REPORTAGENS

 


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Taxação de alimentos ultraprocessados pode evitar mortes no Brasil

• Pesquisa estima os impactos da taxação dos ultraprocessados 
• UBS da Floresta, inovação na saúde indígena 
• E MAIS: doenças respiratórias; saúde da mulher; mpox; saúde dos yanomami 

Estudo feito por pesquisadores da Fiocruz e do Nupens/USP, publicado no American Journal of Preventive Medicine estima que a criação de um imposto sobre alimentos ultraprocessados pode evitar até 236 mil mortes no Brasil ao longo de 20 anos. A pesquisa simulou os efeitos de uma política fiscal mais rigorosa sobre alimentos ultraprocessados e concluiu que um aumento de 50% no preço desses produtos poderia evitar, também, cerca de 1,8 milhão de novos casos de doenças crônicas.

Os pesquisadores, contudo, apontam que o método utilizado ainda foi conservador. Em entrevista ao G1, o pesquisador Eduardo Nilson comenta: “Trabalhamos buscando subestimativas. Estamos falando só de doenças mediadas pelo excesso de peso. O impacto real pode ser maior”. Atualmente, 57% dos adultos brasileiros vivem com sobrepeso, índice que pode chegar a 75% se a trajetória atual for mantida. No cenário de taxação mais elevada, a prevalência cairia para 50%. 

O Brasil aprovou o Imposto Seletivo, que entrará em vigor em 2027, mas a taxação incidirá apenas sobre bebidas açucaradas, fumígenos e álcool, excluindo a categoria ampla de ultraprocessados. Atualmente, esses produtos respondem por cerca de 20% das calorias consumidas no país, com exposição precoce entre crianças.


Que papel pode cumprir a “UBS da Floresta”

A chamada “UBS da Floresta” foi inaugurada na comunidade de Anã, no coração da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, em Santarém (PA), e foi tema de matéria publicada na revista Radis. Essa é uma experiência piloto voltada à atenção primária em territórios amazônicos, que pretende fortalecer a capacidade de resposta do SUS em áreas de difícil acesso, reduzindo a necessidade de deslocamentos longos e custosos até centros urbanos para atendimentos básicos. A proposta busca adaptar o modelo de Unidade Básica de Saúde às especificidades geográficas e sociais da região.

A UBS conta com energia solar, internet via satélite, geladeiras para vacinas, eletrocardiógrafo e macas, além de equipe fixa composta por enfermeira, técnico e agentes comunitários, com visitas regulares de um médico da família e suporte de telemedicina. A instalação é uma vitória de reivindicações das comunidades tradicionais locais. “Hoje temos condições de armazenar vacinas e remédios. Uma pessoa que sofresse um acidente mais grave era transportada improvisada, em redes amarradas em pedaços de madeira. Agora temos macas”, comemora o líder comunitário Antônio Ilson Cardoso, também técnico em enfermagem na unidade.

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Vacina universal

Pesquisadores iniciam testes em animais para uma vacina nasal que pode oferecer proteção contra diversas infecções respiratórias. Mesmo em estágios iniciais, o estudo traz otimismo aos cientistas, que apontam a possibilidade de revolucionar os modos tradicionais de imunização. Veja como funciona.

Saúde da mulher

A saúde da mulher recebeu apenas 6% do investimento privado mundial em saúde entre 2020 e 2025, aponta relatório publicado pelo Fórum Econômico Mundial. A maior parte é direcionada a cânceres femininos, saúde reprodutiva e materna. Entenda os riscos.


Nova variante de mpox

Com a identificação de uma nova cepa do vírus da mpox, a OMS aponta que pode haver uma circulação mais ampla da doença do que o documentado. Dois casos foram detectados no Reino Unido e na Índia. A avaliação global de risco, contudo, permanece inalterada. Confira mais informações.

Coqueluche entre os yanomami

Uma equipe emergencial está sendo destinada à base polo de Surucucu, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, desde o aumento das infecções por coqueluche entre crianças da região, que já soma oito casos e três óbitos. As crianças infectadas estão em tratamento em hospitais de Boa Vista, capital do estado. Saiba mais.

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O Brasil no labirinto da maconha medicinal

Novo marco da Anvisa é vitória para mães atípicas e associações de cuidado, perseguidas pelo plantio. Mas regras rígidas e alto custo, sem aporte público, mantêm entraves que excluem quem mais precisa. Ignoram “genética tropical”. E ainda privilegiam as grandes farmacêuticas…

Em 2018, Angela Aboin teve que receber em sua casa policiais da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes de Campinas, cidade do interior de São Paulo. A abordagem era fruto de uma denúncia de que ela estaria envolvida com o tráfico de drogas. Mãe atípica – termo usado para mulheres que vivenciam a maternidade de forma distinta – cultivava cannabis em casa para uso medicinal.

A filha de Angela, Maria Luiza, foi diagnosticada ainda na primeira infância com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e até os 4 anos convivia com convulsões diárias e quase não falava, quadro que começou a mudar com o medicamento. “Eu já estava sendo acompanhada pela Defensoria Pública há um ano, com uma dificuldade enorme para entrar com a ação”, lembra, em entrevista ao Outras Palavras. “Vim de uma vida acadêmica, de letramento científico. Não fiz algo da minha cabeça; fui buscando conhecimento prático e científico. Quando a polícia veio à minha casa, foi muito difícil. No primeiro momento, achei que minha ação tinha andado, mas me explicaram que era uma denúncia de tráfico”, recorda.

“Como eu já tinha embasamento, mostrei todos os documentos, relatórios médicos e de cultivo. Eu estava gritando no Judiciário que queria ser ouvida e entendi ali que a polícia seria meu porta-voz. O juiz nunca me receberia, mas ouviria o delegado. As provas contra mim seriam a minha defesa”, conta ela, destacando que a situação foi um choque para os próprios agentes. “A abordagem foi constrangedora para todos. Eles vieram para resolver uma questão de tráfico envolvendo criança em vulnerabilidade, vieram para ser heróis. Quando apresentei a realidade, foi uma saia justa.”


Em 2019, ela conquistou seu primeiro Habeas Corpus (HC) para cultivar cannabis e produzir o remédio para Maria Luiza. “Entendo que isso foi o início de uma construção de direito ao acesso ao cultivo doméstico”, pontua. Mas a falta de legislação e regramento específico fizeram com que todos os anos o HC tivesse que ser renovado, somando seis para que seu direito ao cultivo fosse assegurado.

Somente em 2024 o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) concedeu o salvo-conduto definitivo. Um dos fundamentos da decisão foi um relatório produzido pelo Centro de Atendimento Multidisciplinar (CAM) da Defensoria Pública em Campinas descrevendo a evolução da filha de Angela a partir do tratamento com óleo de cannabis, iniciado em 2017 mediante prescrição médica. Antes, a criança apresentava atraso na verbalização de ideias, com alterações de humor e momentos de crises graves que chegavam a ocorrer três vezes em um mesmo dia, envolvendo comportamentos agressivos. Atualmente, as crises são raras, duram menos e não escalam para o mesmo tipo de comportamento.

“O medo da genitora decorre da incerteza quanto à continuidade do cultivo e os riscos de uma eventual interrupção da administração do óleo e seus efeitos negativos no desenvolvimento de sua filha nessa etapa importante de desenvolvimento e puberdade. A exigência de renovações anuais para o cultivo expõe a família a burocracias e incertezas que somam aos desafios usuais da criação de uma pré-adolescente atípica”, dizia o pedido de autoria das coordenadoras do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos (NCDH) da Defensoria Pública, Fernanda Balera, Cecilia Ferreira e Surrailly Youssef.

Novo marco regulatório

A situação de incerteza jurídica de Angela era e ainda é a mesma de diversas mães e famílias que precisam de tratamentos baseados na maconha medicinal. Um quadro que contou com uma mudança positiva no fim de janeiro, com a divulgação e posterior publicação das Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamentam a produção de cannabis com fins medicinais no Brasil, estabelecendo ainda um novo marco regulatório para a fabricação e importação de produtos derivados da planta.

A regulamentação atende a uma decisão do Superior Tribunal de Justiça de novembro de 2024. Na ocasião, a Primeira Seção da Corte considerou juridicamente possível a concessão de autorização sanitária para plantio, cultivo e comercialização do chamado cânhamo industrial – uma variação da Cannabis sativa com teor de tetrahidrocanabinol (THC) inferior a 0,3% – por pessoas jurídicas, para fins exclusivamente medicinais e farmacêuticos.

No debate regulatório, cânhamo (hemp) e maconha são categorias definidas principalmente pelo teor de tetrahidrocanabinol e pela finalidade do cultivo. As duas têm THC – componente responsável pelos estados alterados de percepção – e canabidiol (CBD) – com propriedades terapêuticas, mas em concentrações diferentes. Como apontou a ministra relatora do recurso especial, Regina Helena Costa, o cânhamo industrial tem alto teor de CBD e geralmente a concentração de THC não passa de 0,3%, sendo incapaz de causar efeitos psicotrópicos. A maconha, por exemplo, contém teores entre 10% e 30% do THC e é classificada como droga psicotrópica.

As normas, que entram em vigor em seis meses, autorizam o plantio restrito e supervisionado exclusivamente para fins medicinais, farmacêuticos e científicos, com exigências rigorosas de segurança, monitoramento e rastreabilidade. No caso do cânhamo industrial, o cultivo será permitido apenas a estabelecimentos com Autorização Especial da agência, incluindo a importação de sementes, enquanto lotes que ultrapassem o limite legal deverão ser imediatamente isolados e destruídos.


O novo regramento também amplia o acesso terapêutico ao permitir medicamentos com teor de THC acima de 0,2% para doenças graves e debilitantes, autoriza a prescrição por médicos veterinários e cria um “sandbox regulatório” (um ambiente experimental supervisionado) para acompanhar, por até cinco anos, experiências de pequena escala, como as de associações de pacientes.

“Pessoa jurídica pode cultivar cânhamo (até 0,3% de THC) para insumo farmacêutico por meio de Autorização Especial da Anvisa e importação regulada pelo MAPA [Ministério da Agricultura e Pecuária]. Foi o regramento que deu para fazer dentro da moldura científico-medicinal para empresas e estabelecimentos de ensino, que podem pesquisar todas as variedades de cannabis independentemente do teor de canabinoides”, explica o advogado e membro da Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis (SBEC), Konstantin Gerber.

Embora todos os impactos estejam sendo avaliados, um dos efeitos pode ser uma maior possibilidade de acesso para aqueles que procuram medicamentos. “Quando a Anvisa faz o trabalho com esse tripé de segurança, eficácia e qualidade, ela tem um papel muito importante para o acesso a essas terapias pela população brasileira. E quando há um processo todo feito no país, existe uma redução de custos substancial. Há estudos indicando que se pode ter uma redução de custos de até 60%”, aponta, em entrevista à Globo News, o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle.

O trabalho das associações

Como integrante da associação Mãesconha e coordenadora da Federação das Associações de Cannabis Terapêutica (FACT), Angela Aboin foi uma das responsáveis por enviar à Anvisa um relatório descrevendo o funcionamento desses coletivos como forma de contribuir para a proposta de regulamentação do cultivo. Como atesta o documento, são associações que “vieram de famílias pioneiras — em sua maioria, mães — que buscaram na ciência e no cultivo uma resposta para o sofrimento extremo: crises epilépticas, convulsões diárias, dores crônicas, colapsos neurológicos, transtornos mentais graves, limitações legais absurdas, prisões injustas, criminalização de pacientes e, acima de tudo, a urgência em manter seus filhos e familiares vivos.”

Existe uma diversidade de modelos de associações relacionadas à cannabis no Brasil, reunindo saberes etnofarmacológicos, tecnologias sociais de cuidado e formas próprias de organização comunitária, observa o levantamento. “Não se restringem ao acesso ao óleo ou ao cultivo. Há associações com finalidades culturais, educativas, de promoção de direitos, de apoio a famílias que cultivam em casa, de suporte a profissionais da saúde, e também aquelas dedicadas ao uso ancestral e religioso, trazendo para o debate temas como reparação histórica, autonomia e justiça social.”

Os coletivos surgem e trabalham em um contexto no qual existem lacunas no cuidado em saúde humana e animal, ausência de políticas públicas adequadas e o desejo de promover práticas de cuidado integradas ao território, à comunidade e ao meio ambiente. “Elas [associações] assumem um papel essencial de acolhimento, educação e — em muitos casos — de produção artesanal de produtos associativistas derivados da cannabis. São produtos que sustentam vidas, reduzem sofrimentos e ampliam a autonomia de cuidado integral com boas práticas”, diz ainda a Fact.

Segundo o levantamento, há hoje uma predominância de associações pequenas, com 46% atendendo até 50 pacientes por mês, oferecendo principalmente produtos associativos derivados de cannabis. Contudo, os coletivos possuem um corpo associativo muito mais amplo, composto por pessoas que já passaram por tratamento ou mantêm outros vínculos com a organização. No perfil de cadastros, 5% das associações contam com mais de 10 mil cadastros.

Ainda que tenham uma importância fundamental no acesso a medicamentos baseados na cannabis, estes coletivos ainda não foram contemplados de forma mais ampla pela regulamentação, exceção feita à adaptação como ambiente de pesquisa. “As associações de pacientes não contam com um procedimento administrativo de autorização previsto em regulamento. Isso significa que, na falta de respaldo judicial, podem se sujeitar a intervenções policiais ou apreensões com multas administrativas da Anvisa”, explica Konstantin Gerber.

Para a pesquisa científica, contudo, as regras são mais flexíveis, inclusive para variedades com maior concentração de THC, desde que cumpridos protocolos estritos de segurança. Nesse aspecto, Angela vê possibilidades de avanços maiores. “Acho que o Brasil vai se tornar o maior produtor acadêmico de ciência sobre a maconha nos próximos anos. Não tenho dúvida, com a abertura que a Anvisa deixou, o nosso bote de salvação é a produção científica. É a justificativa do desenvolvimento acadêmico”, aponta.

Ela cita como exemplo o trabalho do médico e pesquisador brasileiro Elisaldo Carlini. Professor emérito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), fundou o Departamento de Psicobiologia da Unifesp e o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), defendendo o uso terapêutico de substâncias muitas vezes estigmatizadas, desde que houvesse comprovação de eficácia e segurança. Foi um dos primeiros a investigar os efeitos terapêuticos da cannabis em uma época em que o proibicionismo impedia a maioria das pesquisas no mundo e, no Brasil, durante boa parte deste período se vivia sob uma ditadura. Ainda assim, liderou um estudo, em parceria com pesquisadores israelenses, demonstrando que o canabidiol tinha efeitos anticonvulsivantes eficazes em pacientes com epilepsia refratária, sem causar os efeitos psicoativos do THC.

“Sempre tive esse exemplo, pra mim, do professor Carlini, que com rigor científico, não rigor moral, com pensamento objetivo em relação ao que se quer fazer ou o que se quer alcançar com um tratamento, você consegue ter argumentos pra conversar com todo tipo de público”, diz Angela.

Genética tropical e o risco de exclusão

Ainda assim, entre a evidência científica e o acesso efetivo, há um caminho feito de regras técnicas, custos e condições de cultivo que podem restringir quem consegue se beneficiar do avanço regulatório, já que a imposição de limites rígidos de THC esbarra em um desafio natural: o clima brasileiro. Para o colaborador da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) e guia do Museu Brasileiro da Cannabis, Wanderson Carlos Firmino da Silva, as regras parecem ter sido desenhadas para realidades de clima temperado, ignorando a potência da “genética tropical”.

“Para o Brasil é difícil cumprir essa determinação da Anvisa de até 0,3% de THC em condições normais. O THC se apresenta naturalmente, é uma planta livre com o nosso clima”, explica Wanderson. Ele detalha que, para manter os níveis de canabinoides artificialmente baixos em condições tropicais, o cultivo exige um controle tecnológico rigoroso e caro. “Estamos falando de cultivo indoor, com temperatura e umidade controladas. Isso não só é excludente para a população, como até mesmo para as associações. A gente sabe que praticar isso é difícil”, alerta.

Essa barreira tecnológica cria o temor de que o mercado se feche em torno de quem detém capital financeiro e jurídico, reproduzindo a lógica da indústria farmacêutica tradicional e afastando o cultivo da agricultura familiar e de práticas associadas à economia solidária. Wanderson critica o que chama de “eugenia” no processo de seleção da planta, onde se prioriza a importação de genéticas estrangeiras em detrimento das variedades ancestrais já adaptadas ao solo nacional.

“Enquanto olhamos para a indústria internacional, estamos na importação de genética. Nossa genética, nossos ancestrais, inclusive coloniais, estão perdidos”, lamenta. Para ele, o Brasil desperdiça a oportunidade de integrar a cannabis em uma economia verde e inclusiva, que poderia gerar empregos e aproveitar o conhecimento tradicional. “O sucesso da cannabis no Brasil sempre foi a confluência entre as culturas africanas, as culturas nativas e outras. A gente pode pensar em todos os tipos de parceria, mover não só de maneira econômica, mas também no sentido da conscientização”, defende.

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Seymour Hersh: Quando o jornalismo chacoalha o Império

Livro de memórias do jornalista mostra sua jornada pelos subterrâneos do poder. Nunca engoliu discursos oficiais. Por isso, descortinou massacres no Vietnã, uso de armas químicas e conspirações. Teve muitos inimigos – há outra saída para quem enfrenta o sistema?

O livro do jornalista estadunidense Seymour Hersh é um documento monumental, não tanto pelo seu tamanho gigante (530 páginas) como pelo conteúdo revelador da alma profunda do seu país, assim como pelo estilo trepidante, irresistível, e riqueza de imagens. Ele põe você na cena que, simplificando, é o retrato pungente da política imperial dos Estados Unidos, composta de violência, guerra, conspiração, corrupção contra os outros povos, mas também contra o próprio povo. Monumental aula de jornalismo. (De um jornalismo, como ele mesmo diz, que já não se pode fazer.)

E mais: Seymour é a representação acabada do mito americano de sucesso pessoal, do menino que sai da pobreza de um bairro de classe média baixa de Chicago e, com trabalho duro, se torna uma referência mundial (self-made man).

Trabalho duro é o que ele aprendeu desde o início. Filho de um rude imigrante judeu, desde a adolescência se ocupa na lavanderia do pai, estudando nos intervalos. Depois, enquanto faz universidade, trabalha em bares da periferia, convivendo com trabalhadores pobres, muitos deles negros e imigrantes. É notável como toda essa experiência vai lhe ser útil mais tarde.


Não pensava em ser jornalista, mas para lutar contra a pobreza acaba se envolvendo na produção de jornais de bairro, fazendo uma mistura de redator, repórter, gráfico e vendedor de publicidade. Diz: “Naquela época, minha ideia de uma reportagem de peso era uma que desse um jeito de elogiar um anunciante.”

Recusado nos jornais mais importantes, acaba por ser contratado pela agência de notícias UPI para trabalhar numa pequena cidade do interior, em Dakota do Sul. O trabalho era apenas fazer um resumo das notícias da véspera às 7 da manhã. Mas, tentando conhecer a região, descobre que ali vivem nove tribos indígenas na mais completa pobreza, com 90% de desemprego, por racismo. Por iniciativa própria, escreve matéria sobre a penúria da tribo Oglala Sioux, publicada no Chicago Tribune, jornal importante do Meio-Oeste.

Em 1963, com 26 anos, consegue emprego na agência de notícias AP — Associated Press, escalado para fazer matérias sobre interesses humanos. Faz denúncia de corrupção policial, violação de direitos humanos, controle de natalidade, pressão dos negros por direitos iguais. Isso ele conhecia: trabalhou doze anos na lavanderia do pai em contato com negros. Entrevista o líder negro Martin Luther King e passa a acompanhar seu movimento. É transferido para Washington.

Vietnã: McNamara está mentindo

Em algum momento, Seymour ouviu de algum jornalista veterano a frase “se sua mãe disser que te ama, é bom dar uma conferida”, que ele adotaria como lema. “Ler antes de escrever”, dizia. Lia muito, lia tudo que caía em sua mão. Apurar, apurar, apurar era sua rotina. Não divulgava uma denúncia sem antes confirmá-la com uma segunda fonte.

Em 1966, os Estados Unidos estavam com mais de 380 mil soldados no Vietnã. É cético, acha essa guerra um equívoco. Mas separa a visão pessoal da responsabilidade profissional. Escalado como setorista no Pentágono, testemunha diariamente as notícias oficiais sobre a guerra. Desconfia da versão do governo.

Por exemplo: uma tropa de 100 soldados caiu numa emboscada do vietcongue, sendo dizimada. O general no comando mandou outra tropa que também sofreu muitas baixas. O Secretário de Defesa, Roberto McNamara, informa que não foi um mal resultado, o inimigo sofreu mais baixas. E que esse general até foi promovido por essa ação. Seymour contata um alto oficial que confidencia: o tal general na verdade fora rebaixado e retirado do cenário da guerra. Seymour compreende que McNamara estava mentindo para o povo. Mas não publica para não comprometer a fonte.

The New York Times enviou um repórter a Hanói, capital do Vietnã do Norte, Harrison Salisbury, que logo depois de chegar enviou matérias relatando que Hanói estava sendo bombardeada seguidamente com destruição aleatória e vítimas civis. McNamara negou categoricamente e fontes do governo insinuaram que aquele repórter e o jornal estavam atuando como agentes do inimigo. Depois concederam que havia bombardeios em Hanói, mas só contra alvos militares.


Para furar essa barreira de desinformação, Hersh entrevistou diversos altos oficiais em suas casas. Disseram-lhe que bombardeios aéreos não tinham precisão, que “as bombas nunca caem onde foram miradas”. Ele publicou isso, dizendo que o governo tinha fotos mostrando extensos prejuízos causados à cidade de Hanói e que não mais que 10% dos alvos foram atingidos.

Achava que estava praticando um suicídio profissional. Mas o Times em seguida republicou a matéria. Causou furor. Em seguida, Hersh replicou, contando que McNamara havia determinado que um círculo de 8 quilômetros em torno de Hanói não poderia mais ser bombardeado. Estavam confirmadas as reportagens de Salisbury.

Hersh soube que o governo estava fabricando armas químicas e biológicas de extermínio em massa, além de jogar napalm para queimar as florestas no Vietnã. A justificativa era para fazer frente às armas químicas dos russos, embora não houvesse indicação de que estes estivessem trabalhando nisso. Descobriu 52 laboratórios em universidades e centros de pesquisa universitários ocupados nesse projeto, em geral em cidades do interior. Havia perigo de contaminação da população. Soube da morte de funcionários que foram contaminados e também de um entregador que entrou num laboratório na hora errada.

Entregou a matéria para seu editor na AP. Semanas depois, o texto foi devolvido. O editor argumentou ser longo demais. Hersh levou o material para a revista New Republic, que estava se tornando conhecida por sua oposição à guerra. Corria o risco de ser demitido da AP por publicar a matéria em outro veículo. Mas, como sempre, arriscou. Não houve manifestações de seus chefes. A série de matérias provocou protestos nas universidades e questionamentos no Congresso. Também foi convidado a escrever um livro sobre o assunto. Pediu demissão da AP e foi fazer o que seria seu primeiro livro.

Terminado o livro, aceitou trabalhar como assessor de imprensa na campanha do senador Eugene McCarthy à presidência porque ele anunciava que iria acabar com a guerra no Vietnã.

Foi um período de atividade intensa, rocambolesca. Hersh descreve de modo eletrizante o caos que envolve uma campanha e a agitação em que o país estava envolvido em 1968, quando no Vietnã ocorreu a ofensiva vietcongue do Tet que chegou até à embaixada dos EUA em Saigon, e quando Martin Luther King (abril) e Robert Kennedy (junho), este pré-candidato à presidência, foram assassinados. E como tudo isso levou à desistência do presidente democrata Lyndon Johnson de se candidatar à reeleição. O que favoreceu a eleição do republicano Richard Nixon.

De volta ao jornalismo, Hersh publica o livro sobre as armas químicas de destruição em massa, causa repercussão e vira matéria de destaque no Washington Post. Seis mil ovelhas aparecem mortas na zona rural de Nevada, numa área próxima a um laboratório de testes ultra secreto do Exército.

Ele publica uma série de reportagens sobre o perigo da produção dessas armas químicas e biológicas que estavam sendo produzidas para aplicar no Vietnã, mas que também eram uma ameaça para a população dos EUA. O debate acaba indo para o Congresso e toma conta da opinião pública, milhões de pessoas protestam, uma marcha em Washington reúne 500 mil manifestantes. O governo recua. O presidente Nixon determina a interrupção do programa de armas biológicas. Hersh se diz orgulhoso de haver participado. É cada vez mais reconhecido e também detestado.

My Lai, um vilarejo no Vietnã do Sul

Em 1969, aconteceu algo que ia mudar a vida de Hersh. Ele já sabia que o governo e o Exército mentiam todo o tempo sobre o Vietnã. Incomodava perceber que os sucessos na guerra eram avaliados pelo número de inimigos mortos. Foi procurado por um ativista contra a guerra que lhe falou de um soldado que estava sendo processado em corte marcial pelo Exército, acusado da morte de 75 civis.

Aqui começa um momento fascinante temperado pelo faro de repórter com ajuda do acaso. Fuçando pelo Pentágono e não encontrando informação alguma, cruzou com um oficial conhecido. Tinha sido ferido no Vietnã, estava mancando, fora promovido a general, e agora trabalhava no Pentágono. Conversa vai, conversa vem, pergunta ao general se sabia de alguma chacina. A resposta foi furiosa: “Você tá me dizendo que alguém que mata bebezinhos e sai por aí dizendo que está matando vietcongues sabe o que tá fazendo? (…) Esse Calley é um lunático!”

Hersh controlou seu entusiasmo e sua discordância. Não se tratava de um louco, mas de uma ação generalizada. E agora ele tinha um nome!

Ao longo de muitas páginas, Hersh conta como foi a caçada incansável, quase inacreditável, por um labirinto de dezenas de quartéis do Exército na base de Forte Bhening até conseguir encontrar, beber, comer com Calley e fazer uma entrevista exaustiva com ele.

Tinha a matéria, mas para publicá-la enfrentou uma batalha ainda maior, batendo de frente com um muro de autocensura. Os grandes jornais e revistas recusavam a publicação. Foi vendendo o material para jornais menores; o Times de Londres se interessou. Acontece um debate no Parlamento inglês. Ele dá entrevistas, faz discursos em universidades e centros de debates.

Aos poucos, os grandes jornais do país vão entrando no caso. Isso ia acontecendo ao mesmo tempo que Hersh contatava outros soldados da companhia de Calley que participaram do massacre. Levou um deles para contar na TV sua participação na matança. Essa entrevista num programa de grande audiência na CBS News, na opinião de Hersh, “mudou os Estados Unidos”. Diante das contestações, que são muitas e poderosas, vai opondo novas informações, novos detalhes confirmados pelos participantes do horrível acontecimento. Vários repórteres começam a publicar matérias de outros massacres promovidos pelos soldados americanos no Vietnã, deixando claro que a matança indiscriminada de civis, mulheres, velhos, crianças, era a rotina dessa guerra. Nas estatísticas do governo constavam como vietcongues mortos.

O movimento contra a guerra cresce no país e repercute em todo o mundo. Torna-se consenso que os EUA não iriam ganhar. O governo de Nixon fica cada vez mais impopular e na defensiva.

Hersh reúne tudo num livro: “My Lai 4: um relato do massacre e sua repercussão”. Em 1970, recebe o Pulitzer, o maior prêmio jornalístico dos EUA. Em seguida, outros prêmios importantes. Ganha fama e algum dinheiro para comprar uma pequena casa em Washington. Continua desempregado.

Após suas matérias sobre My Lai Hersh, é bem visto em Hanói e vê aceito um pedido de visto que fizera anos antes. Escreve de lá várias matérias para o New York Times. Contratado afinal pelo Times, acompanha em Paris as negociações entre EUA e Vietnã que estavam paralisadas. O Vietnã recusa firmemente as propostas de Nixon-Kissinger. De volta a Washington, descobre que um general punido por fazer bombardeios em desacordo com ordens superiores na verdade havia recebido ordens secretas de Nixon e Kissinger.

Watergate

Havia dois anos os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post, estavam denunciando uma conspiração do governo Nixon-Kissinger. Durante a campanha eleitoral de 1972, um grupo de cinco funcionários havia invadido o escritório do Partido Democrata para implantar escutas e espionar. Os culpados foram descobertos e o processo do escândalo que se chamou Watergate (nome do edifício) se arrastava. O Times escalou Hersh para entrar no caso. De 19 de abril a 1º de julho de 1973, ele publicou 42 reportagens com informações exclusivas que apontavam cada vez mais para o presidente Nixon.

Convidado para um almoço com um funcionário do FBI, este ficou jogando conversa fora enquanto Hersh achava que estava perdendo tempo. O homem do FBI disse que ia ter que sair antes, mas que na cadeira em que estava sentado havia alguma coisa para ele. O cara foi embora e o repórter pegou um envelope sobre o qual o outro estivera sentado. Abriu o envelope na redação e havia nada menos do que 16 ordens de Kissinger para grampear telefones de jornalistas e funcionários do seu próprio gabinete. Avisado de que a matéria iria sair, Kissinger ameaçou renunciar. Saiu e ele não renunciou. Hersh comentou: “ele mente mais do que uma pessoa normal respira”.

Além do Watergate, Hersh tornou públicos outros crimes de Kissinger: mandara bombardear secretamente o Camboja, era o mandante do grupo de “encanadores” que faziam os grampos e movia uma frenética guerra clandestina através da CIA contra o governo de Allende no Chile. Por tudo isso, crescia a oposição na opinião pública e no Congresso. O governo de Nixon ficava cada vez mais ameaçado de impeachment. Diante de novos escândalos, sua situação ficou insustentável e renunciou para fugir do impeachment.

A reportagem de maior repercussão foi a que revelou que a CIA, criada para atuar no exterior, também agia dentro dos Estados Unidos e que monitorava muitos milhares de cidadãos estadunidenses. Também reportou que, desde o governo de Kennedy, Fidel Castro estava no topo da lista dos inimigos que deviam ser assassinados.

Kissinger

Depois de se demitir do Times Hersh, dedicou-se por quatro anos a escrever um livro sobre Henry Kissinger. The Price of Power tem 698 páginas em que mostra os grandes crimes cometidos pela CIA e as forças armadas sob as ordens de Kissinger no Vietnã, Camboja, Chile etc. E também sua grande habilidade para não ser incriminado, tanto que não foi condenado. Ao redor dele havia uma “atmosfera vil, vingativa e paranoica”. Os críticos diziam que o livro era um amontoado de mentiras, mas, quando convidados a mostrar quais afirmações do livro eram mentirosas, respondiam que não o haviam lido. Nem Kissinger nem ninguém moveu processo contra Hersh.

Israel nuclear

Em 1991, Hersh publica o livro The Sampson Option em que revela ao mundo o apoio dos EUA na construção da bomba nuclear de Israel, fato que Israel não admite até hoje. Houve grande repercussão, os judeus se voltaram contra ele. Explicou: “O que eu quis dizer não era que Israel não devesse ter bombas, mas que o apoio secreto americano tinha sido descoberto pelo Oriente Médio e transformava em piada os esforços dos Estados Unidos para impedir a proliferação de armas no Paquistão e em outras nações com ambições nucleares não declaradas”.

John Kennedy

Em seguida, Hersh remexe o passado para escrever o livro O lado escuro de Camelot sobre o ex-presidente John Kennedy. Camelot foi uma comparação de seu governo com a corte de Alexandre Magno e os cavaleiros da távola redonda. Com riqueza de detalhes, Hersh revela os repetidos, mas inúteis esforços do presidente para assassinar Fidel Castro, por meio da CIA, e usando inclusive o apoio da máfia. Revela também o apetite sexual de Kennedy. O livro foi um sucesso de vendas, mas o repórter foi muito criticado. Assassinado em 1963, Kennedy era endeusado pelo establishment e jogar luz sobre seu lado escuro foi visto como uma heresia.

Torres gêmeas e a guerra contra o terror

Depois do atentado de 11 de setembro de 2001, o projeto do presidente Bush filho era reorganizar e moldar o Oriente Médio, instalar democracias de estilo liberal pró-americanas em todos aqueles países. Resultado: as tropas ianques ficaram enterradas no Afeganistão e, após 20 anos, fizeram uma retirada vergonhosa. No Iraque, em que pese toda a violência e mortandade, a guerra foi mal e o que se viu foi uma guerra de guerrilha que não deu sossego para os invasores. Nos dias atuais, a situação permanece instável e o governo xiita conclama os EUA a se retirarem.

O repórter Seymour Hersh desmentiu que Saddam Hussein tivesse armas de destruição em massa. Adiante, divulgou as barbaridades cometidas pelos EUA, as torturas e humilhações cometidas contra os presos na prisão de Abu Ghraib, inclusive com fotos, com grande repercussão. Revelou que os corpos dos prisioneiros mortos durante interrogatório não eram enterrados, mas destruídos com ácido.

Pelos anos seguintes, Hersh continuou. Revelou a existência de um grupo de assassinos que matou muita gente durante o governo de Bush filho. Afirmou que a derrota de Israel diante do Hezbollah em 2006 foi muito mais séria do que se admitiu. Obama foi eleito com uma esperança de que as coisas podiam mudar na política externa, mas foi uma decepção. Mandou mais tropas para o Afeganistão, atacou a Síria violentamente e montou a farsa da morte de Bin Laden. Aos 80 anos, em 2017, Hersh ainda trabalhava num livro sobre Dick Cheney.

Em 2018, escreveu suas memórias que terminam assim:

“Essa minha profissão é incrível. Passei a maior parte da minha carreira escrevendo matérias que questionavam a narrativa oficial, e fui muito recompensado por isso, tendo sofrido apenas um pouco. Eu não faria nada diferente”.

Atualmente tem 87 anos.

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Supersalários privados, escândalo invisível

A luta de Flávio Dino contra os “penduricalhos” no setor público é indispensável. Porém mostramos: muito maiores são os rendimentos e privilégios no topo das empresas privadas – pagos pelas tarifas e preços impostos à população

Por Marcos Helano Montenegro[i]

A imprensa repercutiu intensamente, há semanas, à decisão do Ministro do STF Flávio Dino que mandou suspender pagamento de penduricalhos ilegais no serviço público. A decisão ampla abrange tanto os servidores do Executivo quanto do Legislativo e do Judiciário. Os valores pagos não podem ultrapassar o teto do funcionalismo, de R$ 46.366,00, podendo ficar fora deste teto apenas parcelas indenizatórias expressamente previstas em lei.

O valor deste teto é quase 29 vezes o valor do salário mínimo, ajustado no mês passado para R$ 1.621,00, o que denuncia o quanto são naturalizadas a pobreza e as diferenças de renda no Brasil.


Não é o caso de defender os interesses de uma minoria privilegiada de servidores públicos cujas remunerações não são nem um pouco representativas da situação salarial do funcionalismo. Levantamento do Ipea republicado pela CUT em novembro passado mostra que até o ano de 2023 a mediana da remuneração no serviço público — ou seja, o ponto em que metade ganha menos e metade ganha mais — é de R$ 3.281, considerando todos os vínculos. Isso significa que 6 milhões, dos 12 milhões de trabalhadores do setor público, recebem até esse valor.

Mas o que cabe perguntar é por que os veículos da imprensa comercial não informam e criticam também as remunerações estratosféricas dos executivos das corporações privadas, que frequentemente ultrapassam em várias vezes o tal teto.

É o caso das remunerações dos executivos das grandes empresas privadas de água e esgoto no país. No ano passado, a Aegea Saneamento e Participações, a maior holding do setor, pagou a seus quatro diretores estatutários, entre salários, pró-labores e benefícios em média R$ 209.489,12 por mês, mais de quatro vezes e meia o teto do funcionalismo. Ou o equivalente a 129 salários mínimos.

Muito? Não, pouco! Se comparado com a remuneração total média de cada um desses quatro diretores que, quando incluídos bônus e participação nos resultados, atinge a inacreditável bagatela de R$ 4.481.221,18 mensais,.

A Aegea, propriedade da Equipav, Itaúsa e GIC (fundo soberano de Singapura), atua em 892 municípios de 15 estados brasileiros, por meio de concessionárias de água e esgoto. Praticamente toda a receita operacional do grupo provém das tarifas de água e esgoto pagas pelos usuários dos serviços públicos de saneamento, inclusive os do Piauí e do Pará, estados pobres cujas concessões a Aegea comprou ano passado.

Outra grande holding do setor de água e esgoto é a BRK Ambiental Participações. Tem como proprietários o Fiji Fundo de Investimento em Participações (controlado pelo grupo canadense Brookfield Asset Management) com 70% do capital e o Fundo de Investimento do FGTS (FI-FGTS), gerido pela Caixa Econômica Federal, que detém os 30% remanescentes. 

A BRK, que controla concessionárias de água e esgoto atuando em São Paulo, Goiás, Tocantins, Alagoas e Pernambuco,  divulgou no início deste fevereiro prejuízo de R$ 108 milhões no exercício de 2025. O grupo já havia apresentado prejuízo nos exercícios de 2022 e 2023 e lucro pífio em 2024 (R$ 7 milhões), o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade de suas operações. Mesmo assim, foi considerado em condições para disputar e conquistar, em dezembro passado, a concessão dos serviços de água e esgoto de 150 municípios de Pernambuco, incluindo os da Região Metropolitana de Recife. A BRK ganhou esta concessão em consórcio com a Acciona, empresa espanhola, que presentemente está sendo objeto de ampla investigação por ilícitos em obras públicas na Espanha.

Bom, estou tergiversando. Este artigo é sobre supersalários no setor privado.

A BRK, de acordo com informações disponibilizadas à CVM, pagou aos seus cinco diretores estatutários em 2025, entre salário ou pró-labore e benefícios, em média R$ 164.507,63, quantia que ultrapassa com folga o triplo do teto do funcionalismo. Incluindo bônus e participação nos resultados, a remuneração total média chegou a R$ 288.725,63 mensais, valor que supera seis vezes o teto do funcionalismo.

Segundo informa o Formulário de Referência 2025 (versão 12) que a Sabesp enviou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a companhia estadual privatizada pelo governo Tarcísio de Freitas conta com seis diretores estatutários. No ano passado, estes diretores receberam em média, entre salário ou pró-labore e benefícios, R$ 188.349,58 mensais, ou seja, quatro vezes o teto do funcionalismo. Quando incluídos bônus e outras vantagens, a remuneração total média dos seis diretores estatutários da Sabesp privatizada chegou em 2025 a R$ 708.169,21 mensais. Mais de quinze vezes o teto do funcionalismo e o equivalente a 437 salários mínimos de 2026!

Termino lembrando que estas remunerações não são pagas com recursos dos Tesouros da União, dos Estados e dos Municípios e portanto, segundo alguns, só interessam ao mundo dos negócios.

Falso! Tais remunerações escandalosas são pagas com as receitas das tarifas pagas pelos usuários e portanto oneram a conta paga por brasileiras e brasileiros, inclusive a conta paga pela Dona Ana Maria que sofre cotidianamente com falta de água, morando na periferia da Região Metropolitana de São Paulo, (des)atendida pela Sabesp.

Ter acesso a água em quantidade e qualidade adequadas e viver em ambiente saneado pagando preço módico e compatível com a renda familiar é direito humano estabelecido em convenção internacional da qual o Brasil é signatário.

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Por que Trump teme atacar o Irã


EUA concentram armamento ofensivo, mas três fatores tornam a agressão muito arriscada. Teerã não será mais surpreendida, é capaz de penetrar defesas de Israel e já pode castigar bases norte-americanas. O presidente sabe que corre sério risco

Por M.K.Bhadrakumar, no Indian Punchline | Tradução: Antonio Martins

Já dura quase um século a hostilidade mútua entre os Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, de outro. Estende-se desde a Revolução Islâmica de 1978 e o estabelecimento do sistema político singular conhecido como Vilayat-e Faqih ou proteção de Faqih (jurista islâmico). A nova ordem política do regime islâmico, centrada no nacionalismo iraniano, representou um desafio sem precedentes e uma ameaça percebida pelos EUA e pelos Estados regionais de sua órbita estratégica, incluindo as monarquias petrodólares. Para elas, a própria ideia de governo representativo baseado na doutrina da justiça, equidade e resistência era um anátema.

Mas essa não é toda a história. Michel Foucault, o filósofo francês, historiador das ideias, escritor, ativista político e crítico literário, tinha outra explicação. Certa noite, enquanto caminhava pelas ruas de Teerã, que fervilhavam com os primeiros sinais da Revolução Islâmica, Foucault encontrou um desconhecido que lhe disse: “Eles (os norte-americanos) nunca nos abandonarão por vontade própria. Não mais do que fizeram no Vietnã.”


Mais tarde, em seu famoso ensaio Com o que Estão Sonhando os Iranianos?, Foucault escreveu: “Eu queria responder que eles estão ainda menos dispostos a abrir mão de vocês do que o Vietnã por causa do petróleo, por causa do Oriente Médio. Hoje, depois de Camp David, eles parecem dispostos a ceder o Líbano à dominação síria e, portanto, à influência soviética. Mas estariam os Estados Unidos dispostos a se privar de uma posição que, dependendo das circunstâncias, lhes permitiria intervir a partir do Oriente ou monitorar a paz?”

Essa extensa recapitulação histórica torna-se útil hoje, visto que o pano de fundo do atual impasse entre Donald Trump e Teerã permanece essencialmente o mesmo — a geopolítica do petróleo nas fronteiras da resistência política. Contudo, qualquer observador de longa data dos eventos marcantes que se desenrolaram no Irã em 1978 também concordará que muita água já correu pelo Estreito de Ormuz ao longo dessas décadas turbulentas. A “alquimia” do impasse entre EUA e Israel com o Irã transformou-se completamente.

De maneira notável, vários padrões emergiram ao longo do último ano e revelaram-se altamente encadeados. Antes de mais nada, as salvaguardas que impediam que o impasse entre os EUA e o Irã degenerasse em confronto militar desapareceram durante a presidência de Trump. O Irã percebeu isso em circunstâncias trágicas, em junho do ano passado, quando, num ato de engano, fingindo negociações de paz, Israel e os EUA o atacaram.

Mas, também despontou uma terrível beleza. Primeiro, o elemento surpresa na guerra deixou de funcionar contra o Irã. Além disso, duas outras coisas aconteceram: Teerã retaliou, deixando Tel Aviv e Washington sem dúvidas de que possuía capacidade de segundo ataque; segundo, Israel teve que recorrer a Trump para negociar um cessar-fogo, já que seus próprios estoques de mísseis estavam se esgotando e suas capacidades de defesa antimíssil, incluindo o Domo de Ferro, se mostraram pouco confiáveis. O Irã afirmou sua capacidade de dissuasão com evidências empíricas.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sempre fez questão de liderar Trump nos bastidores. Mas tudo isso se tornou irrelevante hoje. O Irã deixou claro que Israel estará em sua mira desde o primeiro dia. Além disso, a agência de espionagem israelense Mossad e a CIA estão interferindo abertamente nos recentes protestos iranianos, chegando até a se vangloriar disso. Israel, que já experimentou em primeira mão a escala de destruição que o Irã pode infligir, mesmo com um desempenho abaixo do esperado e com recursos limitados, teme represálias. De fato, Israel agora prioriza, em sua avaliação de ameaças, o programa de desenvolvimento de mísseis do Irã, em vez de seu programa nuclear. Mais uma vez, as alegações israelenses de ter derrotado as forças de resistência alinhadas ao Irã — principalmente o Hamas, os Houthis e o Hezbollah — mostram-se distantes da realidade. Os grupos de resistência estão se reagrupando e o Irã continua a colaborar com eles.

Por sua vez, os EUA também desenvolveram um respeito considerável pela tecnologia de mísseis e drones desenvolvida internamente pelo Irã. Isso significa que a abordagem de Trump, baseada em um ataque rápido seguido de extensas operações midiáticas para projetar força, esgotou seu potencial. Na doutrina iraniana revisada de “guerra total”, a resposta do Irã não se limitará a uma retaliação proporcional a um ataque externo, mas sim a atingir as raízes da presença regional dos EUA. Isso significa que a resposta iraniana irá além de uma estrutura puramente defensiva e se voltará para uma estratégia ofensiva. Em outras palavras, Teerã abandonou a lógica defensiva até então baseada em respostas limitadas e proporcionais; dito isso, diferentemente da guerra de junho, não se espera nenhuma manipulação de resultados. O Irã declarou categoricamente que qualquer forma de ataque dos EUA será considerada um ato de guerra.

Na semana passada, o Irã revelou brevemente uma de suas novas “cidades de mísseis” subterrâneas, operadas pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), e exibiu o Khorramshahr-4, um míssil balístico pesado com alcance operacional de 2.000 quilômetros e capaz de transportar mais de uma tonelada de explosivos. O Khorramshahr-4 atinge velocidades de até 16 vezes a velocidade do som (Mach 16) fora da atmosfera e aproximadamente Mach 8 dentro dela. “Com um tempo total de voo estimado entre 10 e 12 minutos, os iranianos alertaram que todas as bases militares americanas na região serão alvos.”


Isso representa uma mudança de paradigma. A superioridade militar dos EUA é inquestionável, mas o risco de perda de vidas estadunidense torna-se extremamente alto, o que terá um custo político elevado para Trump, visto que as eleições de meio de mandato de 2026, em 3 de novembro, aproximam-se rapidamente. A perda do controle do Congresso é uma possibilidade concreta, e uma guerra no Oriente Médio seria o golpe final.

A ameaça de guerras paira sobre as negociações em Omã, mas o lado positivo é que Trump classificou as conversas como “muito boas” e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, respondeu que elas “representam um passo adiante”. O Irã descartou categoricamente qualquer acordo que negue seu direito de enriquecer urânio e se recusa a discutir seu programa de desenvolvimento de mísseis. Mesmo assim, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que o Irã busca o fim das sanções econômicas norte-americanas, em troca de “uma série de medidas de fomento da confiança relativas ao programa nuclear”. Um dia após a declaração de Araghchi, Mohammad Eslami, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, afirmou que Teerã poderia considerar reduzir o nível de 60% de enriquecimento de seus estoques de urânio, caso todas as sanções fossem suspensas.

Entretanto, um ponto de inflexão está surgindo, visto que Netanyahu esteve em Washington até quarta-feira. É perfeitamente concebível que Netanyahu, que enfrenta eleições ainda este ano, pressione Trump para que amplie o escopo das negociações nucleares com o Irã, incluindo a limitação de mísseis balísticos e o “fim do apoio ao eixo iraniano”, como afirmou seu gabinete no fim de semana. Tal exigência é inalcançável, estando em desacordo com a crescente realidade de que a opção militar contra o Irã pode estar se aproximando do seu esgotamento.

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Por que o Vietnã vai crescer mais que os EUA?

A métrica que prevê o futuro econômico melhor que qualquer outra

Olá!

Você sabia que existe uma métrica econômica que prevê o crescimento futuro de países melhor do que PIB, inflação ou qualquer outro indicador tradicional?

E ela acaba de revelar algo chocante: o Vietnã liderará o mundo em crescimento per capita na próxima década.

A China, apesar de ser a segunda maior economia global, vem logo atrás.

Enquanto isso, os Estados Unidos caíram para a 20ª posição e continuam despencando.

Isso não é sobre tamanho de economia ou recursos naturais. É sobre algo que a maioria dos economistas ignora completamente: capacidades produtivas sofisticadas.

E os países que construíram essas capacidades estão prestes a colher recompensas massivas.

Hoje vou te mostrar o Economic Complexity Index (ECI), como ele funciona, e quais países estão posicionados para dominar o crescimento global até 2034.

Vamos mergulhar nessa história.

A história é brutalmente simples: países que constroem capacidades manufatureiras diversas e sofisticadas crescem mais rápido.

Economic Complexity Index mede exatamente isso: quais capacidades produtivas um país possui, baseado no que ele produz hoje.

Não estamos falando de commodities ou serviços genéricos. Estamos falando de semicondutores, dispositivos médicos, maquinário avançado, eletrônicos de precisão.

E aqui está o ponto crucial: o ECI prevê crescimento futuro melhor do que praticamente qualquer outra métrica isolada.

Por quê? Porque capacidades produtivas complexas são indicadores de conhecimento acumulado, infraestrutura sofisticada e capital humano qualificado. São essas capacidades que permitem a um país produzir coisas que poucos outros conseguem produzir.

E isso se traduz diretamente em crescimento econômico sustentável.

A Ásia não está apenas vencendo, está destruindo a competição.

Os rankings de 2024 mostram uma dominação asiática absoluta no topo da complexidade econômica.

Japão ocupa o primeiro lugar global. Taiwan está em terceiro. Coreia do Sul em quarto. Singapura em quinto.

E a China? Acaba de entrar no top 10, saltando três posições em apenas cinco anos.

Enquanto isso, os Estados Unidos têm declinado consistentemente e agora estão na 20ª posição.

Isso não é um acidente. É o resultado de décadas de decisões estratégicas diferentes.

A Ásia investiu pesadamente em manufatura sofisticada, educação técnica e infraestrutura produtiva.

O Ocidente, em muitos casos, terceirizou sua base industrial e focou em finanças e serviços. Agora estamos vendo as consequências dessa divergência estratégica.

Três regiões vão dominar o crescimento global até 2034: Leste Asiático, Ásia Central e Leste Africano.

As projeções do ECI identificam claramente onde o crescimento explosivo vai acontecer.

No Leste Asiático: Vietnã lidera, seguido por China, Tailândia, Indonésia, Malásia e Índia. Esses países diversificaram agressivamente suas bases manufatureiras.

Na Ásia Central: Armênia, Geórgia e Uzbequistão estão emergindo como surpresas.

E no Leste Africano: Uganda, Etiópia e Moçambique começam a construir capacidades que podem gerar crescimento acelerado.

O que une essas regiões? Não é sorte geográfica ou recursos naturais. É estratégia deliberada de desenvolvimento de capacidades produtivas sofisticadas.

São países que entenderam que você não fica rico vendendo matéria-prima, você fica rico transformando matéria-prima em produtos complexos.

Os maiores vencedores são países que diversificaram para manufatura complexa.

Israel subiu 11 posições, alcançando o 8º lugar global, através de eletrônicos avançados e dispositivos médicos.

Vietnã saltou 10 posições para o 45º lugar.

Camboja subiu impressionantes 12 posições para o 82º lugar. Esses países não descobriram petróleo ou encontraram ouro.

Eles construíram capacidades produtivas deliberadamente. Israel se tornou um hub de tecnologia médica e semicondutores.

O Vietnã atraiu manufatura eletrônica sofisticada e começou a subir na cadeia de valor.

Camboja está seguindo o mesmo caminho, saindo de têxteis básicos para produtos mais complexos.

A lição é clara: construir capacidades produtivas sofisticadas é a rota mais confiável para prosperidade sustentável.

E quanto mais cedo você começa, mais rápido colhe os resultados.

As maiores quedas? Economias dependentes de recursos que falharam em diversificar.

Rússia despencou 29 posições, chegando ao 67º lugar na queda mais acentuada do ranking.

Cuba caiu para o 122º lugar. Ruanda despencou para o 120º. Venezuela caiu para o 133º.

O padrão é óbvio: riqueza de commodities não é igual a sofisticação produtiva.

Países que dependem de petróleo, gás, minerais ou agricultura básica sem construir capacidades manufatureiras sofisticadas estão condenados ao declínio relativo.

Por quê? Porque commodities flutuam com mercados globais. Não há acúmulo de conhecimento.

Não há desenvolvimento de capacidades únicas. E quando os preços caem ou a demanda muda, esses países não têm para onde ir.

A Rússia é o exemplo perfeito: uma das maiores economias do mundo em tamanho, mas com capacidades produtivas limitadas e em declínio.

A grande lição: o futuro econômico não pertence a quem tem mais recursos, mas a quem constrói mais capacidades.

Se você quer entender onde o crescimento vai acontecer, pare de olhar para PIB atual ou reservas de commodities.

Olhe para o Economic Complexity Index.

Olhe para quais países estão construindo capacidades para produzir semicondutores, dispositivos médicos, maquinário de precisão, eletrônicos avançados.

Esses são os países que vão crescer nas próximas décadas.

E para o Brasil? A pergunta incômoda: onde estamos nessa corrida?

Estamos construindo capacidades produtivas sofisticadas ou continuamos dependentes de commodities e serviços básicos?

Porque os rankings não mentem. E o tempo de construir essas capacidades é agora.

É intrigante, enquanto o Brasil na década de 1990 tinha índice de complexidade econômica superior ao do Vietnã e comparável ao da Tailândia, hoje observamos uma inversão completa: esses países asiáticos subiram sistematicamente no ranking enquanto o Brasil estagnou ou regrediu.

Compreender exatamente como e por que países com condições iniciais piores conseguiram construir capacidades produtivas sofisticadas enquanto o Brasil permaneceu preso na armadilha das commodities revela mecanismos de política industrial e estratégias de desenvolvimento que desafiam as explicações econômicas convencionais.

P.S.: "Paulo, como eu aprendo a identificar QUAIS capacidades produtivas realmente importam para o crescimento?" Essa é a essência da nossa escola de "Complexidade Econômica". Você vai entender não apenas o índice ECI, mas os mecanismos específicos que fazem países como Vietnã e China subirem enquanto o Brasil estagna. Você vai se diferenciar em debates, pesquisas e análises ao dominar os padrões que separam estratégias vencedoras de armadilhas de commodities. → Quero dominar complexidade econômica

P.P.S.: Se este é um dos primeiros textos que você lê aqui, visite minha [página de boas-vindas clicando aqui. Separei presentes que vão te ajudar a entender desenvolvimento econômico de verdade — incluindo meu livro completo “Brasil, uma economia que não aprende” (grátis).

Até a próxima!

~

Abraços,

Paulo Gala

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Acordo UE-Mercosul: o impacto na Saúde

Foram desarmadas as principais “bombas”: a abertura das compras do SUS para a Europa e a piora das normas de patentes. Mas o tratado ainda desfavorece a indústria farmacêutica nacional – e, ao estimular agronegócio, amplia riscos ao bem-estar da população

O início de 2026 dá palco a uma rápida sucessão de acontecimentos relacionados ao acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercado Comum do Sul (Mercosul). No dia 9 de janeiro, a maioria dos países-membros do bloco europeu deram seu aval à assinatura do tratado, que ocorreu no Paraguai oito dias depois. No entanto, na quarta-feira passada (21), ao aprovar a solicitação de um parecer jurídico, o Parlamento Europeu pode ter atrasado em mais alguns anos a ratificação do pacto. Mesmo assim, a Comissão Europeia estuda seguir adiante com sua “implementação provisória”. Trata-se de um cenário de incertezas.

No entanto, em sentido geral, para economistas como Paulo Kliass e Paulo Nogueira Batista Jr, o Acordo UE-Mercosul (apelidado de “carros por vacas” na Europa) aprofundaria uma tendência de reprimarização da economia brasileira, bem como da dependência de produtos industrializados do Norte Global. O pacto retira tarifas europeias sobre produtos agropecuários sul-americanos e tarifas sul-americanas sobre produtos manufaturados europeus – o que, neste último caso, inclui o fim de taxas de 14% sobre medicamentos oriundos da Europa.


Atores que acompanharam as negociações, como a entidade Médicos Sem Fronteiras e Jaume Vidal, consultor sênior da organização Health Action International, explicam a Outra Saúde que algumas das principais cláusulas negativas para o setor da Saúde foram eliminadas do Acordo ao longo das discussões, em grande parte por pressão civil. Entre as vitórias, estão a retirada de medidas TRIPS-plus (isto é, que tornam as normas de propriedade intelectual ainda mais favoráveis às grandes possuidoras de patentes, como as corporações farmacêuticas do Norte Global) e a exclusão das compras governamentais relativas ao Sistema Único de Saúde (SUS) do tratado.

No entanto, ainda existem receios quanto às consequências do Acordo no setor. Um deles se refere aos impactos sobre a indústria nacional. Como avalia o sanitarista Reinaldo Guimarães, em nota que acompanha esta reportagem, “a depender do texto final, a indústria brasileira poderá vir a ser prejudicada por uma abertura comercial isenta de preocupações, pelo menos para alguns setores sensíveis e/ou estratégicos, dentro os quais está o setor industrial da saúde”.

Outra preocupação remete às vantagens conferidas ao Acordo para o agronegócio. Poderia o tratado multiplicar os riscos ao bem-estar da população causados por este setor econômico, muito associado ao desmatamento e uso de insumos nocivos à saúde? Ariane Larentis, pesquisadora da Fiocruz ligada ao Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh), pondera: o tratado “tende a aprofundar a venda de commodities que implicam em uso intensivo de agrotóxicos e também na ampliação do desmatamento e das mudanças climáticas que afetam a saúde”. Há riscos para quem consome essas mercadorias — mas também para quem os brasileiros que trabalham em sua produção.

O que prevê o acordo

Em negociação desde 1999, o Acordo UE-Mercosul consiste centralmente em “um amplo compromisso de liberalização tarifária” entre os dois blocos regionais, segundo um factsheet do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Ainda segundo o documento do Itamaraty, “as principais concessões da UE” envolvem a derrubada de taxas sobre produtos sul-americanos como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja e laticínios – isto é, produtos agrícolas e agroindustriais. 

No outro sentido, a Comissão Europeia (órgão executivo da UE) destaca que o tratado põe fim às tarifas do Mercosul sobre produtos industrializados europeus como “carros, maquinário e medicamentos”. Neste último caso, cairão as taxas de 14% sobre produtos farmacêuticos da Europadiz o bloco.

Por isso, as críticas direcionadas ao tratado apontam que seus termos tendem a reforçar o caráter primário-exportador da economia do Brasil e demais países do Mercosul, além de aprofundar sua dependência de produtos industriais da Europa.

É o questionamento contido, por exemplo, em declaração da Via Campesina, articulação de movimentos sociais do campo de que faz parte o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sobre o tratado: “O Acordo assume características neocoloniais na sua concepção e ameaça, em seus termos, nossos povos e territórios, ameaça a agricultura camponesa, as comunidades tradicionais e entrega nossos bens comuns aos interesses do capital internacional, consolidando assim o caráter agroexportador da nossa economia, que é basicamente continuar exportando matéria prima para abastecer as demandas dos países europeus em troca dos produtos industrializados.”


O foco do tratado na mais ampla liberalização do comércio possível remete a suas origens na conjuntura global dos anos 1990, avalia-se. Naquele momento, “o mundo vivia o auge do ideário neoliberal”, escreveu o economista Paulo Kliass, em Outras Palavras. Nas décadas seguintes, em meio à ascensão de movimentos progressistas na América do Sul, as negociações desaceleraram e passaram a incluir temas ambientais e de direitos humanos e trabalhistas, mas o protagonismo do livre comércio seguiu vivo no texto. O reavivamento do diálogo em 2016 no contexto de uma onda de governos liberais e de direita à região, sacramentou as feições gerais do Acordo, concluídas em 2019. Desde então, estão passando por “ajustes finais”.

Vitórias parciais: patentes e compras públicas

O pacto entre os dois blocos econômicos se divide em duas partes: o Acordo de Comércio Provisório, que cobre apenas uma parte dos aspectos comerciais do tratado, cujo texto está disponível aqui; e o Acordo de Parceria Mercosul-UE, mais amplo, que além de assuntos comerciais também abarca cláusulas políticas e de cooperação (pode ser lido aqui). 

Volumosos, os dois instrumentos jurídicos do tratado contam, respectivamente, com 23 e 30 capítulos, somando juntos mais de mil páginas. No entanto, ao longo das negociações, duas subdivisões do texto estiveram no centro das preocupações de organizações de defesa do direito de saúde: o capítulo sobre Propriedade Intelectual e o capítulo sobre Compras Governamentais do Acordo. 

A redação apresentada pela União Europeia para as cláusulas de propriedade intelectual do Acordo reforçaria a “proteção às patentes” das corporações farmacêuticas da Europa, relembra Jaume Vidal, que à época escreveu uma crítica à proposta. Tratavam-se de medidas que, no jargão do setor da saúde, são conhecidas como TRIPS-plus: isto é, que exigem privilégios patentários ainda mais rígidos do que os previstos no Acordo TRIPS, tratado que harmonizou as leis de patentes do países membros da OMC, já consideradas excessivas. (Como já abordou Outra Saúde em reportagem, a adesão apressada do Brasil a este pacto nos anos 1990 acelerou a destruição da antes pujante indústria nacional de IFAs). 

Em termos práticos, isso significa que os países do Mercosul passariam mais tempo pagando royalties dos remédios patenteados que consomem, além de pôr entraves à fabricação e venda de genéricos e similares. Ambas as consequências encareceriam e dificultariam o acesso da população a medicamentos essenciais. No entanto, em 2017, após forte pressão social, a proposta foi retirada. 

“A coordenação respeitosa entre organizações e movimentos da América Latina e da Europa foi muito importante para essa vitória. Aqui na Europa, dissemos aos nossos governos: nosso compromisso com a Saúde Global nos empurra a exigir que vocês recuem dessas propostas”, recorda Vidal. Naquele contexto, uma declaração conjunta dos ministros da Saúde do Mercosul sinalizou que o bloco fecharia posição em “continuar adotando critérios que protejam a saúde pública no exame de pedidos de patente”.

“Se esse espaço político tivesse sido perdido, haveria consequências globais. Mostraria que mesmo países com alguma estatura política e capacidade produtiva no setor farmacêutico não conseguem resistir à pressão da União Europeia e dos Estados Unidos. O fato de que o Mercosul conseguiu resistir – em 2017, todos os ministros da Saúde do Mercosul assinaram uma declaração conjunta sobre acesso a medicamentos – foi muito importante”, completa o consultor da Health Action International.

Vidal ainda lembra que a responsável pela equipe negociadora da UE era a italiana Sandra Gallina, alta funcionária que depois seria deslocada para a diretoria-geral de Saúde do bloco. Nos anos seguintes, Gallina liderou o veto europeu à quebra de patentes de vacinas e medicamentos de covid-19 e dirigiu a participação da Europa nas negociações do Acordo das Pandemias, sempre buscando diluir as responsabilidades do Norte com a saúde global.

A entidade Médicos Sem Fronteiras, contactada por Outra Saúde para esta reportagem, também destacou a “vitória” da retirada das previsões TRIPS-plus do Acordo. “Em regra, acordos internacionais bilaterais dessa natureza trazem compromissos adicionais na área de patentes que impactam no acesso a medicamentos, como as revisões do Acordo do USMCA/NAFTA”, lembrou a organização. Também é o caso do recente acordo Índia-EFTA, que põe em risco o caráter de “farmácia do Terceiro Mundo” do setor farmacêutico indiano.

Por sua vez, o capítulo sobre compras governamentais causava preocupação por abrir margem para que as grandes corporações da Europa, com suas vantagens competitivas, expulsassem as empresas locais deste mercado bilionário. Hoje, as compras públicas são um importante instrumento de incentivo à industrialização autóctone da saúde, por priorizarem a aquisição de produtos nacionais. No entanto, em 2024, no apagar das luzes da negociação, o Brasil conseguiu retirar as compras do SUS do Acordo. 

Isto é, se o dano geral não foi evitado – os demais setores das compras governamentais ainda serão abertos para a competição europeia, inclusive as compras estaduais – ele foi mitigado no setor da saúde.

factsheet difundido pelo Itamaraty sobre o tratado dá ênfase aos avanços obtidos nestes dois casos. Ao tratar do subtópico de Propriedade Intelectual do Acordo, o ministério reitera que “o capítulo não altera as normas sobre patentes que foram acordadas no âmbito da OMC, demanda importante para a formulação de políticas de saúde no Brasil”. Já no capítulo sobre as Compras Governamentais, a pasta sublinha que as negociações lograram a “exclusão completa das compras realizadas pelo Sistema Único de Saúde”.

Ouvido pela reportagem, o Ministério da Saúde reiterou os mesmos pontos, em nota que se segue: “O Ministério da Saúde atuou ativamente no Acordo Mercosul–União Europeia para garantir o abastecimento do SUS e a assistência qualificada à população. Entre as medidas adotadas, destacou-se a retirada das compras do sistema público de saúde do Acordo, preservando esse instrumento de política industrial, com a manutenção de margens de preferência para produtos fabricados no Brasil e a continuidade de mecanismos de estímulo à produção nacional, como o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), por meio da produção de medicamentos, vacinas e insumos de saúde.”

“No campo da propriedade intelectual, o Ministério, em articulação com os demais países do Mercosul, atuou para impedir a inclusão de regras que pudessem dificultar a produção de medicamentos genéricos, que representam cerca de 72% dos adquiridos pela população e são essenciais para o acesso aos tratamentos e para a sustentabilidade do SUS”, continua a pasta.

Os impactos na indústria nacional

A despeito dessas duas exclusões, a indústria farmacêutica nacional ainda pode ser atingida. É o que avaliam as instituições da própria União Europeia.

Um estudo solicitado pelo comitê de comércio internacional do Parlamento Europeu prevê a perda de empregos no setor industrial de fármacos em países sul-americanos após a implementação do Acordo Comercial.

“Nos países do Mercosul, os ganhos em postos de trabalho resultantes da liberalização do comércio estarão concentrados no setor agrícola. Por outro lado, a contração [de empregos] mais proeminente é esperada nos setores farmacêutico, metalúrgico, maquinário e automobilístico”, avalia a pesquisa europeia, que coaduna com a visão de analistas brasileiros sobre o estímulo do tratado à reprimarização da economia local.

Em 2024, os produtos farmacêuticos foram a maior exportação da União Europeia para o Mercosul. De acordo com a Comissão Europeia, naquele ano, essas vendas alcançaram o valor de 6,8 bilhões de euros (R$42,5 bilhões), ou 12,3% das exportações da Europa para o bloco sul-americano, e estão em alta na última década. “A exportação de produtos medicinais e farmacêuticos cresceu em 85,9% desde 2014, o maior crescimento entre os principais setores”, diz a UE.

Com a derrubada das tarifas sobre produtos farmacêuticos, o crescimento ainda mais expressivo do volume dessas exportações europeias para o Brasil é uma possibilidade bastante real. Indícios desse receio podem ser encontrados na opinião do próprio empresariado local. Em artigo recente para o Poder360, o presidente do sindicato patronal da indústria farmacêutica brasileira, Nelson Mussolini, reconhece que “a intensificação da concorrência de medicamentos importados, muitas vezes produzidos em países que oferecem amplo apoio estatal e operam em larga escala industrial, demanda cautela”. 

Favorável ao tratado, Mussolini argumenta que a redução de impostos sobre insumos como “matérias-primas, reagentes e, sobretudo, equipamentos, tem potencial para reduzir os custos de produção no Brasil”. Mas o argumento é ilustrativo: ainda que o acordo beneficie a indústria nacional por algum ângulo, seria através do aprofundamento da dependência de produtos manufaturados europeus.

Para Jaume Vidal, os ganhos de competitividade da indústria europeia no mercado brasileiro e sul-americano devem se concentrar nos medicamentos patenteados, de maior custo. Ainda assim, sua avaliação é de que estes ganhos não serão tão significativos, tendo em vista que as tarifas a serem derrubadas são de 14%, uma cifra não tão relevante.

“De toda forma, este é um acordo cujas consequências não serão sentidas amanhã ou daqui a 6 meses, mas a médio e longo prazo”, completa o consultor.

Vantagens para o agronegócio: risco à saúde?

Frente à conquista de novos mercados que o Acordo Comercial União Europeia-Mercosul representa para o agronegócio sul-americano, propagandeada inclusive pelos governos da região, também se levanta o temor de um recrudescimento dos riscos à saúde da população causados por este setor econômico. É amplamente documentada a associação da grande agricultura de exportação como o desmatamento e o uso de agrotóxicos nocivos. Mas há vários fatores em jogo.

Por um lado, as cláusulas do tratado prevêem que os produtos agrícolas exportados para a UE devem seguir as normas ambientais europeias, consideradas mais rígidas. Os padrões regulatórios do bloco preveem limites estritos aos níveis de hormônios, antibióticos e pesticidas presentes nos produtos. Por outro, atores questionam se a vigilância a que estarão submetidos os produtores brasileiros será mesmo eficaz para coibir a utilização de insumos nocivos à saúde. Nas palavras de um agrupamento parlamentar europeu que se opõe ao pacto, falta “enforceability” — a capacidade de se impor, em tradução livre — a essas medidas: o instrumento que prevê a redução do desmatamento, por exemplo, não conta com cláusulas vinculantes que obriguem a mudança.

De toda forma, o Acordo “tende a aprofundar a venda de commodities que implicam em uso intensivo de agrotóxicos e também na ampliação do desmatamento e das mudanças climáticas que afetam a saúde. O aumento do uso dessas substâncias tende a ampliar casos de câncer, por exemplo, com o país não estando preparado para atender esses casos”, avalia Ariane Larentis, estudiosa do Cesteh/Fiocruz que pesquisa os efeitos do emprego de substâncias tóxicas sobre a saúde dos trabalhadores. Ela ainda ressalta que muitas das substâncias utilizadas são bioacumulativas, ou seja, seus efeitos sobre a saúde podem ser sentidos apenas muitos anos depois da exposição, característica que dificulta a vigilância.

Consultado pela reportagem sobre estes possíveis impactos, o Ministério da Saúde afirmou: “Em relação aos produtos agrícolas e agroindustriais, o Ministério da Saúde monitora permanentemente os potenciais impactos à saúde decorrentes das atividades produtivas, inclusive aquelas relacionadas ao uso de agrotóxicos. Atualmente, 805 municípios são considerados prioritários para a implementação das ações da Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA). O Acordo ainda se encontra em fase inicial de implementação e análise. O Ministério seguirá acompanhando o tema, com monitoramento contínuo e aprofundamento técnico, para identificar possíveis implicações e subsidiar estratégias de mitigação de riscos à saúde pública.”

Ironicamente, um possível atenuante desse risco é que a Europa não abriu mão de suas “cotas de importação”: isto é, mesmo com o Acordo, ainda haverá limites à venda sem tarifa de produtos sul-americanos como carne bovina, açúcar e mel. A medida busca aplacar a fúria dos agricultores europeus, que se consideram prejudicados pelo tratado. “A despeito do que diz o tratado, a promessa europeia de abrir seus mercados para os produtos agrícolas dos países do Mercosul pode não se concretizar”, opina Jaume Vidal.

Perspectivas para o futuro

O consultor da Health Action International chama atenção para o que vê como uma “divisão na sociedade civil” em sua resposta à assinatura do Acordo UE-Mercosul: “Nós, que trabalhamos com a saúde e o acesso a medicamentos, nos focamos bastante no capítulo de propriedade intelectual e comemoramos muito sua alteração. Mas é possível ver que organizações que trabalham com temas ambientais ou de sustentabilidade, por exemplo, estão contra este tratado, em geral. De toda forma, é importante deixar claro que nossa satisfação com os avanços nesses aspectos do acordo não significa necessariamente que aprovamos o resto de seu conteúdo”.

Sobre as alterações logradas no tratado pelo Mercosul, o economista Paulo Nogueira Batista Jr, em avaliação publicada em Outras Palavras, pondera: “O governo Lula obteve modificações em alguns aspectos do acordo. Embora não sejam desprezíveis, não mudam a essência neoliberal. É essa ideologia, dominante na época em que a negociação com os europeus foi lançada, há duas décadas, que estabelece a orientação do acordo.”

Em certo sentido, o conjunto de avaliações ajuda a traçar um balanço geral: importantes mudanças foram alcançadas, que no caso da saúde ajudam a mitigar seu impacto, mas não alteram o sentido geral negativo da liberalização comercial para as capacidades autóctones da indústria brasileira e seu papel na garantia do direito à saúde. O tratado caminha no sentido contrário dos planos de industrialização do país, que têm o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde como um de seus principais objetivos.

“A tendência é que as relações de dependência e desigualdade sejam mantidas e mesmo aprofundadas. Trata-se de um enorme retrocesso, que pode comprometer toda e qualquer capacidade de retomada futura de um projeto de soberania e independência nacional”, completa o economista Paulo Kliass.

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Bad Bunny: o desafio a Trump ganha as multidões

Em meio à guerra do ICE contra os imigrantes, um rapper porto-riquenho será o astro do momento de maior audiência na TV norte-americana. Como ele difunde a resistência ao supremacismo do presidente. Por que a indústria cultural já não pode ignorá-lo

Alguma coisa está fora de ordem na indústria cultural dos EUA. Na noite deste domingo, um rapper, cantor, ator e produtor musical porto-riquenho, que canta em castelhano e se opõe à perseguição lançada pela Casa Branca contra os imigrantes, será o protagonista do Super Bowl – a final da principal liga do campeonato de futebol americano. Bad Bunny  nome artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio  subirá ao palco no show do intervalo (Halftime Show), assistido possivelmente por 130 milhões de pessoas. Comparecerá não apenas como astro global (foi o artista mais ouvido no planeta pelo Spotify em 2025), mas como um símbolo de oposição à guerra cultural e anti imigratória nos Estados Unidos. Enquanto fãs preparam festas, a NFL (a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos) arma-se para protestos, redes de televisão ensaiam cortes de som e grupos ativistas monitoram possíveis rondas do ICE. Não será uma simples apresentação musical, mas um ato político que encapsula anos de transformações: um artista boicotou os EUA, injetou US$ 400 milhões em Porto Rico, dominou as paradas em espanhol e se tornou o rosto de uma resistência que a indústria não pode mais ignorar. O que está em jogo vai muito além do entretenimento.

A escalada que transformou este show no palco de uma guerra cultural pode ser traçada desde seu anúncio oficial, em setembro de 2025, quando a NFL o confirmou como atração do Halftime Show – um palco tradicionalmente associado ao patriotismo estadunidense. A euforia inicial logo encontrou seu contraponto. Ainda em outubro, vozes influentes na mídia conservadora iniciaram um coro de desdém, questionando a escolha de um artista que “não canta em inglês” e acusando a liga de capitular à “agenda woke”.

Este cenário de tensão tem raízes mais profundas. O ponto de inflexão política ocorreu em 27 de outubro de 2024. Durante um comício de Donald Trump, o comediante Tony Hinchcliffe referiu-se a Porto Rico como uma “ilha flutuante de lixo”. Apesar de a campanha de Trump ter se desvinculado da piada, o dano político e simbólico estava feito. Bad Bunny, conhecido por evitar endossos políticos explícitos, quebrou seu silêncio publicamente, compartilhando nas redes sociais um vídeo de campanha da candidata Kamala Harris que criticava a gestão de Trump após o furacão Maria. O status político peculiar de Porto Rico – cujos cidadãos têm nacionalidade estadunidense, mas não votam para presidente – adiciona uma camada complexa ao debate sobre representação e soberania que Bad Bunny personifica.


Quando o comentário aconteceu, Bad Bunny já trabalhava em Debí Tirar Más Fotos, um álbum concebido como carta de amor profundamente pessoal à ilha. O episódio não criou sua consciência política, mas estabeleceu contexto e combustível para seu lançamento, em 5 de janeiro de 2025. O projeto afirma a identidade porto-riquenha frente ao colonialismo. Para isso, parte das raízes: utiliza ritmos tradicionais, prioriza colaboradores locais e, em uma camada conceitual única, trabalha com o historiador Jorell Meléndez-Badillo em visualizers (vídeos simples, de baixo custo e com animações em looping, criados para acompanhar músicas no YouTube) que narram a história política da ilha.

O próximo capítulo do embate foi uma provocação artística calculada. No Dia da Independência dos EUA, em julho de 2025, Bad Bunny lançou o clipe de “NUEVAYoL”. No vídeo, uma voz idêntica à de Trump diz: “Cometi um erro. Quero me desculpar com os imigrantes na América. Quero dizer, os Estados Unidos. Sei que a América é o continente inteiro. Quero dizer que este país não é nada sem os imigrantes. Este país não é nada sem mexicanos, dominicanos, porto-riquenhos, colombianos, venezuelanos, cubanos”. O clipe também fez referência ao ativista Tito Kayak, que em 2000 escalou a Estátua da Liberdade para colocar a bandeira de Porto Rico, reforçando a imagem de Bad Bunny como defensor dos direitos latinos.

Esta postura se refletiu de forma concreta em suas decisões de carreira. Embora seja uma atração global aclamada, Bad Bunny deliberadamente não incluiu os Estados Unidos em sua turnê “Debí Tirar Más Fotos World Tour”. Inicialmente declarando que levar seus shows para lá era”desnecessário”, ele confessou em uma entrevista de setembro de 2025 que a real motivação era uma preocupação com a segurança de seu público. “Havia uma preocupação com o ICE estar do lado de fora, pois meus fãs são majoritariamente latinos”, afirmou. Em contrapartida, realizou sua residência “No Me Quiero Ir de Aquí”, com 30 datas em Porto Rico — que, embora ligado aos EUA (com status de Estado Livre Associado), garantia a segurança de seus fãs. Em consequẽncia, transformou o evento em um poderoso ato de afirmação cultural e gerou um impacto econômico de mais de US$ 400 milhões na economia da ilha.

Sua plataforma é global e seu alcance, mensurável: a liderança de Bad Bunny no Spotify mantém-se desde 2022 e alcançou mais de 19,8 bilhões de streams no ano passado. Após o lançamento do último álbum, três músicas se tornarem trends mundiais imediatos no TikTok. Uma delas, a faixa “DTMF”, foi especificamente adotada pelo povo palestino como trilha de resistência diante do extermínio em Gaza, ampliando sua ressonância para muito além do público latino. Esse domínio algorítmico consolida uma autoridade cultural que torna seu ativismo muito mais do que um gesto simbólico — é uma força com audiência certificada.

Esse poder esmagador foi reforçado por um gesto aparentemente pequeno. Exibida durante toda sua performance na cerimônia do Grammy de 2025, a legenda “singing in non-English” serviu de catalisador para um debate sobre exclusão e assimilação, fornecendo o vocabulário perfeito para a campanha contra sua escolha para o Super Bowl. Este episódio, no entanto, tem um profundo eco histórico. Em 1968, o artista porto-riquenho José Feliciano causou furor e teve sua carreira nos EUA prejudicada ao cantar o hino nacional em um estilo latino, durante a World Series, sendo acusado de “anti-americano”. A ironia histórica é ainda mais profunda: em 1945, o próprio governo dos EUA, sob Franklin D. Roosevelt, havia encomendado uma versão oficial em espanhol do hino, “El Pendón Estrellado”, como parte de sua Política de Boa Vizinhança. A controvérsia em torno de Bad Bunny revela, portanto, uma contradição cíclica na relação dos EUA com a cultura hispânica.

O descontentamento cultural rapidamente se militarizou. Na narrativa da extrema direita, Bad Bunny deixou de ser um artista para se tornar um alvo político, citando seu independentismo porto-riquenho e o boicote de sua turnê. O ápice desta escalada veio em dezembro de 2025, quando, em um podcast de ultradireita, a sugestão foi lançada: usar o ICE para uma operação simbólica no entorno do estádio do Super Bowl. A proposta ilegal, mas amplamente compartilhada, acrescentou ao evento um risco tangível, transformando a apreensão em medo.

As críticas públicas de Trump selaram de vez o tom da oposição. Em outubro de 2025, o presidente afirmou, em entrevista: “Nunca ouvi falar dele… Acho isso absolutamente ridículo”. Mais tarde, duas semanas antes do evento, ao falar ao New York Post, foi mais direto sobre as atrações do Super Bowl (Green Day e Bad Bunny): “Sou contra eles… Acho uma escolha terrível. Tudo o que fazem é semear ódio”.


Em um desfecho de ironia perfeito, o mesmo palco que o insultou o coroou. A uma semana de sua apresentação no Super Bowl, Bad Bunnyvenceu o prêmio de Álbum do Ano com “Debí Tirar Más Fotos” em 2026. Tornou-se o primeiro artista latino, e o primeiro álbum inteiramente em espanhol, a conquistar a principal honraria da Academia das Gravadoras na história da premiação. O disco também lhe garantiu os troféus de Melhor Álbum de Música Urbana e Melhor Performance de Música Global. Foi no palco de aceitação do prêmio de Música Urbana que ele fez seu discurso mais incisivo: “Antes de eu agradecer a Deus, eu vou dizer: ICE, fora. Nós não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas, somos humanos e somos americanos.” Ao aceitar o Álbum do Ano, dedicou o prêmio “a quem deixou sua casa, seu país para ir atrás de seus sonhos” e “a todos os latinos no mundo que mereciam estar aqui concorrendo”.

O discurso foi a prova final de que a adaptação não era mais uma estratégia de mercado, mas uma atitude cultural. A preparação da própria NFL para o evento reflete a pressão desse novo mainstream. A resposta da liga foi ampliar sua cobertura em espanhol, escalando narradores e legendadores especializados para atender não só à crescente base hispânica, mas ao próprio protagonista do Halftime Show — um aceno tácito ao poder cultural que Bad Bunny personifica.

É esse protagonismo, consolidado no Grammy e assimilado pela NFL, que perturba a ultradireita. Bad Bunny transformou o boicote deliberado em uma estratégia de protesto e luta incomuns no cenário atual da indústria musical estadunidense. Ao desviar sua turnê dos EUA, ele fez mais do que proteger seu público do ICE — inaugurou um modelo de “soberania cultural via streaming”. Seu sucesso global sugere que o “mainstream” não é mais um centro a ser conquistado, mas um ecossistema a ser reconfigurado a partir das margens. O Super Bowl, então, torna-se o reconhecimento tácito e tenso dessa nova realidade: a NFL não o convidou para diversificar seu público, mas porque seu público já está no  mainstream. A pergunta crucial, portanto, não é sobre o espetáculo, mas se a indústria do entretenimento — e o próprio país — estão preparados para assimilar as condições linguísticas, políticas e históricas que essa nova atitude impõe.

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Desemprego, drama superado?

Aumento da ocupação é meia-verdade ilusória. Dados mostram: precarização, que persiste, achata salários, reduz direitos e torna inseguros mesmo os empregos com carteira. Até o sono é afetado – em benefício de um punhado de rentistas

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), instrumento criado pela Lei nº 4.923 de 1965, constitui uma das principais fontes estatísticas para a compreensão das dinâmicas do mercado de trabalho formal no Brasil. Contudo, para além de sua dimensão quantitativa, este registro administrativo carrega em si as marcas das tensões sociais que atravessam a sociedade brasileira, revelando os movimentos de avanço e recuo na formalização das relações de trabalho que afetam diretamente a vida cotidiana de milhões de trabalhadores e trabalhadoras. O ano de 2025 encerrou com um saldo positivo de 1.279.498 empregos formais, resultado de 26,59 milhões de admissões contra 25,32 milhões de desligamentos, conforme dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 29 de janeiro de 2026.

Este resultado, embora positivo em termos absolutos, representa o pior desempenho na geração de empregos formais desde 2020, ano em que a pandemia de COVID-19 provocou o fechamento de 189,3 mil vagas com carteira assinada. A queda de 23,7% em relação ao saldo de 2024, quando foram criados aproximadamente 1,67 milhão de postos formais, evidencia uma desaceleração significativa no ritmo de formalização do trabalho brasileiro. É fundamental distinguir, metodologicamente, duas fontes estatísticas complementares: o Novo CAGED, registro administrativo do Ministério do Trabalho e Emprego que capta exclusivamente os movimentos de admissão e desligamento no mercado formal (trabalhadores celetistas), e a PNAD Contínua do IBGE, pesquisa amostral domiciliar que abrange toda a força de trabalho, incluindo informais, trabalhadores por conta própria e empregados domésticos. Esta distinção é crucial para compreender por que o Brasil pode apresentar simultaneamente o pior saldo de empregos formais desde a pandemia e a menor taxa de desemprego da série histórica: a ocupação total cresceu via informalidade e outras formas de trabalho não captadas pelo registro administrativo. Tal movimento não pode ser compreendido apenas como reflexo de ciclos econômicos abstratos, mas deve ser situado no contexto das experiências concretas vivenciadas pelos trabalhadores em seus locais de trabalho, nas filas de emprego e nas estratégias de sobrevivência que desenvolvem cotidianamente.

A análise setorial dos dados revela padrões significativos que merecem atenção. O setor de Serviços liderou a geração de empregos em 2025, com 758.355 novas vagas (crescimento de 3,29%), seguido pelo Comércio com 247.097 postos (2,3%), Indústria com 144.319 vagas (1,6%), Construção com 87.878 postos (3,1%) e Agropecuária com 41.870 empregos (2,3%). Dentro do setor de Serviços, destacaram-se as atividades de informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, que geraram 318.460 vagas, bem como a administração pública, educação, saúde e serviços sociais, com saldo de 194.903 postos. Estes números traduzem transformações estruturais na composição do trabalho brasileiro, com crescente terceirização e precarização de vínculos.


O mês de dezembro de 2025 registrou saldo negativo de 618.164 postos de trabalho formal, o pior resultado para o período desde dezembro de 2020. As perdas foram distribuídas entre todos os setores: Serviços (-280.810), Indústria (-135.087), Construção (-104.077), Comércio (-54.355) e Agropecuária (-43.836). Esta sazonalidade, embora esperada em função do encerramento de contratos temporários ligados às festas de fim de ano, atingiu magnitude superior aos anos anteriores, indicando uma fragilidade crescente nos vínculos empregatícios. A taxa de rotatividade dos últimos 12 meses aumentou de 32,79% em 2024 para 33,64% em 2025, evidenciando a instabilidade que marca a experiência dos trabalhadores formais.

Para o ano de 2026, as projeções apontam para uma continuidade da desaceleração na geração de empregos formais. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta crescimento do PIB de 1,8%, o menor em seis anos, com taxa de desemprego encerrando o ano em 5,6% e massa de rendimento real crescendo 3,4%. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mantém projeção de crescimento do PIB em 1,6% para 2026, enquanto o Banco Central trabalha com estimativa de 1,5%. O FGV IBRE projeta crescimento de 1,7%, com taxa de desemprego mantendo-se baixa ao longo do ano. Esta aparente estabilidade nos indicadores agregados, contudo, oculta transformações qualitativas nas condições de trabalho que afetam de maneira desigual diferentes segmentos da classe trabalhadora.

O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, atribuiu o desempenho menos favorável de 2025 à política monetária contracionista, com a taxa Selic mantida em 15% ao ano, o maior patamar dos últimos 20 anos. Segundo análises da CNI, a expectativa é de que o ciclo de cortes na Selic tenha início ao longo de 2026, encerrando o ano em aproximadamente 12%. Entretanto, mesmo com eventuais reduções, os juros continuarão em nível contracionista, limitando investimentos e consumo. Para os trabalhadores, esta configuração macroeconômica traduz-se em menor oferta de vagas, maior competição por postos disponíveis e pressão sobre salários e condições de trabalho, elementos que conformam sua experiência cotidiana e suas possibilidades de organização coletiva.

Quadro 1 – Principais Indicadores do Mercado de Trabalho Brasileiro em 2025

INDICADORVALOR
Saldo de empregos formais (CAGED 2025)1.279.498 postos
Admissões totais em 202526,59 milhões
Desligamentos totais em 202525,32 milhões
Estoque de trabalhadores celetistas (dez/2025)48,47 milhões
Variação do estoque em relação a 2024+2,71%
Taxa de desemprego média anual (PNAD Contínua)5,6%
Taxa de desemprego (trimestre out-nov-dez/2025)5,1%
População ocupada (trimestre set-out-nov/2025)103,2 milhões
Rendimento médio real habitual (nov/2025)R$ 3.574,00
Taxa de informalidade (3º tri/2025)37,8%
Trabalhadores com carteira assinada (nov/2025)39,4 milhões
Saldo dezembro/2025-618.164 postos
Taxa de rotatividade (últimos 12 meses)33,64%
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Novo CAGED/MTE (2026), PNAD Contínua/IBGE (2025-2026).

Balanço crítico: O trabalho por trás dos números

A análise da série histórica da taxa de desemprego no Brasil, entre 1967 e 2026, permite identificar padrões que transcendem as conjunturas econômicas imediatas e revelam transformações estruturais nas relações entre capital e trabalho. Os dados apresentados, que combinam diferentes metodologias de mensuração (PNAD oficial, PNADC média anual e estimativas de Bacciotti e Marçal), evidenciam que os níveis de desemprego observados nas últimas décadas representam patamares historicamente elevados quando comparados ao período de industrialização acelerada das décadas de 1960 e 1970. O pico atingido entre 2018 e 2021, com taxas superiores a 13%, constitui a expressão mais aguda de uma crise que afetou profundamente a vida de milhões de famílias trabalhadoras brasileiras.

A trajetória de queda da taxa de desemprego a partir de 2021, chegando aos níveis atuais próximos a 5%, merece interpretação cuidadosa. Se por um lado representa alívio imediato para trabalhadores que conseguiram reinserção no mercado, por outro oculta fenômenos como a precarização dos vínculos, a proliferação do trabalho por plataformas digitais e a chamada “pejotização” das relações de trabalho – termo sociológico que designa a prática de contratação de trabalhadores como pessoas jurídicas (PJ), mascarando relações de subordinação típicas do vínculo empregatício, e que não deve ser confundido com categoria jurídica formal de contratação. O trabalhador que aparece como ocupado nas estatísticas da PNAD Contínua pode estar submetido a jornadas extenuantes, remuneração variável e ausência de direitos trabalhistas, configuração que o aproxima mais da condição de desemprego disfarçado do que de emprego propriamente dito. As linhas tracejadas no gráfico histórico, indicando taxas de 5% e 3% como referências, sugerem que mesmo em cenários considerados favoráveis, parcela significativa da força de trabalho permanece excluída do emprego formal.

Os dados sobre criação de vagas formais no período 2020-2025 revelam uma trajetória de recuperação seguida de desaceleração que merece atenção. Após o saldo negativo de 189,4 mil vagas em 2020, o ano de 2021 registrou criação excepcional de 2.782,3 mil postos, seguida por 2.014,9 mil em 2022, 1.455,3 mil em 2023, 1.677,6 mil em 2024 e finalmente 1.279,5 mil em 2025. Esta sequência demonstra que a recuperação pós-pandêmica perdeu fôlego progressivamente, com o saldo de 2025 representando menos da metade do verificado em 2021. A análise por setores revela ainda que, em 2025, Serviços foi responsável por 758,4 mil vagas, Comércio por 247,1 mil, Indústria por 144,3 mil, Construção por 87,9 mil e Agropecuária por 41,9 mil, evidenciando a crescente terceirização da economia brasileira.


A variação interanual do estoque de empregos formais por setor, no período de janeiro de 2022 a outubro de 2025, permite identificar ciclos diferenciados de absorção de mão de obra. A Construção manteve taxas de crescimento superiores às demais atividades durante boa parte de 2022 e início de 2023, beneficiada por programas habitacionais e obras de infraestrutura, mas experimentou desaceleração acentuada a partir de meados de 2024. A Indústria apresentou variações negativas em diversos momentos de 2023, refletindo os impactos da política monetária restritiva sobre o setor produtivo. O Comércio mostrou sazonalidade pronunciada, com picos em períodos festivos seguidos de retrações. Os Serviços mantiveram crescimento relativamente estável, consolidando sua posição como principal absorvedor de força de trabalho formal na economia brasileira.

A correlação entre taxa de desemprego e prevalência de sono curto nas capitais brasileiras, apresentada com coeficiente de 0,75 e R² de 0,56, oferece perspectiva reveladora sobre as consequências do desemprego que transcendem a dimensão estritamente econômica. Os dados indicam que capitais com maiores taxas de desemprego tendem a apresentar maior proporção de adultos com duração curta de sono, evidenciando como as condições do mercado de trabalho afetam a saúde física e mental da população trabalhadora. Esta relação corrobora estudos internacionais que demonstram que o desemprego aumenta a incidência de distúrbios do sono, sendo especialmente graves para desempregados de longa duração. Para os trabalhadores, o desemprego não representa apenas ausência de renda, mas deterioração global das condições de vida.

A literatura internacional sobre os efeitos do desemprego na saúde, exemplificada pelo estudo de Blanchflower (2021) com dados de 2,5 milhões de indivíduos nos Estados Unidos entre 2006 e 2019, demonstra que os desempregados apresentam maior incidência de sono curto e longo, além de sono interrompido, quando comparados aos empregados. O aumento da taxa de desemprego agregada eleva a incidência de sono curto mesmo entre os que permanecem empregados, sugerindo que a insegurança no trabalho afeta o conjunto da classe trabalhadora. Estes achados reforçam a necessidade de compreender o desemprego não apenas como fenômeno macroeconômico, mas como experiência vivida que afeta corpos, mentes e relações sociais dos trabalhadores, configurando o que se poderia chamar de dimensão moral do desemprego – a perda de autoestima, o estigma social e a desestruturação das rotinas familiares.

Tabela 1 – Saldo de Empregos Formais por Grande Setor (2020-2025)

SETOR202020212022202320242025
Serviços913,4758,4
Comércio338,0247,1
Indústria305,7144,3
Construção109,287,9
Agropecuária11,341,9
TOTAL-189,42.782,32.014,91.455,31.677,61.279,5
Fonte: CAGED/MTE, com elaboração do FGV IBRE. Dados em milhares de postos. Os valores setoriais para 2020-2023 não foram detalhados nas fontes consultadas.

Desafios do mercado de trabalho: perspectivas críticas

O primeiro desafio que emerge da análise dos dados diz respeito à persistência de elevada informalidade no mercado de trabalho brasileiro. Com taxa de 37,8% da população ocupada em situação informal no terceiro trimestre de 2025, o Brasil mantém parcela significativa de seus trabalhadores à margem dos direitos trabalhistas conquistados historicamente. As desigualdades regionais são marcantes: enquanto Santa Catarina apresenta taxa de 24,9%, estados como Maranhão (57,0%), Pará (56,5%) e Piauí (52,7%) mantêm mais da metade de sua força de trabalho na informalidade. Esta configuração reflete não apenas diferenças no desenvolvimento econômico regional, mas a herança de formação social desigual que marca a história brasileira, onde segmentos expressivos da classe trabalhadora nunca chegaram a experimentar plenamente os direitos associados ao trabalho formal.

O segundo desafio concerne às desigualdades de gênero e raça que estruturam o mercado de trabalho. Os dados da PNAD Contínua revelam que, no segundo trimestre de 2025, a taxa de desocupação foi de 4,8% para homens e 6,9% para mulheres. Por cor ou raça, a taxa ficou em 4,8% para brancos, 7,0% para pretos e 6,4% para pardos. Estas disparidades, longe de representarem meras diferenças estatísticas, expressam processos históricos de discriminação e exclusão que relegam mulheres e pessoas negras às posições mais precárias do mercado de trabalho. A experiência do desemprego, da informalidade e da precarização não se distribui aleatoriamente na sociedade, mas segue padrões determinados pela estrutura de classes, gênero e raça que organiza a sociedade brasileira.

O terceiro desafio refere-se à crescente instabilidade dos vínculos empregatícios formais. O aumento da taxa de rotatividade de 32,79% em 2024 para 33,64% em 2025 indica que mesmo os trabalhadores com carteira assinada experimentam insegurança crescente em relação à permanência no emprego. Esta instabilidade dificulta o planejamento de longo prazo das famílias trabalhadoras, compromete a capacidade de negociação coletiva dos sindicatos e fragmenta a experiência de classe dos trabalhadores. A rotatividade elevada favorece os empregadores, que podem substituir trabalhadores mais experientes e mais bem remunerados por novos contratados com salários de entrada, configurando mecanismo de compressão salarial que afeta o conjunto da categoria profissional.

O quarto desafio diz respeito aos impactos da política monetária restritiva sobre o mercado de trabalho. A manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, o maior patamar em duas décadas, representa escolha de política econômica que privilegia o controle inflacionário em detrimento da geração de empregos. A projeção de início do ciclo de cortes apenas em 2026, com a taxa encerrando o ano em aproximadamente 12%, sugere que a pressão sobre o mercado de trabalho deverá persistir. Para os trabalhadores, juros elevados significam menor oferta de vagas, maior dificuldade de acesso ao crédito e redução do poder de barganha nas negociações salariais. A política monetária, apresentada como decisão técnica neutra, revela-se assim como terreno de disputa distributiva com implicações diretas para a vida da classe trabalhadora.

O quinto desafio concerne às transformações tecnológicas e organizacionais que redefinem as formas de trabalho. A expansão do trabalho por plataformas digitais, a proliferação de contratos intermitentes e a chamada “uberização” do trabalho – categoria analítica que designa a transferência de riscos e custos da atividade econômica para os próprios trabalhadores, mediada por aplicativos digitais – configuram modalidades de ocupação que, embora apareçam nas estatísticas como trabalho, frequentemente carecem dos atributos que historicamente definiram o trabalho assalariado formal: jornada definida, remuneração previsível, proteção contra demissão arbitrária e acesso a direitos como férias, décimo terceiro e FGTS. Para os trabalhadores, estas novas formas de organização do trabalho representam simultaneamente possibilidade de ocupação em contexto de escassez de empregos formais e armadilha de precarização que dificulta a construção de identidades profissionais e a organização coletiva.

A perspectiva que orienta esta análise recusa a separação entre estruturas econômicas abstratas e experiências vividas pelos trabalhadores. Os números do CAGED, as taxas de desemprego, os indicadores de informalidade e as projeções macroeconômicas ganham significado quando situados no contexto das lutas, adaptações e resistências cotidianas dos trabalhadores brasileiros. O desemprego não é apenas estatística, mas experiência que desorganiza vidas, afeta a saúde mental e física, e desafia a autoestima de milhões de pessoas. A informalidade não é mera categoria analítica, mas condição de vida marcada pela incerteza e pela exclusão de direitos. A precarização não é tendência impessoal, mas resultado de escolhas políticas e econômicas que podem ser contestadas e transformadas. Compreender o mercado de trabalho brasileiro exige, portanto, conjugar a análise das tendências estruturais com a atenção às experiências concretas daqueles que vivem do trabalho, reconhecendo-os como sujeitos ativos na construção de sua própria história.

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Streeck: “O alvo do Trump é a China”

Grande analista da geopolítica global sustenta: EUA veem na América Latina um alvo fácil e humilha a Europa, mas sabe que disputa pelo poder global não será decidida aí. Como pretende derrotar Beijing? Por que as suas disputas subordinam-se a esta?

Por Wolfgang Streeck | Tradução: Antonio Martins

Será Trump um governante (neo)fascista? O que há de novo, em seu comportamenteo brutal – e em que ele apenas reproduz a atitude adotada pelos governantes norte-americanos quando se candidataram a potência hegemônica, no início do século XX? Quais as particularidades de seu governo e projeto geopolítico?

Vale conhecer, em meio a esta polêmica incessante, as opiniões do analista político alemão Wolfgang Streeck. Ele reconhece a novidade dos ataques da Casa Branca e o fato de destruírem a ordem internacional que Washington construiu, por décadas, em seu próprio proveio. Tem dúvidas sobre o prognóstico: poderá a força bruta alcançar o que o soft power já não é capaz de obter? O que isso significaria, em termos de regressão política?


Ainda que não haja elementos para responder a estas questões, Streeck parece estar certo de algo. A elevação do orçamento militar dos EUA a US$ 1,5 trilhão, em 2026 (um valor equivalente ao PIB da Coréia do Sul) expõe seu desejo de resolver o “paradoxo de Tulcídides” investindo contra a China antes que ela seja capaz de se defender. Será possível? Este pode ser o ponto central do debate geopolítico em nossa época. A entrevista de Streeck ajuda a iluminá-lo. (A.M)

Durante seu primeiro mandato como presidente, Trump prometeu se concentrar principalmente nas agruras do povo americano. Estaríamos agora testemunhando, ao contrário uma espécie de neoimperialismo estadunidense?

O programa MAGA de Trump para “Tornar a América Grande Novamente” sempre teve dois lados: reparar a sociedade norte-americana em crise e restaurar a dominação mundial dos EUA. Qual deles predominaria? Continua obscuro até hoje. Às vezes temos isolacionismo, às vezes intervencionismo; atualmente, ambos se alternam ou até mesmo ocorrem simultaneamente. A “Doutrina Donroe” de Trump é uma versão particular dessa mistura: intervencionismo, mas limitado à América Central e do Sul; nada de novo aí. Globalmente, isso equivaleria a uma divisão do mundo em “esferas de influência” regionais mutuamente respeitadas, nas quais uma grande potência governaria mais ou menos como bem entendesse. O que não se encaixa nesse cenário é o apoio incondicional a Israel em sua guerra de aniquilação em Gaza e na Cisjordânia, nem as ameaças de bombardear o Irã.

Por que há tão pouca resistência às políticas de Trump na democracia mais antiga do mundo?

À primeira vista, isso surpreende. Mas não à segunda. A Constituição americana tem quase dois séculos e meio e nunca foi adaptada às realidades de um Estado moderno e centralizado (até 1945, os EUA sequer possuíam um exército federal permanente). Por um tempo, o antigo sistema de freios e contrapesos se manteve, mas apenas enquanto o país manteve-se em uma situação razoavelmente boa. Na profunda crise social em que os EUA estão mergulhados há algum tempo, as lacunas e fraturas na estrutura constitucional estão se tornando visíveis, facilitando que uma figura inescrupulosa e ávida por poder como Trump – ele próprio um produto da crise – as explore brutalmente (com cinco juízes nomeados vitaliciamente para a Suprema Corte, praticamente tudo é possível), enquanto ilude seus eleitores, fazendo-os acreditar que a “miséria” da qual Carter falava na década de 1970 está finalmente sendo superada.

Trump representa um novo tipo de fascismo?

Para ser franco: não há praticamente nada de novo, exceto que a máscara caiu. E nem toda violência é “fascista”; não vamos desperdiçar o conceito. Os EUA sempre foram surpreendentemente propensos à violência, tanto interna quanto internacionalmente. Para eles, o período pós-guerra começou com Hiroshima e Nagasaki, depois Coreia, Vietnã (ninguém mais sabe por que milhões de pessoas foram dizimadas com napalm lá). Desde 1990, não houve um único dia em que os EUA não estivessem em guerra em algum lugar do mundo. Atualmente, mantêm aproximadamente 750 bases militares espalhadas pelo globo. É verdade que Trump liberou o potencial violento da sociedade americana internamente, incitando metade da população contra a outra metade. Mas o seu tipo de guerra civil está muito aquém das guerras contra a escravidão e os indígenas do século XIX, e ele também não é responsável pelo sistema prisional extraordinariamente vasto e cruel. Isso é obra de seus antecessores.

Quem, por exemplo?


Bem, em política externa, principalmente Bush e Cheney, que semearam o caos no Iraque, Afeganistão e Síria – países que não fizeram nada contra os EUA e jamais poderiam ter feito. Admito que a enorme quantidade de mortes infligidas graças à tecnologia avançada, com quase nenhuma perda do próprio lado, tem, fenomenologicamente falando, algo de fascista. Em 15 anos de guerra, aproximadamente três milhões de vietnamitas morreram, em comparação com 50 mil soldados americanos, número que, na década de 1960, correspondia ao de mortes em acidentes de trânsito nos EUA a cada ano.

Como os europeus devem se comportar em relação aos EUA e a Trump? Alguns falam da relativa força da UE como área econômica, enquanto outros enfatizam a desunião e a fragilidade.

Ambas as afirmações estão corretas. Os norte-americanos continuarão a adotar uma postura intransigente com os europeus por um bom tempo. Elon Musk e seus colegas oligarcas garantirão isso. Como conseguem fazer isso? O mais importante é que os europeus não podem declarar guerra, direta ou indireta, contra a Rússia sem se exporem às imposições dos EUA. E no que diz respeito à “unidade”, acredito que a Alemanha não poderá concordar para sempre com a política de sanções dos EUA contra a Rússia, e especialmente contra a China, por razões econômicas. Tampouco pode se comprometer com uma política báltica ou polonesa que acarrete o risco de ter que enviar tropas soldados para combater a Rússia sem possuir armas nucleares.

O chanceler Merz aposta em seu “bom relacionamento” com Trump e adota uma abordagem “amigável”. Será essa a estratégia correta?

Ninguém sabe. Mas o que Merz deveria fazer? Enviar a marinha alemã para a Baía de Chesapeake e exigir a extradição de Trump para o Tribunal Penal Internacional? Por outro lado, ele não pode se mostrar tão amistoso quanto María Corina Machado, já que não tem um Prêmio Nobel para oferecer. (Não que isso tenha servido a ela de algo.) Você se lembra de como [o chanceler alemão Helmut] Scholz se mostrou publicamente amistoso com Biden, mesmo quando este declarou à imprensa que os americanos sabiam muito bem como bloquar o gasoduto Nord Stream 2, caso os alemães não o fizessem? Para isso, Trump também não foi necessário.

Você acha que a Groenlândia deveria ser deixada sob o controle dos norte-americanos para evitar um grande conflito?

Você e eu não temos nenhuma capacidade de influir sobre esta questão e, portanto, não precisamos necessariamente ter uma opinião. Os americanos estão profundamente envolvidos na Groenlândia há muito tempo – desde a Segunda Guerra Mundial e, depois, permanentemente desde a Guerra Fria. Se você tivesse sobrevoado o norte da Groenlândia em um dia ensolarado antes de 1990, como tive a sorte de fazer, teria visto uma base militar norte-americana atrás da outra. Se quiser uma previsão: dada a russofobia da Dinamarca, presumo que, com o apoio de uma OTAN, ela concederá aos norte-americanos algo como soberania de fato, com pequenos ajustes cosméticos para manter as aparências.

Quão perigoso se tornará o conflito entre os EUA e a China?

Muito perigoso. Os EUA vêm discutindo a China há muito tempo, desde Obama, sob a perspectiva da chamada “armadilha de Tucídides”. Em resumo, o historiador grego, ele próprio um general muito admirado, explicou a derrota dos atenienses para os espartanos na Guerra do Peloponeso pelo fato de terem demorado demais, enquanto Esparta crescia e se fortalecia, em vez de atacarem logo – num momento em que poderiam tê-los derrotado facilmente.

O que isso significa?

Como você sabe, a estratégia militar oficial dos EUA visa impedir o surgimento de qualquer potência no mundo que possa rivalizar com eles. A discussão entre especialistas gira em torno de saber se o momento certo para atacar já passou ou não. Há alguns dias, Trump anunciou que o orçamento de defesa dos EUA aumentará 50%, chegando a 1,5 trilhão de dólares até 2027. Para quê, afinal?

Não há progressos nas negociações entre os EUA e a Rússia. Isso não indica que Putin não quer a paz?

Será possível considerar que os EUA, ou a UE também não querem a paz? Ao contrário de Ursula von der Leyen e de outros estrategistas, os norte-americanos não partem do pressuposto de que a Rússia pode ser derrotada. Mas para eles isso não importa; basta aos europeus manter a Rússia ocupada com uma guerra de desgaste por procuração “até o último ucraniano”. Um efeito colateral bem-vindo é que uma guerra prolongada torna impossível qualquer reaproximação entre a Alemanha e a Rússia – o que é o pesadelo tradicional, especialmente da política britânica em relação à Europa continental.

A guerra na Ucrânia foi iniciada pela Rússia, não pelos EUA, certo?

É uma longa história. Não se pode simplesmente planejar o lançamento de mísseis de alcance intermediário a 800 quilômetros da capital de uma potência nuclear rival sem que esta reaja. Mas concordo com você na medida em que a Rússia conseguiu modernizar seu armamento e se converter em uma economia de guerra durante os quatro anos de conflito, apesar de aparentemente ter sofrido pesadas baixas no campo de batalha. Agora, parece estar ganhando terreno a cada dia, contra uma coalizão europeia que jurou aos ucranianos, no início de 2022, que a guerra terminaria até o Natal, com uma derrota retumbante para a Rússia (von der Leyen chegou a anunciar que “nós” iríamos “desmantelar camada por camada” a sociedade industrial russa por meio das sanções milagrosas que ela concebeu).

O que isso significa?

A Rússia pode agora enxergar uma oportunidade de ir muito além das negociações de Minsk e Istambul, e efetivamente eliminar a Ucrânia como um Estado-nação viável num futuro próximo, ao mesmo tempo que humilha a União Europeia. Imagino que Putin acharia isso irresistível. Os “europeus” teriam, então, provocado essa situação.

Macron sugeriu a participação de Putin na cúpula do G7. Puro desespero ou uma boa ideia?

Uma das notórias autopromoções inconsequentes de Macron. Além disso, é espantoso como o bom senso parece tão exótico hoje em dia. Como se pode acabar com uma guerra que não se pode vencer no campo de batalha se se recusa a dialogar com o outro lado?

Estaremos vivendo o fim de um mundo que conhecemos, com sua ordem baseada em regras?

Não sei o quão familiar este mundo lhe era; para mim, tornou-se estranho desde pelo menos o bombardeio de Belgrado, se não antes. E, de qualquer forma, não era realmente “baseado em regras” – talvez com a exceção do regime comercial da OMC, que passou a existir cada vez mais apenas no papel desde a crise financeira de 2008. Proclamada após o chamado fim da história no início da década de 1990, a “ordem baseada em regras” foi administrada pelos EUA como polícia, tribunal e executor do mundo, tudo ao mesmo tempo — e somente por eles, a seu critério. Nunca aplicaram essa ordem a si mesmos: veja a invenção do “dever de proteger” na década de 1990, o estado de emergência permanente sob a “Guerra ao Terror”, que foi continuamente expandido após 2001, Israel e os territórios palestinos ocupados como uma zona experimental sem lei para o despovoamento não nuclear, a cruzada armada pela “democracia” contra o “autoritarismo”. Sob o pretexto de ‘ordem’: um estoque de justificativas para ‘sanções’ de todos os tipos, a serem impostas arbitrariamente pelo único poder punitivo que não pôde ser responsabilizado sequer por sua invenção mortal de ‘armas de destruição em massa’ iraquianas (com uma estimativa de 500 mil civis mortos).

E o que mudou sob o governo Trump?

Ao contrário de seus antecessores, Trump dispensa discursos polidos e eloquentes, repletos de um discurso legalista e persuasivo. Mas o núcleo violento de sua ideia de uma Pax Americana está longe de ser novidade. Aliás, em comparação com Bush II e Obama, a pretensão de Trump ao Prêmio Nobel da Paz não é totalmente absurda – pelo menos não ainda. Lembre-se de que Obama o recebeu de graça, um ano após o início de seu primeiro mandato. E até Kissinger o recebeu, no final.

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Terras raras: A estratégia que falta ao Brasil

Em torno de materiais do futuro, emerge disputa geopolítica. EUA tentam submeter Américas à Doutrina Donroe. China acena com pactos voltados ao Sul Global. Alheias a este cenário, políticas brasileiras ainda estão pautadas pela financeirização

Por Edna Aparecida da Silva1

Título original:
Entre a rivalidade hegemônica e a financeirização: os limites estruturais da política brasileira de terras raras

Desde 2018, no primeiro governo Trump, minerais críticos passaram a integrar explicitamente a agenda de competição tecnológica, industrial e estratégica entre Washington e Pequim. Ao longo de 2025 e início de 2026, essa rivalidade ganhou densidade institucional: controles de exportação, acordos internacionais, estoques estratégicos, triagem de investimentos e participação estatal direta passaram a operar de forma coordenada. A disputa bilateral transforma-se, assim, em arquitetura de blocos e zonas de alinhamento, nas quais acesso a mercado, financiamento e tecnologia tornam-se instrumentos de contenção ou exclusão da China em setores sensíveis à competitividade e à segurança nacional dos Estados Unidos.


É nesse contexto que, em 2 de fevereiro de 2026, o presidente Donald Trump convocou dezenas de países para uma reunião em Washington, marcada para 4 de fevereiro, com o objetivo declarado de reduzir a dependência global em relação à China no setor de minerais críticos. Foram convidados cerca de 20 países, entre integrantes do G7, delegações da União Europeia, Austrália, Reino Unido e Canadá, além do Brasil, que, com a segunda maior reserva mundial, passou a integrar explicitamente a estratégia norte-americana de reorganização das cadeias minerais. Embora nenhum integrante do governo brasileiro tenha confirmado comparecimento, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado viajou aos EUA especialmente para participar do evento. Foi a convite do secretário de Estado, Marco Rubio, num sinal de que a Casa Branca pode estar disposta a tratar diretamente com entes subnacionais do Brasil.

Mais do que uma aliança tradicional, a iniciativa indica a conformação de um bloco articulado sob liderança direta de Trump e marcado por assimetrias estruturais de poder. A estratégia combina coordenação diplomática, financiamento público e acesso preferencial ao mercado norte-americano com um repertório já demonstrado ao longo do governo — guerra tarifária, medidas unilaterais e pressões políticas dirigidas inclusive a aliados. Ainda que tais instrumentos não sejam formalmente acionados em cada negociação, sua existência molda o ambiente estratégico e reforça o poder de barganha dos Estados Unidos. O objetivo é restringir a participação chinesa nas cadeias globais de minerais estratégicos e garantir abastecimento seguro e previsível para setores considerados vitais à economia e à segurança nacional norte-americana.

No mesmo dia, em evento na Casa Branca, Trump anunciou o lançamento do Project Vault, uma reserva estratégica de minerais críticos estimada em cerca de US$ 12 bilhões. A iniciativa combina empréstimos públicos do U.S. Export-Import Bank com aportes privados e prevê a constituição de um estoque voltado tanto à base industrial de defesa quanto a setores civis estratégicos, como baterias, semicondutores e equipamentos aeroespaciais. O anúncio mobilizou grandes corporações industriais e provocou reação imediata nos mercados financeiros, sinalizando a incorporação explícita do setor privado a uma estratégia coordenada de segurança econômica.

Esses movimentos respondem ao endurecimento dos controles chineses de exportação ao longo de 2025 sobre elementos médios e pesados de terras raras, reforçando a centralidade do processamento mineral como instrumento de poder internacional. O que se observa não é uma disputa comercial episódica, mas uma reorganização estratégica das cadeias de suprimento em escala global.

Nesse tabuleiro, países detentores de reservas relevantes deixam de ser meros exportadores de commodities e passam a ocupar posição geopolítica sensível. O Brasil, que concentra uma das maiores reservas globais de terras raras, insere-se nesse cenário como território estratégico em potencial, tanto pela magnitude de seus recursos quanto por sua posição ambígua entre a presença econômica chinesa já consolidada e o crescente interesse norte-americano em reconfigurar cadeias fora da órbita de Pequim.

É nesse ambiente de competição aberta que, em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia anunciou o início da formulação de uma política nacional para terras raras. O Brasil passa a definir sua estratégia quando minerais críticos deixaram de ser apenas tema de política mineral e passaram a integrar disputas por influência, controle tecnológico e reorganização de esferas produtivas. A formulação doméstica ocorre sob pressão externa concreta: diplomacia mineral ativa, mapeamento de reservas, acordos de offtake envolvendo ativos localizados no país e articulações internacionais que buscam incorporar o Brasil a blocos rivais.

Este artigo sustenta que a política brasileira deve ser compreendida à luz dessa rivalidade estrutural. Enquanto Estados Unidos e China mobilizam instrumentos de coordenação estatal e reorganizam cadeias produtivas sob lógica estratégica de longo prazo, o Brasil corre o risco de responder a esse cenário com um arranjo predominantemente financeirizado e institucionalmente fragmentado. O impasse, portanto, não é apenas externo, derivado da rivalidade entre grandes potências, mas também doméstico, relacionado à capacidade do Estado brasileiro de enquadrar esses recursos sob uma estratégia própria de longo prazo.


2. Geopolítica das terras raras e rivalidade sino-americana

A rivalidade em torno das terras raras não se inicia com os anúncios de fevereiro de 2026. Desde 2018, no primeiro governo Trump, minerais críticos passaram a integrar explicitamente a agenda de competição tecnológica, industrial e estratégica entre Washington e Pequim. O que se observa ao longo de 2025, contudo, é uma inflexão qualitativa: a disputa deixa de operar predominantemente por medidas tarifárias ou restrições pontuais e passa a se estruturar por meio de regimes regulatórios consolidados, declarações multilaterais e articulação de blocos.

2.1 A estratégia chinesa: controle regulatório e diplomacia mineral

Em 4 de abril de 2025, o Ministério do Comércio da China (MOFCOM) e a Administração Geral das Alfândegas anunciaram controles de exportação imediatos sobre sete elementos médios e pesados de terras raras — samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio. O novo regime passou a exigir licenciamento prévio com base na Lei de Controle de Exportações e incluiu requisitos de identificação detalhada do uso final, além de cláusulas que ampliam o alcance regulatório sobre reexportações por terceiros países.

O significado estratégico da medida vai além da imposição administrativa. Esses minerais são importantes para a transição energética, utilizados na indústria de alta tecnologia para a fabricação de componentes para veículos elétricos, turbinas eólicas, imâs permanentes e aplicações militares, como lentes de alta refração e mísseis teleguiados. Ao incidir sobre insumos críticos para magnetos de alto desempenho, Pequim reforçou seu domínio sobre o elo mais concentrado da cadeia global: o processamento e a separação, etapa na qual a China responde por mais de 80% da capacidade mundial.

A medida foi apresentada oficialmente como aperfeiçoamento técnico do sistema regulatório e instrumento legítimo de proteção da segurança nacional, aliás, como também ocorre nos EUA. No entanto, sua adoção evidenciou que o controle do processamento, e não apenas das reservas, constitui o núcleo do poder estrutural.

Essa posição foi complementada, no segundo semestre de 2025, por uma iniciativa diplomática de maior alcance. Durante a cúpula do G20 em Johanesburgo, o primeiro-ministro Li Qiang anunciou a criação da Green Minerals Global Economic and Trade Cooperation Initiative, reunindo 19 países, entre eles Camboja, Nigéria, Myanmar e Zimbábue, além da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO).

Em seu discurso, Li afirmou ser necessário “promover a cooperação mutuamente benéfica e o uso pacífico das principais indústrias minerais”, bem como “otimizar a distribuição de benefícios ao longo das cadeias industriais e de suprimento, protegendo melhor os interesses dos países em desenvolvimento”. Acrescentou ainda que seria preciso “lidar cuidadosamente com o uso militar dos minerais para prevenir riscos à segurança”.

A formulação é reveladora. Ao mesmo tempo em que mantém instrumentos rigorosos de controle de exportação, Pequim apresenta sua política como voltada à estabilidade, ao multilateralismo e à proteção dos países em desenvolvimento. A combinação de controle regulatório doméstico com diplomacia mineral internacional sinaliza a tentativa de estruturar uma esfera de cooperação alternativa à reorganização liderada pelos Estados Unidos.

2.2 A resposta norte-americana: coordenação entre aliados e reorganização institucional

A reação norte-americana não surge do zero. Ela se apoia em instrumentos acumulados desde 2018, como o uso ampliado do Defense Production Act, o fortalecimento do screening de investimentos e a redefinição de minerais críticos como questão de segurança nacional. O que muda em 2025 é a coordenação explícita desses instrumentos em uma arquitetura mais ampla.

Em outubro de 2025, Washington firmou com o Japão um marco bilateral voltado à diversificação de fontes e à redução do risco de concentração nas cadeias de minerais críticos e terras raras. O compromisso inclui cooperação em financiamento de projetos de mineração e processamento, aceleração de licenciamento e coordenação para fortalecimento de cadeias industriais associadas a magnetos, baterias e semicondutores.

No mesmo período, o acordo com a Austrália incorporou instrumentos financeiros mais robustos: garantias públicas, empréstimos, participação acionária, finalização de contratos de offtake e mecanismos de estabilização de preços. A utilização de contratos de offtake de longo prazo é particularmente relevante, pois oferece garantia de demanda e reduz o risco para investimentos em novas plantas de processamento fora da China. Ao discutir mecanismos de estabilização de preços — inclusive pisos mínimos — os dois países sinalizaram disposição de intervir diretamente na formação de mercado para viabilizar cadeias alternativas.

Memorandos com Malásia e Tailândia ampliaram essa rede. Além de cooperação regulatória e facilitação de investimentos, os textos preveem priorização de capital norte-americano e mecanismos de coordenação para proteger mercados domésticos contra práticas consideradas distorcivas ou não orientadas por mercado. A resposta norte-americana, portanto, não se limitou à diversificação geográfica: buscou construir uma malha regulatória e financeira alinhada a objetivos estratégicos comuns.

2.3 O Project Vault como salto institucional

A consolidação dessa trajetória ocorre em janeiro de 2026 com o anúncio do Project Vault. Diferentemente do tradicional National Defense Stockpile, voltado à base industrial de defesa, o novo mecanismo foi concebido para atender também setores civis estratégicos, como automotivo, aeroespacial e tecnológico.

O desenho institucional do Vault representa um salto qualitativo. A iniciativa combina financiamento público, por meio do Export-Import Bank, com capital privado e participação direta de grandes corporações industriais. O governo atua como coordenador da demanda, oferecendo previsibilidade de compras e reduzindo volatilidade de preços, enquanto tradings especializadas intermedeiam a aquisição das matérias-primas.

Mais do que a criação de um estoque físico, o Vault sinaliza a institucionalização de uma prática já observada em outros setores sob Trump 2.0: a conversão do financiamento público em instrumento de influência estrutural sobre cadeias produtivas consideradas estratégicas.

Além disso, a iniciativa reforça uma prática já visível no segundo mandato de Trump: a conversão de financiamento público em influência estrutural sobre cadeias produtivas por meio de participação acionária direta ou indireta em empresas consideradas estratégicas. Isso se verifica sob a administração de Donald Trump, nos casos de empresas de minerais críticos como USA Rare Earth (terras raras e cadeia mine-to-magnet), MP Materials (operadora da única mina de terras raras em operação no país), Lithium Americas (lítio) e Trilogy Metals (projetos minerais no Alasca).

O investimento deixa de operar apenas como variável econômica e passa a integrar o repertório de política industrial e poder executivo. Essa inflexão não se limita a instrumentos regulatórios, e tem se traduzido em parcerias federais diretas com empresas do setor privado,

2.4 Da disputa bilateral à formação de blocos

A convocação, em fevereiro de 2026, de uma reunião ministerial com dezenas de países, acompanhada da circulação de um draft framework para coordenação internacional, insere-se nessa trajetória de escalada institucional. O objetivo não é apenas diversificar fornecedores, mas estruturar uma arquitetura de cooperação capaz de integrar mineração, processamento, financiamento e precificação sob alinhamento estratégico explícito.

A sequência dos eventos revela um padrão cumulativo: controles de exportação chineses redefinem o processamento como instrumento de poder; Pequim articula uma iniciativa multilateral própria voltada ao Sul Global; Washington responde com acordos bilaterais, instrumentos financeiros e coordenação regulatória entre aliados; o Project Vault consolida a transição de medidas reativas para um mecanismo permanente de coordenação estatal.

A disputa deixa de ser predominantemente comercial e assume caráter estrutural. Minerais críticos passam a integrar arranjos nos quais política industrial, comércio, diplomacia e instrumentos financeiros operam de forma interdependente.

A sucessão de medidas adotadas ao longo de 2025 e início de 2026 não constitui um conjunto disperso de iniciativas, mas uma escalada organizada. Controles de exportação, acordos bilaterais, formação de blocos, mecanismos de precificação, estoques estratégicos e participação estatal deixam de operar isoladamente e passam a compor uma arquitetura geoeconômica integrada.

A tabela a seguir sintetiza essa dinâmica.

Quadro 1 – Rivalidade Sino-Americana nas Terras Raras (2025–2026)

DataAtorInstrumento / EventoAlcance EstratégicoEfeito Sistêmico
Abr 2025ChinaAmpliação dos controles de exportação sobre HREEsLicenciamento obrigatório; restrição a elementos pesadosIntroduz incerteza estrutural; poder regulatório sobre a cadeia global
Out 2025ChinaExtensão dos controles com cláusulas extraterritoriaisExige licença para reexportação por terceiros, segurança nacionalProjeta autoridade regulatória além do território chinês
Out 2025EUA–JapãoFramework de segurança de suprimentoDiversificação de fontes; coordenação de estoques e financiamentoInstitucionaliza resposta aliada à concentração chinesa
Out 2025EUA–AustráliaAcordo com garantias públicas, offtake e debate sobre pisos de preçoIntegra mineração, processamento e demanda garantidaConsolida cadeia alternativa sob coordenação estatal
Out 2025EUA–ChinaAcordo provisório com suspensão parcial de controlesTroca de concessões comerciaisMineral torna-se instrumento explícito de barganha diplomática
Nov 2025China (G20)Green Minerals Global Economic and Trade Cooperation InitiativeFormação de bloco com 19 países em desenvolvimento

Resposta diplomática estruturada ao arranjo liderado pelos EUA
Dez 2025EUAPax Silica DeclarationIntegra minerais críticos à estratégia tecnológica e industrialConsolida leitura estratégica das cadeias produtivas
Jan 2026EUAProclamação presidencial sobre minerais processadosSinaliza tarifas e medidas restritivas se acordos falharemConvergência entre comércio, segurança e política industrial
Jan 2026EUAProject Vault (≈ US$ 12 bilhões)Estoque estratégico com capital público-privado e coordenação estatalEstado atua como estabilizador de preços e garantidor de demanda
Fev 2026EUAReunião ministerial, draft framework multilateralCoordenação regulatória e comercial com dezenas de paísesTentativa de institucionalizar bloco mineral alternativo

Fonte: Elabora pela autora a partir de sites oficiais e imprensa.

O que emerge dessa cronologia não é uma disputa episódica, mas a consolidação de um novo regime de governança mineral. A China mobiliza seu domínio sobre o processamento como instrumento regulatório e diplomático; os Estados Unidos respondem com coordenação financeira, alianças formais, estoques estratégicos e intervenção estatal direta nas cadeias produtivas. As terras raras deixam de ser commodities e passam a operar como infraestrutura de poder.

A rivalidade materializa-se em arquitetura institucional concreta.

É nesse ambiente, marcado por controles extraterritoriais, blocos diplomáticos e coordenação estatal das cadeias produtivas, que países detentores de reservas estratégicas passam a formular suas próprias políticas minerais. Quando o Brasil anuncia sua Estratégia Nacional de Terras Raras, o terreno internacional já não é neutro: ele está estruturado por mecanismos de poder que condicionam as alternativas disponíveis.

A questão central deixa de ser apenas como explorar reservas e passa a envolver sob quais condições institucionais essas reservas serão integradas, e por quem, às cadeias globais organizadas pelas grandes potências.

3. Reconfiguração do hemisfério ocidental na estratégia mineral norte-americana

A consolidação de acordos bilaterais, estoques estratégicos e mecanismos de coordenação financeira, descrita na seção anterior, revela que a estratégia mineral dos Estados Unidos não se limita à Ásia-Pacífico nem ao plano doméstico. Ela incorpora uma dimensão territorial específica: a revalorização do hemisfério ocidental como espaço estratégico para a reorganização das cadeias de minerais críticos, anunciado por Trump como “Doutrina Donroe”.

Essa reorientação não significa que os Estados Unidos estejam restritos ao hemisfério ocidental, mas indica uma prioridade estratégica. Diante da concentração chinesa no processamento e refino de terras raras, reduzir vulnerabilidades passou a implicar não apenas diversificar fornecedores, mas assegurar acesso a reservas localizadas em países politicamente alinhados e integráveis às cadeias industriais norte-americanas. Nesse contexto, ativos minerais situados nas Américas deixam de ser apenas oportunidades comerciais e passam a compor o cálculo estratégico da segurança econômica dos Estados Unidos..

Os movimentos recentes confirmam essa inflexão. O interesse renovado na Groenlândia, território com reservas relevantes de terras raras e outros minerais estratégicos, insere-se na tentativa de assegurar acesso a recursos fora da órbita chinesa, ainda que situados em jurisdições aliadas. Paralelamente, iniciativas de mapeamento de reservas na América Latina, inclusive no Brasil, e a intensificação de interlocuções diplomáticas com governos subnacionais indicam que a região passou a integrar explicitamente o cálculo estratégico norte-americano.

Essa lógica articula-se com o uso ampliado de instrumentos institucionais já consolidados: triagem de investimentos, acordos de fornecimento de longo prazo, financiamento público direcionado e mecanismos de coordenação de demanda. O controle ou influência sobre ativos minerais no hemisfério ocidental deixa de ser concebido apenas como oportunidade econômica e passa a operar como variável de segurança nacional. Decisões sobre governança corporativa, contratos de offtake, estrutura acionária e destinação produtiva tornam-se, portanto, politicamente condicionadas.

Para países detentores de reservas significativas, como o Brasil, essa reinterpretação altera o ambiente estrutural de formulação de políticas públicas. A exploração de terras raras não ocorre mais em um mercado global indiferenciado, mas em cadeias organizadas por estratégias de poder que operam simultaneamente no plano regulatório, financeiro e diplomático. O hemisfério, nesse contexto, não é uma categoria retórica, mas um eixo concreto de reorganização das cadeias estratégicas sob liderança norte-americana.

Essa estratégia possui ainda dimensão extraterritorial. Ao estruturar instrumentos financeiros, estoques estratégicos e acordos de fornecimento vinculados a critérios de segurança econômica, os Estados Unidos condicionam indiretamente decisões regulatórias e empresariais em países detentores de reservas. O investimento deixa de ser decisão privada isolada e passa a integrar uma arquitetura de coordenação regional.

A magnitude das reservas brasileiras coloca o país numa posição central nesse arranjo. A disputa não envolve apenas o acesso físico às jazidas, mas o enquadramento institucional sob o qual esses recursos serão explorados: se integrados a cadeias industriais condicionadas por compromissos estratégicos externos ou se articulados a arranjos que preservem maior autonomia decisória.

Assim, o hemisfério ocidental emerge não como cenário periférico da rivalidade sino-americana, mas como um de seus eixos estruturantes. Iniciativas como o Project Vault, embora concebidas no plano doméstico, funcionam também como instrumentos de reorganização geoeconômica regional, na medida em que articulam financiamento público, coordenação de demanda e influência institucional sobre cadeias produtivas que transcendem as fronteiras norte-americanas.

4. Projeção da rivalidade sobre cadeias estratégicas e o caso brasileiro

A reconfiguração geopolítica descrita na seção anterior não se limita às grandes decisões estatais em Washington ou Pequim. Ela se projeta diretamente sobre cadeias produtivas, ativos localizados em terceiros países e decisões empresariais aparentemente privadas. A consolidação das terras raras como vetor de segurança nacional transforma projetos minerais específicos em peças de uma disputa estrutural por controle de processamento, governança e inserção em cadeias politicamente alinhadas.

O elemento decisivo dessa transformação é que o poder mineral deixa de residir exclusivamente na posse das reservas e passa a concentrar-se nas etapas críticas da cadeia, separação, refino, produção de ímãs e integração tecnológica. O endurecimento dos controles chineses demonstrou que o domínio do processamento pode ser mobilizado como instrumento de pressão geopolítica. A resposta norte-americana, por sua vez, evidencia que a reorganização das cadeias depende de coordenação estatal contínua, financiamento público, participação acionária minoritária, acordos de fornecimento condicionados, estoques estratégicos e triagem regulatória do investimento.

Esse movimento altera as condições sob as quais países detentores de reservas estruturam suas escolhas. Projetos minerais deixam de ser apenas oportunidades econômicas e passam a integrar arquiteturas de segurança econômica desenhadas por grandes potências.

É nesse ponto que o Brasil se insere de maneira particularmente sensível. Reportagens recentes indicam o interesse crescente dos Estados Unidos em minerais estratégicos brasileiros, terras raras, lítio, nióbio, acompanhado de iniciativas diplomáticas e técnicas voltadas ao mapeamento de reservas e à aproximação com governos subnacionais.

Ao mesmo tempo, empresas estrangeiras com projetos em território brasileiro têm estruturado suas estratégias em articulação direta com cadeias industriais alinhadas aos interesses norte-americanos. O caso da St. George Mining, com projetos em Minas Gerais, é ilustrativo. A empresa não apenas intensificou interlocução institucional em Washington como também negocia contratos de offtake de longo prazo com a REalloys, envolvendo parcela significativa da produção futura do Projeto Araxá. A associação com tecnologia proprietária para separação e refino sugere uma pré-alocação estratégica da produção brasileira a cadeias industriais externas antes mesmo da consolidação de uma política nacional estruturada.

Esse tipo de arranjo revela que decisões empresariais sobre ativos localizados no território brasileiro já estão sendo moldadas por estratégias geopolíticas definidas fora do país. A disputa não se restringe ao acesso físico às jazidas, mas envolve a governança dos ativos, a tecnologia empregada no processamento e a destinação da produção.

O Brasil, portanto, não ingressa nessa disputa a partir de um terreno neutro: projetos localizados em seu território já estão sendo incorporados a cadeias globais organizadas sob critérios estratégicos definidos por grandes potências.

5. A política brasileira de terras raras em contexto geopolítico

Se as cadeias minerais estratégicas estão sendo reorganizadas por meio de controles de exportação, estoques públicos, coordenação diplomática e participação estatal direta nas principais economias, a questão que se coloca para o Brasil é outra: quais instrumentos institucionais o país mobiliza para enquadrar seus próprios recursos estratégicos?

O anúncio, em 22 de janeiro de 2026, do início da formulação de uma Estratégia Nacional de Terras Raras pelo Ministério de Minas e Energia (MME) ocorre quando as reservas brasileiras já estão inseridas nessa disputa estrutural. O espaço decisório nacional, portanto, não precede a rivalidade, ele é moldado por ela.

O desafio brasileiro consiste em definir se suas reservas estratégicas serão incorporadas a cadeias globais organizadas sob a lógica de segurança nacional de outras potências ou se poderão ser mobilizadas como base para uma estratégia própria de inserção internacional. A questão central não é apenas aumentar a produção ou atrair investimento, mas estabelecer quem controla as etapas críticas de processamento, quem define a governança dos ativos e sob quais condições a produção será direcionada.

Embora o MME sinalize a intenção de superar o papel histórico de exportador primário, a política em construção desenvolve-se em um ambiente no qual as decisões sobre financiamento, tecnologia e governança já se encontram politicamente condicionados no plano internacional. A rivalidade estrutural entre Estados Unidos e China redefine parâmetros de negociação, incentivos e restrições disponíveis aos países detentores de reservas.

Essa tensão entre ambição estratégica interna e condicionantes externos sistêmicos constitui o pano de fundo analítico a partir do qual a política brasileira de terras raras precisa ser examinada. Não se trata apenas de avaliar instrumentos administrativos ou programas de fomento, mas de compreender se o arranjo institucional em formação é compatível com a magnitude das transformações geopolíticas em curso.

6. Financeirização e fluxos globais de capital

Global Investment Trends Monitor da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) indica que a recuperação do investimento direto estrangeiro permanece concentrada em economias desenvolvidas e centros financeiros. Parte relevante dos fluxos globais continua a transitar por estruturas intermediárias (conduit flows), sem conversão automática em investimento produtivo de longo prazo nos países em desenvolvimento.

Em contexto marcado por incerteza macroeconômica e fragmentação geopolítica, o capital internacional tem privilegiado ativos líquidos e retornos de curto prazo, reforçando a centralidade de critérios financeiros na alocação global de recursos.

Isso explica por que políticas públicas nos países ricos em recursos naturais tendem a se organizar em torno da atração de capital e da mitigação de riscos regulatórios. A financeirização, nesse sentido, não decorre da ausência do Estado, mas das condições estruturais sob as quais ele opera, em um sistema internacional caracterizado pela volatilidade dos fluxos de capital e por assimetrias persistentes de poder entre economias centrais e periféricas.

No caso dos minerais estratégicos, porém, essa lógica entra em tensão com a natureza singular dos recursos envolvidos. Diferentemente de ativos financeiros, as reservas minerais, como as terras raras, são territorialmente fixas e insubstituíveis no curto prazo. Diferentemente de ativos financeiros, jazidas não podem ser realocadas. Essa particularidade torna a definição das condições sob as quais esses recursos serão explorados e integrados às cadeias produtivas uma questão central de política estratégica..

Como argumenta Leda Maria Paulani, a partir da leitura de François Chesnais, o capitalismo opera sob um regime de acumulação no qual a valorização financeira assume primazia qualitativa sobre a valorização produtiva . A esfera financeira não substitui a produção, mas se alimenta dela, subordinando o trabalho, os recursos naturais e os territórios às exigências de rentabilidade do capital. A financeirização expressa, assim, uma forma específica de organização da ação econômica e estatal, na qual decisões produtivas passam a ser moldadas por imperativos externos à própria da produção.

7. Brasil: financeirização da política de terras raras

No Brasil, a política de terras raras tem sido estruturada predominantemente sob lógica financeirizada. A mobilização de capital e a redução de riscos para investidores privados orientam prioridades, instrumentos e critérios da ação estatal. O eixo central da intervenção pública concentra-se no crédito subsidiado, em instrumentos financeiros incentivados e na celeridade de procedimentos administrativos, em detrimento da dimensão estratégica.

PL nº 2780/2024, e outros projetos correlatos, reconhece formalmente esses minerais e estabelece procedimentos de tramitação prioritária e coordenação institucional, mas não integra de forma explícita dimensões como defesa nacional, controle de investimentos estrangeiros ou políticas de estoques estratégicos. Embora avancem no reconhecimento da relevância dos minerais críticos, permanecem inseridos na lógica tradicional da política mineral, tratando-os essencialmente como commodities. Diferentemente dos arranjos observados em muitos países, como mostra os dados da UNCTAD, não há no Brasil mecanismos formais de avaliação estratégica de investimentos em minerais considerados sensíveis.

Nos instrumentos de financiamento público, observa-se padrão semelhante. Enquanto em economias centrais o financiamento estatal opera como mecanismo de coordenação estratégica, no Brasil ele funciona, sobretudo, como mitigador de risco financeiro. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) concentram-se na viabilização econômica dos projetos, ocupam posição central na viabilização dos projetos, oferecendo crédito, subvenções e apoio à inovação com foco na redução de incertezas e na atração de capital privado.

Elementos de política industrial estão presentes, priorizando empresas brasileiras inseridas nas cadeias da transição energética e da descarbonização, bem como iniciativas de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e produção de materiais transformados, incluindo terras raras, lítio, grafite, cobre e silício. Ainda assim, essas dimensões permanecem subordinadas ao critério dominante de viabilidade econômico-financeira e pouco articuladas a mecanismos de coordenação estratégica de longo prazo.

A estreia da Atlas Critical Minerals na bolsa de valores dos Estados Unidos ilustra como empreendimentos minerais vêm sendo estruturados desde sua origem para acessar mercados globais de capitais, com valorização acionária, captação de recursos e proteção ao investidor assumindo papel central no desenho dos projetos.

Mais do que um episódio isolado, esse movimento revela a financeirização como princípio organizador da política mineral: recursos territoriais e projetos extrativos são convertidos em ativos financeiros negociáveis, enquanto o papel do Estado concentra-se em viabilizar, no plano jurídico e regulatório, essa inserção nos mercados de capitais. Nesse arranjo, a atração de investidores e a maximização do valor financeiro podem preceder, e até mesmo condicionar, decisões sobre controle da cadeia produtiva e a apropriação dos recursos no território nacional.

O risco central, portanto, não é a ausência de política pública, mas a consolidação de uma política orientada por critérios financeiros que tende a reproduzir padrões históricos de inserção subordinada num ambiente internacional no qual os minerais críticos passaram a operar como instrumentos de poder estatal.

Conclusão — Da rivalidade China–EUA ao dilema estratégico brasileiro

A disputa contemporânea por terras raras consolidou a transformação dos minerais críticos em instrumentos centrais de poder estatal. Ao ampliar controles de exportação e mobilizar o domínio do processamento como instrumento regulatório, a China demonstrou que o núcleo do poder estrutural não reside apenas nas reservas, mas no controle das etapas críticas da cadeia.

A resposta norte-americana confirma o argumento desenvolvido em nossos trabalhos anteriores: a rivalidade com a China não se sustenta apenas em medidas unilaterais, sanções ou protecionismo doméstico, mas envolve um processo mais profundo de convergência regulatória e coordenação estratégica sob liderança norte-americana, com alcance extraterritorial. Tarifas, ameaças, pressões políticas e sanções não operam exclusivamente contra Pequim; elas também moldam o comportamento de parceiros e aliados, condicionando decisões de investimento, acesso a mercado e desenho regulatório. Isso, contudo, como vimos no caso da Venezuela, assim como nas ameaças à Groenlândia, não exclui o uso da força.

No setor mineral, essa lógica materializa-se por meio de acordos bilaterais assimétricos, articulação diplomática seletiva, mecanismos de precificação, estoques estratégicos como o Project Vault e participação financeira direta do Estado em cadeias consideradas sensíveis. A contenção ou exclusão da China depende menos de iniciativas isoladas e mais da construção de uma arquitetura transnacional politicamente alinhada aos interesses dos Estados Unidos, sustentada tanto por instrumentos regulatórios quanto pela mobilização estratégica do capital privado.

Nesse processo, o hemisfério ocidental adquiriu relevância renovada. O interesse norte-americano na Groenlândia, a intensificação da coordenação com aliados e o mapeamento ativo de reservas na América Latina indicam que ativos localizados no continente passaram a ser concebidos como componentes da segurança econômica norte-americana. A disputa deixa de ser meramente bilateral e passa a estruturar zonas de alinhamento regulatório, tecnológico e financeiro.

É nesse ambiente — marcado por extraterritorialidade regulatória, coordenação estratégica hierarquizada e politização das cadeias produtivas — que o Brasil anuncia sua Estratégia Nacional de Terras Raras. O país formula sua política quando as regras do jogo já estão sendo redefinidas por blocos e instrumentos de segurança econômica, e quando projetos situados em seu território começam a ser integrados a arranjos internacionais condicionados por interesses externos.

O impasse brasileiro decorre da assimetria entre esse ambiente internacional e a resposta doméstica. Enquanto grandes potências mobilizam instrumentos capazes de alinhar investimento, tecnologia e governança a objetivos geopolíticos de longo prazo, a política brasileira permanece predominantemente estruturada sob lógica financeira. A atração de capital e a mitigação de riscos seguem como eixos centrais, enquanto mecanismos de controle da cadeia produtiva, processamento doméstico e coordenação estratégica permanecem incipientes.

Transformar recursos minerais em poder estratégico exige mais do que financiamento ou prioridade administrativa formal. Exige capacidade estatal de subordinar fluxos de capital, tecnologia e governança a objetivos nacionais de longo prazo. Na rivalidade hegemônica em curso, terras raras não são apenas ativos econômicos — são infraestruturas de poder.

O dilema brasileiro, portanto, não se limita a escolhas regulatórias pontuais. Ele envolve a definição do lugar do país em uma economia política internacional já reorganizada por blocos, instrumentos extraterritoriais e convergência regulatória assimétrica. Permanecer como fornecedor financeiramente atrativo ou construir instrumentos institucionais capazes de disputar as etapas críticas da cadeia são caminhos estratégicos distintos — e dificilmente conciliáveis no longo prazo. A política de terras raras torna-se, assim, um teste mais amplo da capacidade do Estado brasileiro de transformar posição geológica em estratégia de poder.

1 Edna Aparecida da Silva é doutora em Ciência Política pela Unicamp, pesquisadora associada do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), assim como no projeto “Dinâmica Competitiva e Interações Estratégicas: os impactos da competição tecnológica entre EUA-China sobre o Brasil” (CNPq/INEU/UFPB). Também participa do grupo de pesquisa: GT da Clacso “‘Lex Mercatoria, Poder Corporativo y Derechos Humanos”. Estuda investimento e segurança, investment screening e a atuação doméstica e internacional do CFIUS na dinâmica de competição com a China. É autora dos capítulos: “CFIUS tailored to the US-China strategic rivalry: investment screening and regulatory convergence in the shadow of the liberal international order”, no livro China’s Globalisation and the New World Order (Palgrave MacMillan, 2025), organizado pelos professores Najimdeen Bakare e Adam Saud; e “As sanções econômicas no contexto da guerra hegemônica: o papel das sanções financeiras na estratégia da diplomacia econômica dos Estados Unidos”, em coautoria com Jaime César Coelho (UFSC/INCT-INEU), no livro A volta de Trump: choque político e relações internacionais, organizado por Sebastião Carlos Velasco e Cruz e Neusa Bojikian (Editora Unesp, 2025)

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A encruzilhada dos Correios

Uma empresa pública brasileira definha. Setor privado quer abocanhá-la. Governo reage com timidez, amedrontado pelo “ajuste fiscal”. O que produziu a crise? O que o país perderá, se o pior ocorrer? Quais as alternativas, e o que falta para agir?

Fundados há 230 anos, décadas antes da Independência, os Correios públicos do Brasil são parte da história do país – e dos esforços para sua modernização. Em 1843, lançaram o “Olho do Boi”, segundo selo postal do mundo. Nove anos depois, quanto ainda não havia censo demográfico e a população estimada de todo o território era semelhante à da atual região metropolitana de Belo Horizonte, incorporaram a comunicação por telégrafo – o sistema de comunicação mais rápido, à época. Em 1982, quando a ditadura pós-1964 agonizava, a entrega de cartas era feita, em qualquer parte, em menos de 48 horas – um prazo muito inferior ao de países como os Estados Unidos. Os Correios são, em 2026, o único meio de acesso a cartas e encomendas, nos pontos do país em que as entregas privadas não são lucrativas. Encarregam-se do transporte das urnas eletrônicos e de todo o material didático que chega onde não há livrarias comerciais.

Porém, estão em crise. Perderam 50 mil trabalhadores, desde o golpe contra Dilma – e podem ser privados de mais 15 mil, num programa de demissões voluntárias montado sob Lula 3. Preveem fechar mil agências e cortar direitos trabalhistas. O Tesouro não os socorre (ajuste fiscal!), embora tenham transferido, por longos anos, bilhões em lucros à União. Para tentar sobreviver, negociam um empréstimo de emergência com bancos públicos e privados – pelo qual pagarão juros extorsivos. À falta de aporte do Tesouro, recorrem ao Banco dos BRICS, até o momento sem sucesso. Enquanto não vêm os recursos, atrasam encomendas, com enorme prejuízo aos usuários e à imagem da empresa. A mídia não esconde seus ímpetos – privatização! O governo Lula a rejeita – mas não propõe saída, porque está atado ao projeto do ministério da Fazenda, que amarra seus braços.

O que se passa? Quais as saídas? O jornalista Glauco Faria, de Outras Palavras, investigou a fundo a crise. Deteve-se, em especial, em dois aspectos. Primeiro:  o caráter não-mercantil dos Correios, algo estudado de forma pioneira pelo grande geógrafo Milton Santos. Segundo: as saídas efetivas que há hoje para um serviço público de Correios, em meio às mudanças tecnológicas e de hábitos urbanos – que incluem, por exemplo, a multiplicação das compras eletrônicas. Eis seu relato. (A.M.)


Milton Santos e o conceito de “Fixo Social”

Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), Igor Venceslau invoca, em seu livro Correios, logística e usos do território brasileiro, um conceito usado pelo geógrafo Milton Santos para propor um modelo cívico do território, substituindo a lógica econômica pela garantia de acesso universal aos serviços essenciais. Nessa concepção, o Estado deve criar infraestruturas públicas cuja distribuição não obedece à rentabilidade, mas sim às necessidades da população. Diferentemente dos “fixos privados”, controlados pelo mercado e concentrados onde há maior lucratividade, os “fixos públicos” seguem uma política redistributiva para assegurar direitos básicos em qualquer localidade. Segundo o grande geógrafo, essa mudança no uso do território é fundamental para consolidar uma cidadania plena, transformando a logística em ferramenta de inclusão social e não apenas de acumulação capitalista.

Venceslau destaca que os Correios brasileiros materializam essa proposta, ao instalar agências em todas as cidades do país e criar pontos de atendimento em vilas e áreas rurais, mesmo quando essas unidades operam com prejuízo. Ao garantir entrega domiciliar desde as metrópoles até comunidades ribeirinhas da Amazônia, a empresa pública assegura um serviço postal universal que funciona como fixo social. Isso revela um planejamento voltado para suprir necessidades da população marginalizada pelo mercado, aproximando os Correios de um serviço voltado a todos os lugares e não apenas aos rentáveis do ponto de vista econômico, como ocorre sob a ótica empresarial, que drena recursos territoriais para os grandes centros.

Venceslau lembra do histórico da empresa pública como fixo social. “Os Correios já foram local de pagamento de benefícios sociais, como o Vale-gás. Foram a principal rede logística do Fome Zero, no início dos anos 2000, além de serviços ligados à cidadania, como alistamento militar, supletivo de ensino médio e inclusão bancária”, destaca. Também lembra que, em um passado não muito distante, era em suas agências que eram feitas inscrições para concursos públicos, emissão de CPF e a prestação de serviços que hoje migraram para o ambiente digital. “Durante quase duas décadas, o Banco Postal, por exemplo, promoveu inclusão financeira em municípios onde bancos privados não tinham interesse em se instalar. Pagamento de aposentadorias e serviços bancários básicos eram realizados pela empresa.”

Os tempos mudaram, mas o papel de garantia dos “fixos sociais” se mantém, lembra Venceslau. “A entrega de produtos físicos continua sendo uma função estratégica, tanto nas grandes cidades quanto, sobretudo, no interior e em municípios pequenos. Um exemplo central é a distribuição anual de livros do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), uma operação logística gigantesca que ocorre no início dos anos e se renova periodicamente”. Mesmo nos anos em que não há troca completa do material, há reposição contínua. “Isso encarece muito para cidades que eventualmente fiquem sem agências, quando não inviabiliza totalmente o serviço. O mesmo vale para a entrega de vacinas, algo que a pandemia deixou muito claro. Ter uma empresa pública de logística é crucial em situações de calamidade, seja para a distribuição de donativos, seja para vacinas do calendário regular ou emergencial.”

Outro ponto sensível, lembra o pesquisador, é a segurança do processo eleitoral. “As urnas eletrônicas são majoritariamente entregues de forma sigilosa pelos Correios. Trata-se de uma operação que dificilmente poderia ser realizada por uma empresa privada, devido às exigências de sigilo, auditoria e segurança”, pontua. O mesmo ocorre em relação a avaliações nacionais. “Provas como o Enem, o Enade e concursos públicos continuam sendo físicas. Circulam em malotes lacrados e só são abertas no momento do exame. Mesmo com uma empresa pública, existem desafios. Imagine se não houvesse uma empresa dessa magnitude”, questiona.

Sucateamento e tentativa de privatização

Num país continental, os Correios executaram todas estas tarefas ao longo de décadas. Mantiveram um corpo de trabalhadores estável, relativamente bem remunerado e capaz de defender seus direitos. Não apresentaram déficit. Após o golpe de 2016, porém, o cenário alterou-se.

“Até 2016, nós tínhamos uma certa estabilidade entre os trabalhadores dos Correios e mais tranquilidade em relação às questões estruturais da empresa. Havia lucratividade, investimentos e um plano de modernização chamado Correios 2020. Esse projeto foi interrompido após a deposição de Dilma Rousseff”, conta o diretor do Sintect-SP (Sindicato dos Trabalhadores dos Correios de São Paulo) Douglas Melo, também secretário de Comunicação da Federação Interestadual dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos Correios (Findect). “Com a entrada do governo Michel Temer, mudou a presidência da empresa, vieram as reformas trabalhista e previdenciária, o congelamento dos investimentos público. A partir daí, os Correios entraram num processo profundo de precarização.”

Em 2017, o então ministro das Comunicações, Gilberto Kassab, e o presidente da companhia, Guilherme Campos, chegaram a declarar publicamente que estudavam a hipótese de privatização. A intenção não se concretizou, mas colocou-se em marcha um processo de encolhimento da empresa. “Houve redução de investimentos e um corte brutal no quadro de funcionários. No governo Dilma, chegamos a ter cerca de 127 mil trabalhadores. Hoje, somos algo em torno de 77 ou 78 mil em todo o país, quase 50 mil a menos. Se compararmos com o serviço postal dos Estados Unidos, que é público, lá são cerca de 600 mil funcionários. Aqui não chegamos a 100 mil. Essa discrepância é enorme”, pontua Melo.


A crise se agravou no governo do sucessor de Michel Temer, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “Mesmo com a empresa tendo lucro — especialmente durante a pandemia, quando as empresas privadas pararam e quem continuou trabalhando foram os trabalhadores dos Correios —, houve um ataque frontal aos direitos. Em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro, foram retiradas mais de 50 cláusulas do acordo coletivo. Em plena pandemia, fomos obrigados a renegociar direitos em condições completamente desfavoráveis, com gente morrendo e trabalhadores adoecendo”, lembra Douglas Melo.

Em 2020, primeiro ano da pandemia de covid-19, o lucro líquido da empresa foi de R$ 1,53 bilhão. Havia estrutura para suportar o aumento das encomendas por comércio eletrônico, que cresceram e continuaram a aumentar nos anos seguintes. Mas, precisamente no momento em que os Correios eram mais necessários, o governo de Jair Bolsonaro colocou a companhia no Programa Nacional de Desestatização (PND). Em abril de 2021, enviou à Câmara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) 591/2021, que definia um novo Marco Regulatório para o setor. Abria caminho para a privatização. Pior: autorizava que os serviços postais fossem explorados pela iniciativa privada, inclusive os prestados até então em regime de monopólio.

A tarefa da União nesse desenho seria a de garantir a prestação do serviço postal universal, por meio de concessão. Organizar e regular o Sistema Nacional de serviços Postais (SNSP) ficaria a cargo da Anatel, renomeada Agência Nacional de Telecomunicações e Serviços Postais. O substitutivo do projeto, relatado pelo deputado Gil Cutrin (Republicanos-MA) chegou a ser aprovado na Câmara em agosto de 2021, após o presidente Arthur Lira (PP-AL) ter colocado a proposta em regime de urgência. Mas a tramitação parou no Senado, travando ao entrar ano eleitoral de 2022. “Mesmo assim, houve um desinvestimento brutal: mais de mil agências fechadas, redução do quadro via planos de demissão voluntária e total precarização das unidades”, ressalta Melo.

O governo argumentava algo sem base alguma nos fatos. A mudança no marco legal dos serviços postais seria necessária porque os Correios não teriam condições financeiras de melhorar a qualidade dos serviços prestados à população e manter-se competitivos. Na justificativa enviada à Câmara, o Planalto dizia que “os esforços empreendidos não têm sido suficientes para que a empresa se atualize na velocidade requerida”. É inegável que mudanças tecnológicas alteraram o cotidiano das pessoas e o próprio funcionamento da empresa, mas isso não aconteceu apenas no Brasil. Como o resto do mundo se adaptou a esse novo cenário?

Por que os grandes países mantêm serviços postais públicos

À época da proposta de privatização dos Correios, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) elaborou uma nota técnica sobre a intenção do governo, analisando os possíveis impactos e comparando experiências internacionais. Os chamados mercados flexíveis, operados por empresas privadas, eram de fato a regra em outros países? E seriam mais eficientes?

O estudo adotou uma seleção baseada em quatro critérios: os maiores países em população, território e Produto Interno Bruto (PIB). Cruzou com as primeiras posições no ranking dos melhores serviços postais, elaborado pela União Postal Universal (UPU). Em todos os dez países mais populosos — China, Índia, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão, Brasil, Nigéria, Bangladesh, Rússia e México —, os serviços postais universais são prestados por algum ente público, o mesmo ocorrendo quando se considera o tamanho dos territórios.

Mesmo quando se considera o critério do PIB, entre os dez maiores países apenas Alemanha e Reino Unido contam com empresas privadas operando os serviços postais básicos. Privadas em parte, aliás. O grupo econômico germânico Deutsche Post DHL Group tem como maior acionista o banco de desenvolvimento estatal KfW.

Segundo a UPU, que publica anualmente um ranking do nível de desenvolvimento dos serviços postais de 170 países, os dez melhores serviços postais do mundo, em 2020, estavam localizados, pela ordem, na Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda, Japão, França, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Singapura. O Brasil foi classificado no grupo intermediário superior, com bom desempenho.

“É importante observar que, em sete dos dez países com os melhores serviços postais do mundo, é o setor público que os opera diretamente. Nas duas primeiras posições estão Suíça e Áustria, onde os serviços postais são operados por empresas controladas pelo Estado — na primeira, por uma empresa pública; na segunda, por uma sociedade de economia mista. Vale dizer que a Suíça vem ocupando essa primeira posição há vários anos”, observa a nota técnica.

A comparação traz ainda outro dado relevante. “Em vários países, as operadoras dos serviços postais universais não recebem subsídios estatais. Contudo, em outros tantos, nos quais as empresas ou agências são controladas pelo Estado, há transferência de recursos orçamentários ou de fundos setoriais criados com essa finalidade, garantindo a prestação universal e a preços acessíveis dos serviços postais básicos”, aponta o Dieese.

O documento menciona ainda o caso da United States Postal Service (USPS), naquilo que costuma ser apontado como a pátria do liberalismo econômico. “A USPS é a principal operadora dos serviços postais nos Estados Unidos. Ao contrário da maioria de suas congêneres, sequer está organizada como uma empresa. Trata-se de uma agência governamental federal, que detém o monopólio dos serviços postais básicos e é uma das maiores empregadoras do país, contando com uma força de trabalho de 643,6 mil pessoas, sendo 495,9 mil empregados próprios. Além disso, a agência, que possui receitas próprias, pode receber recursos de um fundo específico (Postal Service Fund) para o pagamento de despesas correntes e de capital”, destaca a nota.

Crise global do setor e o falso argumento da ineficiência estatal

As dificuldades enfrentadas pelos serviços postais no mundo são de conhecimento público. Um relatório da UPU, que faz o balanço do ano de 2025 no setor, aponta uma “lacuna de desempenho”. A receita postal tem crescido 71% menos que as economias. Embora o comércio eletrônico tenha impulsionado o volume, parte da atividade tradicional (a remessa paga de cartas e telegramas, por exemplo) entrou em declínio, forçando as empresas a diversificar seus serviços, com investimentos em serviços digitais, produtos financeiros e logística.

O estudo indica que mais de 93% dos operadores postais oferecem atualmente serviços digitais, incluindo logística para o comércio eletrônico, identidades digitais e pagamentos eletrônicos. Isso abre novas oportunidades para os Correios, que já trilharam esse caminho no Brasil, como lembra Igor Venceslau. “A modernização é um ponto central. Nos anos 2000, o E-Sedex era um serviço estratégico e lucrativo para o e-commerce, com tarifas diferenciadas e facilidades logísticas. Esse serviço foi extinto no governo Temer, não voltou no governo Bolsonaro e, no governo atual, a discussão parou. Hoje, uma empresa de comércio eletrônico usa o Sedex convencional, sem o diferencial que já teve. É um exemplo de serviço relevante extinto por uma conjuntura desfavorável”, ressalta. “Não basta injetar bilhões; é preciso decidir o que fazer com esse recurso. Nas metrópoles, os Correios deveriam oferecer serviços mais avançados.”

A referência do geógrafo dá uma boa medida de como serviços importantes e que garantiam rentabilidade aos Correios foram descontinuados em nome de uma alegada reestruturação. O E-Sedex era uma modalidade de encomenda expressa voltada exclusivamente para produtos adquiridos por meio da internet. Era vantajosa para os lojistas virtuais, já que o custo era menor que o do Sedex convencional, com a mesma qualidade e rapidez e, também, para os franqueados da empresa. Segundo a Associação Brasileira de Franquias Postais (Abrapost), o serviço representava cerca de 30% do faturamento mensal, em média, de uma unidade franqueada dos Correios à época de sua extinção, em 2017.

Contudo, para manter o serviço universalizado e com tarifas padronizadas, independentemente do custo real da operação em cada localidade, o subsídio cruzado é necessário. Nesse modelo, as receitas obtidas por meio de serviços mais rentáveis — como encomendas expressas, logística para grandes empresas e serviços corporativos — são utilizadas para compensar os custos de operações deficitárias, sobretudo a entrega de cartas e correspondências em regiões remotas, pouco povoadas ou de difícil acesso. “As empresas públicas brasileiras, como Petrobras e Banco do Brasil, ajudam o governo em anos de superávit, mas esse lucro vai para o Tesouro e a sociedade não vê. Quando há déficit, surge o escândalo. Falta transparência: os Correios tiveram quase 20 anos de lucro ininterrupto entre o fim da década de 90 e o período do impeachment de Dilma. No Brasil, a mídia corporativa, além de não contar esta história, faz terrorismo com os supostos ‘prejuízos’ dos Correios. Esse montante financiou outras atividades do governo. Hoje, dos 5.570 municípios brasileiros, cerca de 5 mil agências não se sustentam sozinhas. No entanto, as outras 500 são tão superavitárias que garantem a viabilidade de todo o negócio. É uma contabilidade nacional necessária”, pondera Igor Venceslau.

Douglas Melo vai na mesma direção. “Historicamente, os Correios sempre repassaram dividendos ao governo federal. Entre 2011 e 2016, a empresa transferiu R$ 5 bilhões acima do habitual. Anualmente, 25% do lucro ia para a União, e nunca recebemos aportes financeiros diretos do Tesouro. No ano passado, o que houve foi um empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia da União, mas não um aporte”, destaca. “Sempre enviamos recursos para outras áreas e nunca recebemos verba federal para modernização. A empresa precisa se modernizar, mas passa por um processo complexo.”

Mais do que a conta feita em planilhas, a lógica econômica dos Correios não pode ser entendida a partir de unidades isoladas, e sim a partir da própria desigualdade — também espacial — do país. “O modelo do território brasileiro é esse: poucas metrópoles, como São Paulo, concentram quase toda a postagem porque as grandes empresas estão ali. Quase tudo é postado em meia dúzia de cidades e o resto é como se fossem apenas consumidoras. A conta só fecha se for nacional; não dá para dizer ‘essa agência não dá lucro, fecha’, porque aí você acaba com o modelo do negócio”, aponta Douglas. Em resumo, quem posta em São Paulo, por exemplo, só o faz porque existe uma ponta para entregar em Boa Vista. É uma operação em rede que mostra por que a conta baseada apenas em unidades separadas não faz sentido sequer do ponto de vista econômico.

Esse caráter em rede do sistema postal ajuda a explicar, inclusive, as dificuldades enfrentadas por empresas privadas no mercado brasileiro. E como este é um ativo precioso para a empresa e para o próprio Estado. “É por isso que a FedEx se retirou [do Brasil]. Um dos argumentos é que o mercado interno não é tão competitivo para eles quanto o internacional. Eles mantêm as remessas dos Estados Unidos para o aeroporto de Viracopos e, internamente, utilizam outras transportadoras — às vezes os próprios Correios — para chegar ao destino final”, explica Venceslau.

E as alternativas, onde estão?

Para Douglas Melo, uma possível saída seria adotar um modelo que já vigora em outros países, em especial no continente europeu. “Uma alternativa para o setor seria a criação de um fundo de financiamento, nos moldes do que ocorre na Europa, onde empresas do setor contribuem para custear o serviço postal em áreas deficitárias”. Polônia e Espanha são exemplos centrais desse modelo, criado para cobrir o chamado “custo líquido” assumido pelas operadoras nacionais ao realizar entregas em áreas remotas ou pouco povoadas. A Poczta Polska, administração postal estatal e maior operadora de correios polonesa, é compensada por um fundo financiado por contribuições de outras operadoras privadas. A Espanha instituiu, em sua Lei Postal de 2011, um mecanismo específico para assegurar financiamento estável e de longo prazo ao sistema postal.

Já a Itália recorre a subsídios diretos de compensação por serviço público à Poste Italiane. As diretivas da União Europeia permitem a criação de mecanismos de compensação como forma de equilibrar a concorrência de mercado com a chamada obrigação de serviço universal,evitando que empresas privadas se concentrem apenas em rotas lucrativas e assegurando a continuidade do serviço postal em todo o território. “Atualmente, gigantes do e-commerce evitam entregar em regiões periféricas ou cidades remotas por falta de lucratividade, repassando essa demanda aos Correios. Para que esse modelo de contribuição funcione no Brasil, é necessária uma regulação rigorosa, já que muitas empresas operam hoje sem contrapartidas trabalhistas ou territoriais, escolhendo apenas os mercados mais rentáveis”, defende Melo.

Analisar a importância da questão estrutural, a função social que a empresa tem e o que ela pode desempenhar não significa ignorar seus problemas internos que não se relacionam diretamente às mudanças no setor postal. Uma delas é a grande desigualdade salarial dentro dos Correios, segundo o dirigente sindical. “A alta cúpula da empresa recebe, em média, quase R$ 60 mil de remuneração. Cerca de 65% da folha de pagamento vão para funções gerenciais, enquanto apenas 35% são destinados aos salários de base, de quem executa o trabalho”, explica. Ele ressalta ainda que um plano efetivo de recuperação deve ir além da questão financeira e que os trabalhadores precisam participar de sua elaboração. “Desde 2023, os sindicatos tentam uma reunião com o presidente Lula para discutir um projeto de recuperação dos Correios, mas isso ainda não aconteceu.”

Ainda que o governo Lula 3 tenha retirado a empresa do Plano Nacional de Desestatização e assegurado o retorno de alguns direitos suprimidos durante o governo Bolsonaro, os trabalhadores seguem reivindicando maior participação nas discussões sobre os rumos dos Correios. Assim como a empresa dispõe de inúmeras possibilidades diante das transformações no cenário dos serviços postais, o Estado brasileiro também pode integrar de forma mais estratégica sua estrutura logística e sua capilaridade territorial a outras políticas públicas, garantindo a manutenção e a expansão de direitos sociais.

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