha uma potência armada muito significativa, principalmente forças terrestres (exército e uma guarda nacional) numerosas e preparadas. Sendo o primeiro contingente militar do Oriente Médio se somarmos as forças terrestres, marinha e aeronáutica e sua capacidade de arregimentação de reservistas e mobilização popular em geral. Evidentemente, esses recursos geográficos, demográficos, humanos e militares, inibem uma invasão terrestre direta.

Além disso, tem uma produção bélica própria e moderna, especialmente de drones e mísseis, voltados principalmente para a defesa e contra-ataques em distâncias curtas e médias, dentro do campo do Oriente Médio, necessário e suficiente para as suas ações. Ou seja, é um sistema de mísseis e drones tecnicamente eficientes e eficazes para o tipo de estratégia que planejaram. Produzidos em grande escala, relativamente baratos, avançados tecnologicamente e com capacidade de defesa, contra-ataque, dispersão e desorientação das forças defensivas dos EUA-Israel, afora o levantamento de informações.


Em outras palavras, são capazes de desgastar os recursos de mísseis defensivos de Israel e dos EUA, que são muito caros e com fabricação e manutenção de estoques mais lentas, dificultando ataques sistemáticos por um período muito longo. Ademais, se encontram bem protegidos em túneis que dificultam o ataque às suas bases e fábricas. Isso indicava ter uma estratégia mais planejada para enfrentar uma guerra de médio ou longo prazos. Inclusive racionalizando o uso de seus recursos militares, principalmente do estoque mísseis e drones.

Situação política interna dos estados diretamente envolvidos

O regime do Irã vinha enfrentando um desgaste significativo tanto por problemas de ordem econômica (especialmente devido aos bloqueios e sanções dos EUA) como por suas consequências sociais. O que se somou às insatisfações mais antigas, devido ao autoritarismo e a imposição de regras religiosas pelo estado teocrático, que atingem principalmente as mulheres e a juventude.

Manifestações de grande vulto foram realizadas contra o governo/regime, sendo recebidas com uma repressão violenta, que causou milhares de mortes, além de feridos, presos e presas. As manifestações populares, inicialmente legítimas, acabaram sendo incentivadas e manipuladas por Israel e EUA.

Entretanto, após as manifestações, o governo e o regime continuaram tendo apoio popular suficiente assim como capacidade de reprimir a oposição. O Irã tem um parlamento eleito onde existem dois campos políticos (um considerado “ortodoxo” e outro considerado “reformista”) e uma representação de minorias religiosas dentro dele. Além do mais, o atual presidente (Masoud Pezeshkian), eleito em julho de 2024 pela maioria dos iranianos, é do campo político considerado “reformista” e “moderado”. Apesar disso, o governo e o parlamento têm mostrado uma unidade completa contra as oposições internas e os ataques externos.

O imperialismo dos EUA vive, especialmente a partir do século XXI, um processo de declínio relativo. Não é uma derrocada final ou ocaso imediato e completo, mas um declínio principalmente em relação ao avanço chinês. Continua sendo o maior PIB mundial pelos critérios do FMI (PIB nominal medido em dólar) mas, pelos critérios do Banco Mundial (PIB PPC – por Paridade de Poder de Compra) foi superado pela China desde 2015. Houve uma progressiva e grande desindustrialização, o déficit comercial continua enorme e o déficit público cresce incontrolavelmente. Enquanto isso, as condições de vida do povo estadunidense têm se deteriorado e a imagem de seu modo de vida cultural e seu soft power estão declinando dentro e fora do país. Aumenta a polarização social e política interna, assim como a perda de legitimidade dos governos, partidos e do próprio regime político. Mas, ao mesmo tempo, os Estados Unidos ainda continuam avançando na sua produção econômica, na sua acumulação de capitais, suas grandes empresas monopolistas continuam as maiores do mundo. Suas forças armadas continuam sendo as principais, sua produção tecnológica continua avançando. Mas, segue perdendo espaço relativo para a China, sem que os governos do Partido Democrata e o próprio governo Trump 1 tenham conseguido enfrentá-lo satisfatoriamente. Trump 2 chegou com esse objetivo principalii.

Mas Trump, com sua estratégia, diferente de Biden, atacou também os aliados históricos dos EUA na Europa. Além de assassinar o líder religioso dos mulçumanos xiitas, atacou até o papa católico, que é estadunidense. E, com isso, perdeu o apoio inclusive da única liderança governante da Europa com quem ainda tinha boas relações: Georgia Meloni, da Itália, que se sentiu obrigada a romper. E tende a diminuir o apoio entre os católicos estadunidenses, também por ter usado imagens se comparando a Jesus Cristo.

Já o estado sionista e genocida de Israel, tem sido historicamente dependente de apoios econômicos, políticos diplomáticos e militares dos EUA, além do comércio e investimentos de outros países (como, atualmente, a China). Mas, essa é uma relação simbiótica, na qual os EUA são indispensáveis para sustentar o estado sionista e Israel funciona como tropa de choque do imperialismo estadunidense no Oriente Médio e teve um papel fundamental para destruir os projetos nacionalistas/anti-imperialistas na região.

Porém, enquanto nos EUA a maioria do povo vem ampliando sua rejeição a esta guerra, em termos de oposição ativa e passiva (expressa na maioria do eleitorado), como já estava ocorrendo sobre o genocídio em Gaza, em Israel existe uma maioria popular que tem apoiado o sionismo em suas vertentes mais agressivas, expansionistas e fascistas. Contudo, já com algumas fissuras, devido os ataques sofridos, que mostram seus limites de defesa. Por outro lado, ambos, Israel e EUA têm piorado muito suas imagens em termos internacionais, inclusive entre setores da política e da cultura burguesas, liberal e conservadora.

O desenrolar da guerra e as negociações

Provavelmente, Trump e Netanyahu apostaram na insatisfação e instabilidade política do Irã para investir na ampliação da crise e numa mudança de regime através de uma revolta popular ou de um golpe interno. Além de possíveis ações de grupos étnicos e nacionais internos que têm perspectivas separatistas e de independência, como é o caso dos curdos. Ou repetir o que ocorreu na Venezuela, com uma decapitação em parte física e em parte política da liderança nacional e o controle do governo, mesmo não havendo mudança de regime.

Várias fontes indicam que houve algum grau de traição também no Irã, como aconteceu na Venezuela, de um comandante militar iraniano que teria fornecido as informações fundamentais para que o ataque inicial dos EUA e Israel conseguissem assassinar o Aiatolá Khamenei e outros dirigentes. Mas não se conhecem outras deserções no centro do poder.

Além do Aiatolá, o Irã perdeu diversos comandantes militares e dirigentes políticos. Mas promoveu uma rápida substituição, inclusive do Aiatolá, através do seu filho, o que deu uma demonstração de unidade e simbolicamente mostrou que não haveria mudanças nas políticas do regime/governo.

Assim, os ataques imperialistas e o assassinato de Ali Khamenei acabaram tendo um efeito bumerangue, fortalecendo internamente o governo, colocando a oposição política e social na defensiva e neutralizando os grupos étnicos e nacionais minoritários – como os curdos, que não intervieram militarmente contra o governo, apesar de serem estimulados por EUA e Israel.

O Irã está sofrendo uma destruição de grandes proporções (tanto material como de quadros dirigentes e humanos em geral), na medida em que a capacidade destrutiva dos ataques aéreos dos EUA e de Israel é superior à do Irã e são bem sustentados por informações de satélites.

Porém, os estragos provocados pelas ações do Irã em Israel e nas bases dos EUA situadas em vários outros países da região, têm sido inéditos e mostram sua capacidade de contra-atacar e destruir uma parte significativa dos meios de ataque e de inteligência estadunidenses na região e dos sionistas dentro do seu próprio país. Aumentando a insatisfação popular dentro dos EUA e de Israel e colocando seus aliados na defensiva.

O bloqueio do Estreito de Ormuz foi um dos instrumentos mais importantes para a defesa do Irã, e também para a atitude defensiva de todos os países exportadores e importadores de mercadorias, principalmente petróleo e fertilizantes. Além de provocar o agravamento das contradições entre os EUA e seus históricos aliados na região e na Europa. Assim como entre os países da Europa entre si, aprofundando a própria crise da União Europeia e da OTAN.

Tudo isso indica que Trump e os sionistas cometeram um enorme erro. Idealizaram uma “oportunidade” de promover uma derrota rápida do Irã e não se prepararam para as respostas estratégicas e táticas que vieram, no sentido de sustentar uma guerra mais prolongada.

Trump, como sabemos, sempre se apresenta publicamente como o dono das iniciativas e dos ataques subsequentes de todo tipo. Significa que ele sai de um processo para outro, independentemente do resultado completo do anterior, ou de uma eventual vitória ou derrota, para manter sempre, publicamente, a iniciativa. Mesmo que seja blefando, ameaçando, elogiando, ziguezagueando, mentindo e se contradizendo. E, qualquer que seja o resultado, sempre proclamar-se vitorioso.

Agora, em vários momentos, tem procurado justificativas para encerrar a guerra, ora dizendo que a guerra acabou ou que acabaria em pouco tempo, que o Irã está destruído etc. E afirmando um processo de negociações com o governo do Irã, que o vinha negando.

Agora, propostas de acordos e uma trégua estão em curso. No dia 8 de abril, Trump anunciou uma “trégua de 15 dias” baseada em suposto acordo com o Irã. Os iranianos vinham afirmando que só aceitariam um acordo de paz definitivo e com base em 10 pontos que apresentou e não tréguas (que são temporárias). Mas, acabou sendo convencido pela diplomacia chinesa a aceitar uma trégua de 15 dias enquanto negociam um acordo de paz intermediado pelo Paquistão.

Israel continuou atacando o Líbano e o primeiro round das negociações não avançou nada. Em seguida, os EUA anunciaram o seu próprio bloqueio de Ormuz (com várias polêmicas sobre sua efetividade), a União Europeia informou que vai apresentar um plano para abrir o Estreito de Ormuz após um acordo de paz e a Rússia se dispôs a administrar o urânio enriquecido pelo Irã no território russo. Já Israel e o Líbano (que não têm relações diplomáticas mútuas) acabaram de abrir uma suposta negociação de paz em separado. Não será fácil um efetivo acordo de paz, pois o Hezbollah vai exigir a saída de Israel dos territórios ocupados, enquanto que Tel Aviv vai querer consolidar a ocupação e exigir que o Hezbollah deponha as armas. Um segundo round de negociações entre EUA e Irã está previsto.

Chumbo na asa da Águia Americana

Como citamos mais acima, os EUA e Israel, além dos objetivos comuns e simbióticos, têm objetivos próprios na ação regional. O ataque direto de ambos ao Irã e, indiretamente, dos EUA à China. Sendo, portanto, uma guerra inserida na bipolarização interimperialista que está em curso e dentro da qual outros conflitos militares, intervenções políticas, bloqueios, sanções, tarifas e acordos econômicos e tecnológicos vêm ocorrendo nos últimos anos. Tendo, de um lado, um bloco encabeçado pelos EUA e seus aliados imperialistas históricos da Europa e Japão e, de outro, o bloco liderado por China e Rússia.

Qualquer que seja o resultado, Trump e Netanyahu vão cantar vitória. Mas, o objetivo dos EUA-Israel de promover uma mudança ou controle do regime/governo não vai acontecer, mostrando que já há uma derrota de ambos nos seus principais objetivos diretos. Assim, o Irã está sendo vitorioso.

Porém, um objetivo menor de ambos seria manter o Irã enfraquecido nas suas capacidades militares, industriais, infraestruturais e energéticas (e sua exportação de petróleo), no sentido de piorar as condições materiais de vida dos iranianos. E, assim, promover um desgaste de médio e longo prazos ao governo e ao regime político, tentando criar condições para ataques futuros. O grau de estrago no Irã foi e continua sendo muito grande. E é, dentro da vitória mais geral que o Irã vem obtendo, uma derrota parcial. Mas, considerando a estratégia iraniana, deve ter sido um custo previsto, porque seria impossível impedir os bombardeios intensos que estão sendo feitos. Sobre isso, o Irã anunciou que já teve um prejuízo de US$ 270 bilhões. Por outro lado, até aqui não houve notícias de novos ataques que atingissem sua tecnologia e indústria de enriquecimento de urânio para fins pacíficos.

Assim sendo, esta guerra evidenciou ainda mais o declínio relativo do imperialismo estadunidense, agora na versão MAGA (Make América Great Again) de Trump. Além do que, do ponto de vista militar, é mais um caso em que o imperialismo made in USA consegue promover grandes destruições, mas não efetiva a conquista – como já havia acontecido no Iraque, Afeganistão e Líbia e, décadas atrás, na Coreia e no Vietnã.

Há uma grande desmoralização dos EUA, que pagam o preço das ações mais desastradas de Trump, que se somam ao estoque de desgastes e desastres anteriores. Crescem também as divergências dentro do próprio Partido Republicano e entre os defensores do projeto trumpista MAGA (que prometia demagogicamente evitar a presença direta dos EUA no front militar e acabar as guerras no mundo e que pretendia ganhar o Prêmio Nobel da Paz).

Portanto, nem com as políticas do Partido Democrata, nem do Partido Republicano no viés da vertente trumpista, os EUA conseguem bloquear a ascensão chinesa, na disputa pela hegemonia da ordem mundial capitalista. Enfim, a China é uma potência que sai vitoriosa dessa guerra.

Israel também sai derrotado no atacado mas, até aqui, com alguns saldos parciais. Ficou evidente que não é somente um atirador, mas também telhado vulnerável, como demonstraram as falhas no seu “Domo de Ferro”. Além disso, diante da demonstração de força do Irã e do isolamento em relação à Europa, ficou ainda mais dependente do apoio militar dos EUA e sofrendo fissuras internas. E a situação política de Netanyahu tende a se complicar com o fim da guerra.

O Dragão chinês e sua vitória na sombra

Já em relação a China, Trump também não vai conseguir o seu objetivo. Ao contrário, a China é uma vitoriosa nessa guerra, mesmo tendo ficado na sombra, evitando se expor. Em primeiro lugar, porque está conseguindo manter a importação de petróleo (além de possuir um grande estoque internamente e ter outras fontes) e também estar dando condições materiais para o Irã, portanto, com a manutenção da exportação através do Estreito de Ormuz. Que, a partir de certo momento, já vinha sendo permitido para os petroleiros em direção à China. E está construindo uma imagem (soft power) de quem procura resolver os conflitos na base da negociação.

Essa guerra, qualquer que seja o resultado, já criou algumas dificuldades para os projetos expansionistas da China na região, especialmente para a estratégica “Nova Rota da Seda” (também prejudicada pelas outras guerras na região – Síria, Líbano, Palestina, Iraque e em Israel. Além dos ataques às bases dos EUA em outros países). Mas, nada que não possa ser contornado com o tempo e negociações que interessem também aos capitalistas e elites políticas de cada um desses países e diminuam as turbulências na região.

Contudo, pouco afetou os avanços gerais, tecnológicos, econômicos, da sua moeda (Yuan) e a acumulação de riquezas para o capitalismo chinês. Por exemplo, nos dois primeiros meses de 2026 a China ampliou muito significativamente a sua exportação de mercadorias em geral. Manteve sua exportação de capitais. Além disso, uma pesquisa recente mostrou que 90% das empresas capitalistas estadunidenses presentes na China pretendem manter a sua permanência lá. O dólar continuou seu progressivo enfraquecimento internacional e, desde a posse de Trump, perdeu 15% do valor em relação ao Euro e 5% em relação ao Yuan, fato acompanhado da diminuição das reservas nacionais e do comércio internacional em dólar.

Adicionalmente, diante da destruição da infraestrutura iraniana, a China deverá se apresentar para exportar seus capitais para a reconstrução (IED, financiamentos e empréstimos), obtendo lucros também nisso e aumentando a dependência do Irã. E, aliás, em termos globais, os efeitos da guerra vão ampliar o mercado para os seus sistemas de energia eólica e solar e seus automóveis elétricos (que têm capacidade ociosa na China), como alternativas às crises envolvendo o petróleo e o dólar.

Ademais, sabemos que a China consegue ser, ao mesmo tempo, o principal parceiro econômico do Irã e o maior exportador de mercadorias para Israel (de quem é o segundo parceiro econômico geral, depois dos EUA). Exportações que cresceram, ano a ano, depois do início da operação sionista de extermínio genocida na Palestina. Ou seja, apesar de declarações públicas contra as ações militares de Israel e em defesa da autodeterminação do povo palestino, na prática a China é uma das principais fontes de sustentação material do estado sionista de Israel e de suas agressões. Algo semelhante acontece na Guerra Rússia-Ucrânia, onde a China consegue ser também, ao mesmo tempo, o principal parceiro econômico dos dois países. Assim como continua sendo o maior parceiro comercial dos EUA fora do tratado de livre comércio USMCA (EUA-México-Canadá).

Enquanto Trump atacava o Papa e perdia aliados, Xi Jinping recebia em Pequim, em abril, visitas diplomáticas de líderes de estados, governos e partidos de países como Espanha, Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), Vietnam, Moçambique e Rússia e a líder da oposição (do partido Kuomintang) de Taiwan.

Mas, essa convivência de capitais de várias origens no mesmo território, inclusive de inimigos geopolíticos, é uma das características do crepúsculo da ordem mundial chamada “globalização” imperialista, sob a hegemonia unipolar dos EUA. Que a sanha protecionista de Trump não conseguirá eliminar agora, na nascente novíssima ordem mundial (ou seja, a nova fase do sistema imperialista), a fase da bipolarização interimperialista.

Enfim, a estratégia da China em suas relações com todos os atores não se alterou: buscar uma estabilização da nova ordem mundial capitalista-imperialista nascente, que facilite seu protagonismoiii.

Outros “atores”

A Rússia, cuja participação e saldos nessa guerra ainda precisam ser melhor avaliados, tem um comércio bilateral com o Irã principalmente baseado em bens primários. Mas, tem de uma parceria estratégica muito importante em termos de intercâmbio militar, de tecnologias de uso híbrido (civil e militar) e no setor energético, inclusive nuclear. Importou drones militares iranianos que foram usados contra a Ucrânia e agora é acusada de estar exportando-os para o Irã (o que tem negado publicamente). Mas, há sinais de que vem dando suporte de informações via satélite (que também têm uso híbrido) para a artilharia iraniana (o que também é negado).

Tentando se inserir no processo de negociações, Putin acaba de anunciar que está disposto a administrar o urânio enriquecido iraniano no território russo. Trump e Israel talvez concordem, resta saber se o Irá aceitaria, pois seria uma concessão muito grande, aparentando derrota. Assim como em outros contextos (como na Síria e Venezuela), a Rússia foi contida e ficou sem um protagonismo maior, devido a sua própria encrenca na Ucrânia, e preferiu ficar numa posição de pouca visibilidade nesta guerra. Mas, por outro lado, a guerra ajudou a tirar as atenções da Ucrânia, onde seus avanços territoriais continuam lentos e limitados há muito tempo.

A Europa também sai derrotada do processo. A maioria dos seus países foram contra a guerra, mas o papel da UE e dos países membros foi pouco relevante, exceto por ter contribuído para o isolamento de Trump e, principalmente, de Israel e do aprofundamento da crise na OTAN. E os países membros da UE continuam batendo cabeça sobre como enfrentar as guerras no Oriente Médio, a Trump, a Rússia e o conjunto de sua própria crise. Já os países do G7 fora da Europa (Canadá e Japão) ficaram praticamente fora do cenário. A OTAN ficou afastada do processo, devido à posição dos europeus, que não aceitaram as pressões de Trump. A ONU não foi além de declarações, sem poder de influenciar minimamente o curso da guerra. E o BRICS foi completamente neutralizado e invisível, tendo um papel praticamente nulo até agora, demonstrando sua grande insuficiência como uma articulação institucional superficial de países do chamado, controvertidamente, “sul global”.

Mega chumbo na Águia MAGA

Enfim. Não obstante a destruição provocada ao Irã, o saldo de Trump e dos EUA até aqui é de grande derrota: material, geopolítica, simbólica e na situação interna. Um grande revés político, moral e eleitoral.

Pois o chumbo recebido não veio somente do Irã. Vem do povo estadunidense, da chamada opinião pública mundial, da maioria da mídia burguesa, dos históricos aliados europeus e do Oriente Médio, do G7, da OTAN, da ONU, do Vaticano, da China e da Rússia. Vai ser difícil Trump se conformar com isso. E nunca se sabe qual será seu próximo passo.

Apesar das tentativas de negociações que continuam em andamento, não há sinais de paz duradoura no horizonte. Enquanto, por um lado, o estado sionista perdurar com seu projeto de Grande Israel não haverá paz na região. Por outro lado, o Oriente Médio e o Irã em especial (como vimos), é uma pedra no meio da bipolarização interimperialista que os EUA querem remover.

Da mesma forma que o suposto acordo do chamado “Conselho de Paz de Gaza” foi sabotado por Israel, o mesmo está acontecendo com a “trégua” negociada. Os pontos apresentados pelos EUA e o Irã não podiam ser apoiados pelo lado oposto e Israel não participou das negociações, se resguardando para o boicote

São muitos os indícios de divergências entre EUA e Israel sobre a continuidade da guerra e como encerrá-la. Pois, apesar da simbiose, começaram a guerra com objetivos diferenciados. Enquanto Trump parece buscar alguma saída honrosa (para tentar cantar vitória), Israel manteve posição de recusa a acordos e sabotou a efêmera tentativa de trégua de 8 de abril, mantendo e até aprofundando os ataques ao Líbano. Isso tem provocado novas desavenças entre EUA e Israel (particularmente entre Trump e Netanyahu), pois Trump agora está pressionando Israel a fazer concessões.

Se os EUA fecharem algum acordo de não agressão direta com o Irã, Israel muito dificilmente terá condições imediatas de continuar atacando isoladamente. Mas, enquanto isso, o sionismo aproveita a situação para tentar manter seus avanços na colonização da Cisjordânia ocupada, nos ataques em Gaza e nas recentes ocupações no Líbano.

Só poderia vir a ocorrer algum acordo, se as três partes diretamente envolvidas (EUA-Israel e Irã) flexibilizassem os pontos apresentados para um mínimo capaz de interromper os ataques e contra-ataques militares mútuos e a promover a abertura do estreito de Ormuz. Mas, se isso ocorrer, será apenas o fim de uma batalha, pois não haverá paz real e duradoura no Oriente-Médio enquanto perdurarem as disputas e confrontos regionais situados no pano de fundo da bipolarização interimperialista global.

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