SOCIEDADE

 



A

A

    

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção.
Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
© Tomaz Silva/Agência Brasil

A cada 24 horas, 11 pessoas foram mortas pelas polícias em nove estados brasileiros, em 2024.

Foram 4.068 pessoas mortas decorrentes de intervenção policial, sendo 3.066 negras. O número pode ser ainda maior, já que uma em cada oito mortes não tiveram a cor da pele informada.

Os dados fazem parte da sexta edição do relatório “Pele Alvo: crônicas de dor e luta", divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança. O levantamento analisou dados de 2024 nos estados do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.

Os dados foram obtidos via Lei de Acesso à Informação.

O relatório mostra que 86% das vítimas das ações policiais, quando a cor é informada, são negras ou pardas, revelando quem é o principal alvo da violência estatal, como reflete o professor de Direito Penal e Conselheiro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, Cleifson Dias

"A situação da violência no Brasil, ela tem características tanto patrimonialistas, sobretudo patrimonialistas, e raciais. Ser pobre e ser negro no Brasil significa fazer parte de um grupo populacional que é alvo preferencial, mas é alvo sobretudo projetado para a atuação da violência de Estado. Seja a violência direta, essa que a gente tá comentando, a praticada por um agente público, quanto a violência indireta praticada pela ausência de políticas públicas".

Em todos os nove estados, pessoas negras têm mais chances de serem mortas pela polícia do que pessoas brancas. 

Em Pernambuco, 92,6% das vítimas eram negras. No Amazonas, o número chega a 90%. 

No Rio de Janeiro, negros têm 4,5 vezes mais chances de serem mortos pela polícia. Foram 546 pessoas em 2024. 

E na Bahia onde a polícia é mais letal do país, foram 1.556 mortes. Negros têm seis vezes mais chances de serem mortos no estado. 

A maior parte das vítimas é jovem: 57% tinham entre 18 e 29 anos, e quase 300 eram adolescentes entre 12 e 17 anos de idade.

Mesmo após 6 anos de levantamento, os números mostram pouca mudança. Houve uma redução de apenas 4,4% nas mortes decorrentes de intervenção policial no período, quando considerados todos os estados que fazem parte do estudo.   

Quando analisados um a um, São Paulo teve o maior aumento de um ano para outro entre os nove estados — acréscimo de 59,2% nas mortes pelas polícias.

O relatório também traz um plano de enfrentamento ao racismo institucional, com recomendações urgentes como: maior transparência nos dados, uso de tecnologia, melhor formação policial, programas de saúde mental para agentes e responsabilização por abusos em operações. 

Cleifson Dias reforça que esse direcionamento já circula há décadas enquanto ideias, mas segue sendo negligenciado.

"Não é absolutamente desconhecido de nenhum pesquisador, nenhum gestor responsável ou coisa que o valha, de que a melhor política criminal ainda é uma boa política social. Isso foi dito no âmbito da criminologia. Por que eu consigo investir tanto em publicidade, propaganda, consigo investir tanto na segurança pública, mas invisto tão pouco em educação? Há ausência de educação formal, ausência de segurança, de saúde, de transporte, de cultura, lazer. E não somente a ausência do ponto de vista da inexistência, mas também, quando a gente sabota essa infraestrutura, a gente também promove essa mesma morte". 

Além dos dados estatísticos, esta edição do relatório conta com entrevistas de pessoas negras, de diversas gerações, dos estados analisados, onde elas compartilham experiências de violência policial.

 

*Com produção de Luciene Cruz

A

A

EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇAO

Portal Membro desde 01/10/2015

Segmento: Governo

Premiações: Prêmio Portal do Ano 2016

 


A

A

    

             Para decifrar o dinheiro – e tirá-lo dos parasitas

Cassino Global, livro recém-lançado em inglês, expõe os mecanismos empregados pelos rentistas para financeirizar e capturar a riqueza coletiva. Autora adverte: vem aí a grande crise ligada à IA. É preciso formular alternativas para o pós-desastre

Por Ann Pettifor, no Tribune | Tradução: Antonio Martins

MAIS:
The Global Casinolivro mais recente de Ann Pettifor, foi lançado em 27 de janeiro, pela Verso Books. O texto a seguir é uma apresentação da obra, redigida pela própria autora

Por mais de vinte anos, entre 1980 e 2016, Donald Trump construiu, explorou e depois levou à falência um império de cassinos — o Trump Entertainment Resorts — ao longo do icônico calçadão de Atlantic City. Seus cassinos privaram os apostadores de ganhos suados, arruinaram detentores de títulos e investidores do mercado de ações e terminaram como fracassos arrastados e custosos, embora enriquecessem Trump. “O dinheiro que tirei de lá foi incrível”, disse ele ao New York Times.

O presidente do cassino era notório por emitir ações e contrair empréstimos enormes, em títulos de alto risco, para financiar seus cassinos em Atlantic City. Tudo isso para dilapidar os ativos e enriquecer a si mesmo e sua família. Ações vendidas a incautos que logo despencaram em valor; títulos (promessas de pagamento) que ele deixou de honrar; e cassinos que faliram — não uma, nem duas, mas cinco vezes.


Assim como Trump, Wall Street emitiu, desde a grande crise financeira de 2007, quantidades desconhecidas de dívida em mercados privados e não regulamentados. Isso tem levado analistas financeiros a alertarem para crescentes problemas de endividamento nos mercados de gestão de ativos e crédito privado — e para uma repetição da crise. Os grandes bancos de Wall Street também estão implicados: eles já possuem US$ 1,3 trilhão em empréstimos para o setor bancário paralelo não regulamentado. Assim como Trump, Wall Street usou a desregulamentação financeira para saquear a economia global, explorar a natureza e enriquecer enormemente o 1% mais rico.

Da mesma forma, os gigantes do setor de tecnologia criaram “veículos de propósito específico” [(special porpouse vehicles) para ocultar de seus balanços patrimoniais US$ 120 bilhões em empréstimos, feitos para financiar data centers. Temos razão em nos preocupar com os riscos financeiros da enorme aposta de Wall Street na inteligência artificial. Os bilionários do setor estão apostando mais de US$ 1 trilhão em uma tecnologia — Inteligência Artificial Geral (IAG) — que ainda não existe, mas que promete literalmente “o mundo”. Essa aposta é respaldada por especuladores, grandes e pequenos, que já investiram US$ 5 trilhões no sucesso dessa aposta.

O capitalismo sempre produziu empreendedores ousados, criativos e arrojados, aqueles que sonharam, investiram e construíram ferrovias, computadores e a internet. A diferença hoje é que, ao contrário das ferrovias, dos computadores e até mesmo da internet, a Inteligência Artificial Geral (IAG) não existe A bolha da IAG pode ser apenas uma vasta manobra tecno-distópica, arquitetada para colocar os chefões do Vale do Silício no controle político e financeiro de uma força de trabalho vasta, globalizada e enfraquecida. Esta é a guerra de classes em sua forma mais brutal: a que se tornou possível graças a um sistema financeiro global fora de controle.

Assim como Trump, seus amigos em Wall Street e nas grandes empresas de tecnologia estão fascinados pela “novidade” criminosa que são as criptomoedas. Na véspera de sua posse, o presidente e sua esposa lançaram memes digitais, $TRUMP e $MELANIA, que adicionaram milhões à sua fortuna conjunta. Em apenas dois dias de mandato, a presidência dos EUA já havia se tornado mais rentável para Trump do que para qualquer outro presidente na história norte-americana, segundo o editor sênior da revista Forbes. E, assim como Trump, Wall Street e os EUA estão “mais uma vez no centro de uma tempestade fiscal e financeira global”, como argumenta John Plender, um distinto colunista do Financial Times.

O Cassino Global

Esses são problemas do que eu chamo de Cassino Global, que viabiliza as apostas insanas nos mercados financeiros internacionais e produz impacto direto em nossas aposentadorias, no nosso sustento diário, na energia e na habitação; mas também na biosfera.

Os hábitos de especulação dos mercados financeiros globais são em grande parte invisíveis para quem não é economista e para o público em geral. A visão convencional do público sobre a relação entre economia e democracia é uma ilusão, assim como foi, por tempos, muito difundida, a noção convencional de que o clima era a mesma coisa que o tempo.

Nós, e as economias em que vivemos, não somos governados por políticos eleitos, ditadores ou seus funcionários públicos. As principais decisões políticas são tomadas por operadores no sistema financeiro global, em grande parte desregulamentado. O valor da economia e da moeda de uma nação é determinado, em grande medida, por agentes invisíveis nos mercados financeiros. O mesmo ocorre com as taxas de juros de um país, que, por sua vez, determinam se os empresários estão dispostos, ou podem arcar com, os custos de investir na economia doméstica. O valor de nossas aposentadorias e os preços de alimentos, energia e moradia são alavancas econômicas essenciais, em grande parte manipuladas por financistas irresponsáveis, e jamais obrigados a prestar contas, que operam nos mercados financeiros e de commodities internacionais.


Embora nossos políticos eleitos possam ser culpados, não podemos, com toda a sinceridade, culpá-los pelo fracasso financeiro e pela volatilidade econômica. Juntamente com os tecnocratas dos bancos centrais, as decisões e as atividades de banqueiros globais, gestores de ativos, proprietários de fundos de hedge e profissionais de gestão de ativos — que nunca se candidatam a cargos eletivos — têm um impacto muito maior em nossas economias, vidas e meios de subsistência. De maneiras poderosas, ainda que invisíveis. E, no entanto, suas atividades e debates sobre o sistema são minimizados. Ficamos obcecados com os últimos números da inflação e do desemprego, convencidos por economistas de que ambos são, em grande parte, resultado de decisões tomadas pelos governantes e bancos centrais.

Apesar disso, o público não se deixa enganar facilmente. Embora desconheça como essas decisões são tomadas, tem plena consciência de que os mercados ditam as políticas econômicas e de que os políticos eleitos são relativamente impotentes diante desses mercados. Contudo, compreender melhor como o sistema funciona (para poder transformá-lo) torna-se mais difícil devido ao papel jogado pela maior parte dos economistas. Eles negligenciam amplamente a questão do dinheiro e das finanças, preferindo se concentrar no tangível: as transações econômicas internas e o comércio.

Para a maioria dos economistas tradicionais, o foco da economia é restrito e chão, situado no que se denomina nível micro: o indivíduo, a família e a empresa. Os microeconomistas tendem a negligenciar o impacto do sistema internacional e a se concentrar nos eventos da “economia do dia a dia”, que por acaso é o título de um livro da ministra da Fazenda britânica [Chancellor of the Exchequer], Rachel Reeves. Ela define “três partes constituintes desta economia política: trabalho e salários, famílias e domicílios, e os locais a que as pessoas pertencem”.

O foco doméstico baseia-se nas premissas da microeconomia convencional. Ou seja, em que a demanda e a oferta de capital, bens e serviços dependem de uma multiplicidade de tomadores de decisão racionais. que operam dentro das fronteiras da nação e de seus mercados domésticos competitivos. Na verdade, a maioria dos que tomam decisões opera em cantos remotos do Cassino Global.

Assim como o público aprendeu a distinguir entre o tempo e o clima, entre o que é local e o que é planetário, uma compreensão mais ampla do sistema financeiro, em grande parte invisível, é essencial para transformá-lo. A tarefa é urgente. As instituições democráticas foram esvaziadas e desarmadas em todo o mundo por aqueles que atuam nos altos escalões do sistema financeiro global. Na atual ordem mundial, somos efetivamente governados por atores ricos e poderosos, em mercados sediados no Vale do Silício, em Wall Street, na Bolsa Mercantil de Chicago e na City de Londres. (De agora em diante, incluirei todos esses atores sob o termo Wall Street.)

O governo exercido pelas finanças tornou-se insuportável para a sociedade humana. Os mercados financeiros, que impõem preços exorbitantes para serviços essenciais à humanidade — como água, moradia, energia, saúde e educação —, desencadearam fortes reações políticas. Muitas sociedades acabaram recorrendo a homens fortes, ditadores e figuras autoritárias em busca de “proteção” contra os mercados. O raciocínio, como explicou Karl Polanyi em 1944, é simples: o governo baseado em mercados (ou seja, o capitalismo) não poderia existir por muito tempo sem “aniquilar a substância humana e natural da sociedade; teria destruído fisicamente o homem transformado seu ambiente em um deserto”.

Inevitavelmente, a sociedade toma medidas, imaginando se proteger, continuou Polanyi. Mas quaisquer que sejam estas medidas — por exemplo, a eleição de Donald Trump, que prometeu proteção contra os mercados chinês e mexicano —, elas prejudicaram esses mercados, desorganizaram a vida industrial e colocaram as sociedades em risco de outras maneiras.

O fechamento do Cassino

O triunfalismo atual dos mercados financeiros e das corporações desvinculadas e autorreguladas é uma prova do controle do privado sobre o sistema financeiro internacional. Frequentemente, a base sistêmica do poder corporativo é negligenciada e o foco se desloca para os indivíduos no topo das organizações ou para suas atividades. Devemos, no entanto, concentrar-nos no poder abrangente de um sistema financeiro internacional gerido por autoridades privadas, e não públicas, e reconhecer que não será possível enfrentar a crise ecológica até que o sistema internacional seja novamente governado por instituições democráticas e publicamente responsáveis.

Será que uma nova luta dos movimentos internacionalistas e progressistas conseguirá derrotar os  poderes de hoje, fundamentais para o modelo atual de globalização financeirizada e o rentismo? Ou estaremos fadados a suportar o inevitável efeito dominó do fracasso econômico, da ruptura dos sistemas terrestres e de outra guerra global?

Embora o mundo que nos controla pareça vasto e incontrolável, isso mudará em caso de uma grande catástrofe ecológica ou financeira, ou algum outro evento transformador. Entre 2007 e 2009, a esquerda (em sentido amplo) não estava preparada para a crise financeira global. Não havia um “Plano B” e, assim, o Cassino Global se consolidou. Agora, está ainda mais poderoso — grande demais para falir e grande demais para ser preso. A sociedade precisa desenvolver, debater e defender um sistema alternativo, internacionalista e mais estável para se apoiar.

Um roteiro para a transformação

Para estabilizar o sistema financeiro internacional baseado nos mercados financeiros, é necessário, em primeiro lugar, retornar a uma compreensão sólida da natureza do dinheiro, suas possibilidades e limitações. Essa compreensão ainda está além do alcance da maioria dos economistas tradicionais e, portanto, de muitos no setor financeiro. Mas ela pode ser resgatada.

Em segundo lugar, a atividade bancária e a intermediação financeira precisam ser novamente integradas ao mundo democrático da regulação bancária, para que o crédito ou financiamento necessários para a transformação da economia global seja mobilizado.

Enfrentar a ameaça das mudanças climáticas e do colapso da biodiversidade exige, mais uma vez, subordinar os mercados de capitais aos interesses da sociedade e do ecossistema, como John M. Keynes e Franklin Roosevelt conseguiram fazer parcialmente nas décadas de 1930 e 1940. Isso demanda o que Greta Thunberg chama de “pensamento catedral”. Fundamental para a mudança é a gestão dos fluxos de capital transfronteiriços, hoje desregulamentados e sem rédeas. É a mobilidade de capitais que permite aos ricos evitar impostos e transferir seus lucros para paraísos fiscais. São as interrupções repentinas dos fluxos de capital que podem desvalorizar uma moeda. E é a falha em regular os fluxos de capital que torna tão difícil o ajuste do custo do dinheiro (juros) em função dos interesses da economia doméstica.

Para restaurar a autoridade pública democrática sobre a economia, a prioridade da esquerda deve ser gerir — e não “controlar” — os fluxos de capital transfronteiriços. Isso exigirá que ultrapassemos os fundamentos: a necessidade de compreender a natureza do sistema que chamamos de dinheiro. Os componentes importantes de uma economia global mais estável são uma arquitetura ou estrutura internacional para a coordenação e cooperação internacionais, no que diz respeito à gestão da mobilidade global de capitais, taxas de câmbio, taxas de juros, taxas de impostos e alinhamento regulatório. O respeitado economista colombiano José Antonio Ocampo descreve o arranjo atual como “o (não) sistema monetário internacional”. Um novo sistema comercial mais estável pode ser baseado no plano de Keynes para uma União Internacional de Compensações, apresentado ao mundo pela primeira vez em abril de 1943, quando a Grã-Bretanha propôs reformas monetárias globais. Esse plano ainda é relevante e está disponível para adoção.

O terceiro requisito diz respeito a políticas que gerenciem e apoiem o investimento necessário para auxiliar na transformação da economia global, afastando-a da dependência dos combustíveis fósseis e caminhando rumo à criação de economias mais sustentáveis.

Um dos principais objetivos é reorientar a atividade econômica para estímulos internos, em vez de externos, visando a demanda doméstica, em vez da demanda externa. Em 1984, Richard Kahn — provavelmente o herdeiro mais confiável do legado de Keynes — reiterou a conclusão de seu mestre:

Se as nações aprenderem a garantir o pleno emprego por meio de suas políticas internas, não haverá necessidade de forças econômicas importantes que visem colocar os interesses de um país contra os de seus vizinhos.

O mundo ainda precisa aceitar esta lição simples ensinada por Keynes. A única maneira de domar o poder do cassino global é se os fluxos de capital forem contidos em “compartimentos” ou Estados; e se os estados trabalharem em conjunto para gerenciar os fluxos de capital descontrolado em seus próprios compartimentos de capital.

É possível que esse tipo de pensamento pareça ilusório diante da vasta expansão, do poder e da falta de prestação de contas dos mercados de capitais atuais — incluindo o setor bancário paralelo, ou, como o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) prefere chamar: o setor de Intermediação Financeira Não Bancária — composto principalmente por fundos de pensão, seguradoras e outras instituições financeiras (IFNs). Conforme relatado pelo FSB, o setor bancário paralelo cresceu mais rapidamente do que o setor bancário na última década. Os ativos financeiros do setor de IFNs totalizaram US$ 200,2 trilhões em 2019, representando quase metade do sistema financeiro global naquele ano, um aumento em relação aos 42% registrados em 2008.

Mas, embora o setor pareça vasto e irrefreável, isso mudará em caso de uma grande catástrofe ecológica ou algum outro evento transformador. A sociedade precisará, então, de um sistema alternativo, internacionalista e mais estável ao qual recorrer.

Hoje, o vasto setor bancário paralelo opera no equivalente à estratosfera financeira. Realiza empréstimos com garantia e utiliza acordos de recompra (repos) para aumentar (alavancar) a liquidez nos mercados de capitais. Esse setor se desenvolveu devido a uma compreensão convencional e equivocada do dinheiro como um meio de troca baseado em garantias, que facilita a oferta de bens e serviços. Essa compreensão equivocada do dinheiro como uma mercadoria, sujeita às forças da oferta e da demanda, também explica a explosão dos acordos de recompra no setor bancário paralelo e a ascensão das criptomoedas, incluindo o bitcoin.

Como argumentou Claudio Borio, chefe do Departamento Monetário e Econômico do Banco de Compensações Internacionais:

Poucos temas em economia geraram debates tão acalorados quanto a natureza do dinheiro e seu papel na economia. O que é dinheiro? Qual a sua relação com a dívida? Como ele influencia a atividade econômica? A literatura econômica dominante recente é uma infeliz exceção. Com exceção de alguns poucos que se aventuraram por essas águas, a macroeconomia deixou o dinheiro afundar. E com pouco ou nenhum arrependimento.

A

A

OUTRAS PALAVRAS

Portal Membro desde 13/12/2024

Segmento: Notícias

Premiações: 

 


A

A

    

Desigualdade, sintoma do fracasso da democracia?

O cerne da profunda crise que a democracia atravessa é o abismo entre o palácio e o barraco. Sem atacá-lo, centros de decisão continuarão espaços abstratos, blindados por instituições que domesticam anseios populares para, depois, destruí-los

A pergunta que a modernidade finge não ouvir é simples, porém fatal: quanto abismo social um sistema de iguais consegue suportar antes de se converter em um simulacro de soberania? O que chamamos de democracia hoje não é um projeto ético de liberdade, mas uma tecnocracia da gestão biopolítica: o Estado tornou-se o síndico de um condomínio de luxo cercado por periferias existenciais, onde o voto é um signo vazio, mas a vida permanece prisioneira de uma ontologia da sobrevivência. No Brasil, o que vemos não é uma disfunção, mas a estrutura atingindo sua hiper-realidade: a transformação da miséria em dado algorítmico e da política em um teatro de sombras onde o real foi devorado pela performance.

A desigualdade que nos consome não é um erro de percurso; é a arquitetura central da acumulação que, conforme uma análise pikettyana, revela a contradição fundamental do capital no século XXI. Vivemos sob uma ontologia do patrimônio, onde a essência do ser é substituída pela herança do ter, criando uma dinâmica onde o rendimento da riqueza acumulada asfixia a mobilidade do trabalho. Isso mata a democracia na raiz. Quando o poder econômico se torna hereditário, o mérito vira uma fábula metafísica e a cidadania, um simulacro jurídico. A democracia não é apenas um rito de manipulação de signos; é, antes de tudo, uma materialidade compartilhada. Sem o suporte do ente — pão na mesa e chão debaixo dos pés —, a liberdade é apenas o direito de gritar no vácuo de uma existência despojada de mundo.

Nesse cenário, a nossa subjetividade foi colonizada. A opressão sofreu uma transmutação ontológica: o carrasco tornou-se o próprio eu dentro de uma “sociedade do desempenho”. Já não somos coagidos apenas por uma alteridade soberana, mas nos autoexploramos em um regime de produtividade que alimenta a abstração financeira. A democracia se esvazia em um solipsismo produtivo porque o cidadão está exausto demais para habitar o espaço público. Estamos imersos em um simulacro de autonomia, onde o sistema nos vende a ilusão do “sujeito empreendedor”, enquanto oculta a verdade da nossa precarização absoluta. É a vitória do mercado sobre a psique: ele não domina apenas o capital, domina o tempo e o desejo.


O resultado é uma fragmentação social baseada na distribuição desigual da vulnerabilidade. A democracia operou uma clivagem ontológica: há corpos que detêm o estatuto de humanidade protegida e corpos que são meras “vidas nuas”, expostas ao descarte. Segundo uma análise arendtiana, a política só é possível quando há a garantia de um “espaço de aparência” onde os sujeitos são protegidos das necessidades biológicas imediatas. Sem essa base, o que resta não é democracia, mas uma necropolítica orçamentária que decide quais existências são dignas de luto e quais são meros resíduos do processo produtivo. O neoliberalismo gere uma ontologia da morte, onde o futuro é um privilégio de classe.

A cultura, então, torna-se o último campo de batalha, mas imersa no simulacro, ela corre o risco de virar apenas mercadoria simbólica. Na modernidade líquida, até a insurreição é liquefeita em consumo. Ocupamos as redes sociais com uma fúria mediada por interfaces, mas essa energia é capturada pelo capitalismo de vigilância antes de tocar a estrutura material do poder. O espetáculo da indignação substituiu a práxis política. Consumimos o ódio ao “outro” como uma catarse estética, enquanto os verdadeiros centros de decisão operam em uma abstração sistêmica, blindados por instituições que mimetizam a democracia para melhor destruí-la.

Precisamos encarar o fato de que a democracia está em um estado de metástase ontológica. Ela não suporta a desigualdade infinita porque a desigualdade é a negação do “ser-com”. O desafio não é apenas reformar o simulacro das instituições, mas refundar a política sobre uma ética da alteridade. Se a política não serve para desconstruir o abismo entre o palácio e o barraco, ela serve apenas para conferir uma estética civilizatória à barbárie.

Portanto, a resistência não reside na repetição de slogans vazios, mas no resgate da espessura do real. Enquanto a desigualdade for a nossa estrutura fundamental, a democracia será apenas o nome que damos à nossa incapacidade de habitar um mundo comum. Romper esse ciclo exige uma ruptura metafísica: a coragem de admitir que uma sociedade que tolera a fome enquanto diviniza o lucro já operou sua própria autodestruição ontológica. Resta-nos a tarefa de recuperar o humano entre os escombros do capital.

A

A

OUTRAS PALAVRAS

Portal Membro desde 13/12/2024

Segmento: Notícias

Premiações: 

 

Comentários