POLITICA

 


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O cálculo de Caiado e Kassab

Aparente fragmentação da direita revela algo a mais. Centrão aposta em reorganizar a direita e se libertar dos Bolsonaro, pensando em 2030. No curto prazo, busca ampliar bancada, projetar candidato próprio e testar sua força – para negociar, com Lula ou Flávio, o segundo turno

No final de janeiro, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou sua saída do União Brasil e, em seguida, sua filiação ao PSD. A justificativa foi o fato de sua hoje ex-legenda, dentro da recém-formada e ainda não oficializada federação União Progressista, inviabilizar sua possível candidatura à Presidência da República.

A principal resistência viria do novo partido parceiro do União Brasil, o PP. O presidente nacional da sigla, Ciro Nogueira, um dos principais aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tentou por meses fazer com que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fosse o candidato que unificasse o campo da direita/extrema direita. Faltou combinar com o antigo ocupante do Palácio do Planalto, hoje condenado e preso por seu envolvimento na trama golpista, que decidiu não abrir mão de seu capital político em torno de promessas a favor de uma incerta anistia ou indulto.

Com a consolidação da pretensão presidencial do senador Flávio Bolsonaro, o sonho de uma chapa que unisse radicais e o Centrão desmoronou. Agora, a estratégia anunciada por parte desse segmento seria lançar mais de um nome na corrida, e a receita de sucesso seria o que aconteceu na disputa do Chile, onde o campo da direita se dividiu no primeiro turno e se aglutinou em torno de José Antonio Kast no segundo, para garantir sua vitória. Contudo, a conta não é tão simples e o contexto brasileiro é bem diferente do chileno. Diversos interesses, partidários e regionais, vão entrar em conflito no processo de sucessão e nem todos se sentem confortáveis com uma solução que não foi negociada, demonstrando uma divisão que vai além dos imediatos objetivos eleitorais e alcança o que algumas legendas pretendem se tornar no futuro.


O recado dos radicais

Um exemplo da insatisfação veio à tona de forma caricatural, como se caracterizam inúmeras performances políticas dos extremistas. Nesta terça-feira (3), o deputado estadual paulista Gil Diniz (PL) decidiu incluir o sobrenome “Bolsonaro” à sua identificação na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), reafirmando sua pré-candidatura ao Senado. A “homenagem”, segundo ele, serve ainda ao propósito de “marcar posição de que defende o presidente Bolsonaro e sua família”.

“Aos oportunistas que foram eleitos lá atrás surfando na onda Bolsonaro, quando eram pequenininhos se arrastavam, eram ‘bolsonaristas de corpo e alma’. Alguns chegavam a dizer que ‘eram mais Bolsonaro que os próprios filhos do presidente Bolsonaro’ e que hoje se escondem, não falam nada, não dão apoio público à indicação do presidente Bolsonaro. Tá todo mundo vendo, seus covardes”, disse ele, aliado ferrenho do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro dentro da sigla, em seu discurso no plenário da Casa.

O recado tem múltiplas funções. Verbaliza um incômodo da base mais estritamente ligada a Bolsonaro com figuras políticas que hesitam em prosseguir na barca do ex-presidente e acena para seu ainda forte eleitorado, buscando lucrar eleitoralmente em outubro. É ainda uma tentativa de pressionar politicamente o ex-ministro de Bolsonaro, cria política sua, Tarcísio de Freitas. Uma pressão que visa reforçar seu compromisso público com o clã e a candidatura de Flávio, mas também uma espécie de “resgate”, para que ele volte a servir de forma plena ao bolsonarismo, deixando de hesitar entre os radicais e a influência das legendas do Centrão.

Com uma vaga do Senado na chapa do governador e candidato à reeleição destinada ao PP, na composição que tem o ex-secretário de Segurança Pública e deputado federal Guilherme Derrite como postulante, o PL paulista pleiteia algo que vá além da outra vaga, mirando o cargo de vice na chapa, ocupado hoje pelo ex-prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth, do PSD.

A articulação não é escondida, sendo anunciada publicamente pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que trabalha pela indicação do atual presidente da Assembleia Legislativa do estado, André do Prado. “O partido e a bancada vão trabalhar pelo André”, aponta Valdemar ao jornal Folha de S. Paulo. Enquanto o dirigente partidário dava aparência de uma negociação tradicional na esfera política, Diniz mostrava a outra faceta do segmento, ironizando uma declaração de Tarcísio na qual afirmava que seria positivo mais de um candidato do campo da direita se lançar à Presidência da República, já que todos se uniriam contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno.

“Essa mesma lógica vale para o governo de São Paulo? Porque, se vale para o governo de São Paulo, vale a pena o Partido Liberal ter um candidato também, porque ajuda a chapa de [deputado] estadual, ajuda a chapa de [deputado] federal. O Partido Liberal é o maior partido do estado de São Paulo e o maior partido do Brasil”, ameaçou o parlamentar. Embora a afirmação sobre a grandeza do PL possa ser questionada em muitos aspectos, a legenda tem as maiores bancadas na Câmara dos Deputados e na Alesp, sendo fundamental para a vitória de Tarcísio em votações mais acirradas na Casa.

Entre o histrionismo e a velha negociação

A dupla tática do PL, de transitar pela política tradicional e fazer, ao mesmo tempo, o jogo performático histriônico característico das redes sociais, representa o que hoje é o ethos do partido, que acolheu o bolsonarismo após o desentendimento do ex-presidente com o PSL e a frustrada tentativa de fundar uma nova sigla. De uma agremiação típica do Centrão, que já havia ocupado a Vice-Presidência da República no primeiro mandato de Lula, tornou-se o refúgio preferencial da extrema direita, o que lhe rendeu crescimento em termos de importância e também as maiores fatias dos fundos partidário e eleitoral. Valdemar Costa Neto enxergou um nicho lucrativo e o abraçou.


Porém, para outros partidos do campo da direita/centro-direita, a aproximação com o campo delimitado pelo clã do ex-presidente limita sua atuação. Não é à toa que parte desse grupo via em Tarcísio uma saída para seu dilema, uma espécie de distanciamento saudável do extremismo sem perder seus votos. Além de ser mais confiável nas tratativas políticas do que seu instável ex-chefe, o governador paulista ganhou a simpatia da Faria Lima ao promover privatizações e traduzir a retórica liberal em prática, sem as perturbações usuais de seu mentor. Ainda que tenha nascido e se formado politicamente no seio do extremismo, sua imagem suavizada permite que trilhe caminhos típicos da direita radicalizada em áreas como a Segurança e a Educação, com a adoção, por exemplo, do modelo cívico-militar em unidades de ensino, mas se passando por “moderado”.

Foi o sonho dessa candidatura presidencial que embalou o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Com a recusa do governador em assumir uma pretensão que não seria encampada pelo clã Bolsonaro, o ex-prefeito da capital paulista, na maioria do tempo discreto e afeito a negociações de bastidores, falou de forma velada, mas nem tanto, sobre uma eventual “submissão” do governador ao bolsonarismo, algo rebatido publicamente por Tarcísio. “É fundamental que ele [Tarcísio] tenha a sua identidade. Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão. E acredito que ele pensa assim também”, disse, em entrevista ao portal UOL.

Poucos fariam tal comentário a respeito do próprio chefe de forma tão aberta – Kassab é secretário de Relações Institucionais do governo paulista –, mas o fato é que o dirigente pretendia ter uma posição de destaque na campanha malograda ao Planalto, como uma espécie de copiloto de um projeto que escantearia ou colocaria em segundo plano o bolsonarismo. Frustrada a tentativa, agora o objetivo é outro.

Para entender a movimentação do PSD, o que inclui a manobra de acolher Ronaldo Caiado, é preciso resgatar as origens da legenda. Tido como um hábil negociador, que sabe para onde o vento da política sopra, Kassab se aproximou do PT após ser seu principal rival na cidade de São Paulo, quando derrotou Marta Suplicy nas eleições municipais de 2008. Rompeu com seu antigo partido, o DEM (ex-PFL, mais tarde fundido ao PSL para formar o União Brasil), para criar, em 2011, o PSD.

Com a nova sigla, virou uma legenda governista na ocasião e promoveu uma diáspora de oposicionistas rumo à gestão da então presidenta Dilma Rousseff. Em 2014, o partido oficializou seu apoio à reeleição da presidenta e foi o último a desembarcar do governo antes da votação da abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados. Ao pedir demissão, em carta pública, de seu cargo de ministro, alegou que se tratava de uma decisão partidária em prol do impedimento da presidenta. “Diante disso [decisão do PSD], minha permanência à frente do Ministério das Cidades é insustentável, conflita com a decisão do meu partido e me leva a abrir mão do cargo, independentemente do resultado da votação do próximo domingo”, afirmou. “Como V.Exa. já reconheceu, há necessidade premente de um pacto nacional para que o País possa superar suas dificuldades políticas e retomar seu desenvolvimento. O PSD não apenas concorda, mas apoia e lutará com todas as suas forças por esse consenso.”

Isso foi em 17 de abril de 2016. Já em 12 de maio do mesmo ano, menos de um mês após sua saída, a vontade do “consenso” expressa por Kassab se materializava em sua posse como ministro das Comunicações do governo de Michel Temer, pasta que incorporava ainda as atividades do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A característica fisiológica e a flexibilidade, por assim dizer, apresentadas pela sigla e por seu maior dirigente ilustravam que se tratava de um partido típico do chamado Centrão, só que maior. Já havia nascido com mais de 50 parlamentares e constituía, eleição após eleição, uma agremiação com maior poder na arena institucional, chegando a ser a sigla com maior número de prefeitos eleitos em 2022.

Mesmo assim, desde seu nascimento o partido não contou com candidatos à Presidência da República. Depois de Dilma, apoiou Geraldo Alckmin, então no PSDB, em 2018, acreditando ainda na força do principal opositor do PT até àquela altura, sem perceber que o polo de oposição ao centro e à direita havia caminhado para o extremo. Em 2022, optou pela neutralidade, o que facilitou as alianças estaduais ora para um lado, ora para outro. Agora, a desistência de Tarcísio empurra a legenda, e parte do Centrão, para um dilema.

O cálculo do PSD

Quando Caiado migra para o PSD, afirma que busca o abrigo de uma legenda que tenha o que chamou de “projeto nacional”. Se seu objetivo real fosse garantir, a todo custo, uma candidatura ao Palácio do Planalto, seu destino seria o Solidariedade, de Paulinho da Força, que havia prometido o posto ao governador goiano, ou o Podemos. Contudo, seriam legendas menores, que brigam para superar a cláusula de barreira e não têm estrutura para viabilizar uma postulação real. E ele sabe o que é entrar em uma disputa presidencial em uma sigla com pouca visibilidade, já que foi candidato em 1989 por outra “encarnação” pessedista, ocasião em que obteve singelos 0,68% dos votos válidos.

Em sua nova legenda, Caiado tem uma estrutura a seu dispor para manter o controle de sua própria sucessão em Goiás, como também desfruta de uma posição melhor do ponto de vista nacional. Se não for o presidenciável do PSD — o que é bem provável, já que sai atrás do governador do Paraná, Ratinho Jr., que tem a simpatia de Kassab –, garante um papel de protagonismo na agremiação, algo que lhe foi negado na federação União Progressista. Além disso, não fica a reboque do bolsonarismo, com quem já andou às turras durante a pandemia e também na eleição para a prefeitura de Goiânia, em 2024, quando ele e Jair Bolsonaro trocaram insultos publicamente.

Por seu lado, Kassab tem a perspectiva de ganhar mais um governo estadual para seu partido, aumentando também sua bancada no Legislativo. A filiação do governador de Rondônia, também ex-União Brasil, caminha nesse sentido, fortalecendo o horizonte eleitoral da agremiação. Com uma possível candidatura à Presidência, o PSD demarca ainda uma distinção em relação a legendas do seu campo e ao que foi sua própria trajetória até aqui.

Mesmo não chegando a um eventual segundo turno, um candidato que alcance dois dígitos ou percentual similar poderia ser decisivo na definição do vencedor, assegurando maior importância à legenda em uma nova gestão. Mesmo no caso de uma postura independente em função de disputas estaduais em curso, os pessedistas sairiam fortalecidos e com um nome bem colocado para 2030. Este seria um ganho político importante: a construção de um nome de visibilidade nacional para um pleito que não contaria com a concorrência de Lula, em caso de reeleição.

Enquanto isso, a federação União Progressista, atrasada em suas proposições por conta de discordâncias nos estados e pela longa espera das definições no campo do ex-presidente, vê seu papel no tabuleiro político reduzido, assim como outras siglas relevantes desde a redemocratização, casos do MDB e do PSDB, também passam a se ver à margem no processo político-eleitoral. Nesse cenário, a movimentação do PSD revela menos uma ruptura e mais uma tentativa de reorganização da direita fora da órbita direta do bolsonarismo, sem romper completamente com ele. O resultado desse cálculo não depende apenas do desempenho eleitoral em 2026, mas de quem conseguirá, ao fim do processo, definir os contornos e a identidade política da direita no pós-Bolsonaro.

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Mamdani começa com o pé esquerdo

No primeiro mês de governo, prefeito de Nova York constrói proposta concreta para creches gratuitas, tenta assegurar banheiros públicos e favorece pequenas empresas. É pouco? Vale examinar a trajetória do socialismo nos EUA e as brechas abertas hoje

A eleição de Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York, em novembro de 2025, foi episódio fundamental na luta política nos Estados Unidos. Um autodeclarado socialista-democrático, muçulmano e trintagenário, Mamdani concentrou as atenções de todo o planeta, e sobretudo da esquerda mundial, que enxergava lições e tendências em seu modelo de campanha e comunicação. É muito cedo para avaliações e o caminho será pedregoso e traiçoeiro; mas em seu primeiro mês como prefeito, Zohran desponta como possível exemplo de um “populista de esquerda” – no sentido proposto por Chantal Mouffe. Traçou fronteiras efetivas entre a massa de trabalhadores e os oligarcas capitalistas e aprofundou uma visão de democracia vinculada a soberania popular. Observar de forma atenta seu governo pode oferecer lições fundamentais acerca das características de um novo campo de esquerda que se desponta também na sociedade estadunidense.

Antes de avançar na análise dos primeiros passos de Zohran, vale destacar que a transposição de “lições” da experiência nova-iorquina a sociedades distintas seria um equívoco grave. A atenção ao que se passa em Nova York está relacionada sobretudo à tendência de transformação da psicologia social globalizada, novos limites na formulação de políticas populares e a possibilidade de agravamento da luta de classes na esfera capitalista global.

As raízes socialistas de Nova York.

Durante o século XIX Nova York viria a se tornar o pólo socialista estadunidense, com destaque para figuras como Morris Hillquit e Noman Thomas, defensores da intervenção estatal para a formação de uma sociedade de bem-estar baseada nos princípios de soberania popular e liberdade individual. Fiorello La Guardia tornou-se prefeito entre 1934 e 1945, numa importante transição entre o municipalismo liberal e o intervencionismo urbano. Mesmo no Partido Republicano, alinhou-se ao New Deal de Roosevelt, expandindo o papel do poder público nas bases infraestruturais do município, fortalecendo relações sindicais e a noção de formação cívica republicana – que será tratada adiante.


Após a criminosa ofensiva ideológica que ficou conhecida como “macartismo”, o Partido Democrata transformou-se no refúgio das ideias socialistas nos Estados Unidos. A corrente perdia magnitude, força de organização popular e influência na formulação de candidaturas. Mas manteve-se ativa. Em 1982, da fusão de antigas associações, emerge o Democratic Socialists of America, articulando o socialismo democrático, sindicalismo crítica ao conservadorismo social. Uma das singularidades do DSA foi a recusa a se consolidar como partido, preferindo  a estratégia de atuar dentro do Partido Democrata enquanto se associava com movimentos sociais autônomos, para a contenção estrutural das mazelas capitalistas. O DSA tem no senador Bernie Sanders seu principal expoente – um político que defende a utilização dos recursos públicos para políticas populares, e que trava um grande embate com a “oligarquização” do capital e sua ameaça para a democracia. Em 2016, Sanders disputou as primárias do Partido Democrata contra Hillary Clinton, tornando-se vítima de intensa manipulação institucional dentro da própria estrutura partidária, que derrotou sua candidatura, evidenciando o já conhecido caráter conservador dos líderes do establishment democrata.

A eleição de Trump em 2016 e 2024, a desistência de Joe Biden e a falta de apoio a Kamala Harris fizeram despencar o número absoluto de votantes democratas, ampliaram o longo processo de enfraquecimento do partido, que não é capaz de organizar uma oposição ao extremismo de Donald Trump, muito menos de fornecer uma alternativapopular à luta de classes.

A campanha de Zohran

A primeira batalha de Mamdani ocorreu nas primárias do Partido Democrata. O ex-governador Andrew Cuomo era o amplo favorito à vitória. Zohran era um nome desconhecido na política estadunidense e concentrou a estratégia de sua campanha em um tema fundamental para a classe trabalhadora: affordability,, ou custo de vida acessível. Utilizando vídeos curtos e didáticos nas mídias sociais, Mamdani viu sua popularidade entre a população jovem crescer de forma exponencial, ganhando força para a disputa das primárias. Após duas sessões de debate com Cuomo e diversas “town halls“, onde o candidato ouvia de forma direta as reivindicações dos trabalhadores dos cinco distritos da cidade, ele surpreendeu o establishment democrata vencendo as primárias e se tornando o candidato oficial do partido. Cuomo viria a se tornar seu oponente nas eleições concorrendo de forma independente.

Os três pilares da campanha de Mamdani relacionam-se diretamente com a diminuição do custo de vida em Nova York e se tornaram gritos de clamor entre seus apoiadores: “Freeze the rent“, ou “congelar o aluguel”. “Fast & Free buses”, “ônibus rápidos e gratuitos” e “Childcare for all”, “cuidado infantil para todos”. Vale destacar que o municipalismo é muito mais presente nos Estados Unidos do que no Brasil, garantindo o poder à prefeitura de modificar a legislação tributária para a arrecadação de recursos públicos, por exemplo. Zohran expressou um enfrentamento às oligarquias capitalistas, se associando a Sanders e Alessandra Ocasio Cortez. Foi eleito com 50,4% dos votos.

First day at the office

Em sua cerimônia de posse, Mamdani tornou-se o primeiro prefeito de Nova York a realizar seu juramento não com a Bíblia mas com o Alcorão. A ocasião contou com a presença de seus padrinhos políticos e uma massa de trabalhadores nova-iorquinos aquecidos de esperança em meio ao frio do inverno estadunidense. Ao discursar, o prefeito destacou pontos fundamentais para seu governo[1]:

Estou ao lado de mais de um milhão de nova-iorquinos que votaram por este dia há quase dois meses — e estou igualmente ao lado daqueles que não votaram. Sei que há quem veja esta administração com desconfiança ou desprezo, ou que considere a política irremediavelmente falida. E embora só a ação possa mudar mentalidades, prometo-lhes o seguinte: se você é nova-iorquino, eu sou o seu prefeito. Independentemente de concordarmos ou não, eu o protegerei, celebrarei com você, lamentarei com você e jamais, nem por um segundo, me esconderei de você. (MAMDANI, 2026)

Zohran destaca sua associação como expoente do movimento DSA:

Agradeço ao homem cuja liderança mais almejo emular, por quem sou imensamente grato por tomar posse hoje — o senador Bernie Sanders. (MAMDANI, 2026)

O prefeito destacou a necessidade de enfrentar o status quo para além dos limites conjunturais, não medindo esforços para a construção de um governo de caráter popular:


Um momento como este surge raramente. Raramente temos uma oportunidade como esta para transformar e reinventar. Mais raro ainda é que as próprias pessoas estejam no controle das alavancas da mudança. E, no entanto, sabemos que, com muita frequência no passado, momentos de grande potencial foram prontamente desperdiçados em prol de uma imaginação e ambições medíocres. O que foi prometido nunca foi concretizado, o que poderia ter mudado permaneceu igual. […] A partir de hoje, governaremos de forma abrangente e audaciosa. Talvez nem sempre tenhamos sucesso. Mas jamais seremos acusados ​​de falta de coragem para tentar.  Para aqueles que insistem que a era do governo grande acabou, ouçam-me quando digo isto: a Prefeitura não hesitará mais em usar seu poder para melhorar a vida dos nova-iorquinos. (MAMDANI, 2026)

Mamdani cita as características superestruturais que formam as contradições da democracia burguesa, evidenciando a necessidade de mudanças nas relações econômicas para a transformação das relações sociais:

Por muito tempo, recorremos ao setor privado em busca da excelência, enquanto nos contentávamos com a mediocridade daqueles que servem ao público. Não posso culpar ninguém que tenha questionado o papel do Estado, cuja fé na democracia foi corroída por décadas de apatia. Restauraremos essa confiança trilhando um caminho diferente — um caminho em que o Estado não seja mais apenas o último recurso para aqueles que lutam para sobreviver, um caminho em que a excelência não seja mais a exceção. […] Durante grande parte da nossa história, a resposta da prefeitura tem sido simples: ela pertence apenas aos ricos e influentes, aqueles que nunca se esforçam para chamar a atenção dos poderosos. Os trabalhadores têm sentido as consequências. Salas de aula lotadas e conjuntos habitacionais populares onde os elevadores estão fora de serviço; ruas cheias de buracos e ônibus que chegam com meia hora de atraso, quando chegam; salários que não aumentam e empresas que exploram consumidores e funcionários indiscriminadamente. (MAMDANI, 2026)

O caráter popular dos eleitores de Zohran também foi celebrado:

Poucos desses 8 milhões e meio de eleitores se encaixarão em categorias simples e definidas. Alguns serão eleitores da Hillside Avenue ou da Fordham Road que apoiaram o presidente Trump um ano antes de votarem em mim, cansados ​​de se decepcionar com a cúpula do seu partido. A maioria não usará a linguagem que costumamos esperar daqueles que exercem influência. Saúdo essa mudança. Por muito tempo, aqueles que dominam a boa gramática da civilidade usaram o decoro para mascarar agendas de crueldade. Muitas dessas pessoas foram traídas pela ordem estabelecida. Mas, em nosso governo, suas necessidades serão atendidas. Suas esperanças, sonhos e interesses serão refletidos de forma transparente no governo. Elas moldarão o nosso futuro. (MAMDANI, 2026)

O recém empossado prefeito destaca a essencialidade do cumprimento das propostas dos três pilares de sua campanha:

O custo da creche não será mais um impedimento para que jovens adultos formem uma família, porque forneceremos creche universal para a maioria, tributando os poucos mais ricos. Quem mora em imóveis com aluguel estabilizado não vai mais temer o último aumento de aluguel, porque vamos congelar o valor. Entrar num ônibus sem se preocupar com o aumento da tarifa ou com a possibilidade de chegar atrasado ao seu destino não será mais considerado um pequeno milagre — porque faremos com que os ônibus sejam rápidos e gratuitos. (MAMDANI, 2026)

A cerimônia se relacionou com o alargamento da amplitude da esperança social e o objetivo de transformar um projeto político popular em novos limites à noção democrática da consolidação de uma forma de organização solidária das relações entre os trabalhadores.

O trabalho continua, o trabalho perdura, o trabalho, meus amigos, está apenas começando. (MAMDANI, 2026)

Mamdani e um novo republicanismo

Em seu livro “O descontentamento da democracia”, o cientista político Michael Sandel, faz um vasto esforço de revisão da formação da estrutura política estadunidense fundada no embate entre liberais e republicanos. O autor revisa o período da institucionalização da democracia nos EUA e relaciona a superestrutura econômica com a formação dos interesses dos grupos políticos. Apesar de hoje associarmos os “republicanos” (membros do Partido Republicano) como defensores de uma sociedade fundada na desigualdade econômica e no conservadorismo cultural, Sandel evidencia que a doutrina do republicanismo clássico foi a base federalista de formação do indivíduo estadunidense. Fundada principalmente na associação da liberdade como a não-dominação e a participação ativa na vida política, o republicanismo se associa à soberania popular, sugerindo uma forma de democracia direta e articulada pela população, contrariando a concentração do poder econômico em grandes corporações.

O caráter republicano de Mamdani se apresenta principalmente no convite à formação de um governo popular. Zohran organizou um grande número de sessões como as town halls desde que foi eleito, passando horas ouvindo as reivindicações populares e prometendo construir políticas que atendam estas necessidades. A politização torna-se fundamental quando há uma gigantesca ofensiva dos veículos hegemônicos de mídia contra Mamdani. Jornais como “The City Journal” e “The New Yorker” estão infestados de matérias revelando o “perigo” das escolhas do novo prefeito, suas “controvérsias” opiniões e a “ineficácia” de suas ordens, mesmo com menos de 30 dias de mandato. No entanto, o governo tem se mostrado eficaz na utilização das mídias sociais para evidenciar o caráter verdadeiramente popular do novo prefeito de Nova York. Parece não haver problema grande ou pequeno demais.

As ordens de Zohran

Com apenas oito dias de mandato, um dos pilares de sua campanha: “Childcare for all“, saiu da abstração e se tornou um projeto da prefeitura em associação com o governo de Nova York. O projeto quer oferecer creche gratuita para todas as crianças de dois anos em Nova York, começando por áreas mais necessitadas e se expandindo gradualmente para todos os interessados. O estado pagará os dois primeiros anos e o financiamento posterior é responsabilidade do município. A compensação orçamentária pode vir por alteração tributária sobre grandes fortunas. Entretanto, como prefeito, Zohran não tem amparo institucional para realizar isso sem apoio da governadora Hochul, que se mostra reticente à ideia.

Outras ordens relacionadas a affordability foram proibir redes de academia de incluir taxas que podem dificultar o cancelamento da assinatura; o investimento de 4 milhões de dólares para a construção de banheiros públicos – evitando que nova-iorquinos tenham que consumir em estabelecimentos para utilizar sanitários. Além disso, Mamdani ordenou que que agências de Nova York inventariem, revisem e recomendem a redução ou eliminação de taxas e penalidades que pesam sobre pequenas empresas – com o objetivo de simplificar processos, reduzir custos e explorar programas de apoio financeiro. Firmou um acordo de 2,1 milhões de dólares com a empresa imobiliária A&E para a resolução de problemas de condições perigosas e assédio a inquilinos em 14 prédios localizados em Brooklyn, Manhattan e Queens. Entrou com ação judicial contra a empresa de app de entregas Motoclick e seu executivo-chefe por violarem de forma grave as leis de proteção aos trabalhadores de entrega da cidade. Ordenou a redução dos custos e encargos regulatórios que tornam mais caro abrir e manter um pequeno negócio na cidade, ajudando com isso a tornar Nova York mais favorável ao crescimento econômico local. Reiniciou a construção de 83 unidades de moradia permanente para pessoas ex-presidiárias com necessidades médicas complexas – a organização sem fins lucrativos “The Fortune Society” será responsável pelo desenvolvimento e pelos serviços de apoio no local, incluindo atendimento clínico e gerenciamento de casos. Promulgou uma nova regra que proíbe hotéis de cobrarem taxas ocultas e bloqueios inesperados no cartão de crédito ao fazer reservas. Anunciou a abertura de duas novas clínicas de saúde para jovens chamadas de Elevate You em parceria com o sistema NYC Health.

No âmbito cultural, Mamdani promoveu um acordo municipal com a retirada de ingressos gratuitos para o festival “Under the Radar” e organizou uma “festa de assistência pública” para a final da Copa Africana de Nações.

Diante de uma tempestade de inverno, a prefeitura anunciou Estado de Emergência, mobilizando agências municipais para enfrentar o grande volume de neve, suspendendo as aulas presenciais nas escolas com o objetivo de garantir a segurança de alunos, famílias e profissionais, ao mesmo tempo em que se mantém o ensino contínuo para cumprir o requisito mínimo de dias letivos do Estado. Zohran garantiu que a prefeitura tem a capacidade financeira de não negar abrigo a nenhum cidadão de Nova York.

Os limites do socialismo estadunidense

O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro de 2026 (apenas o terceiro dia do mandato de Mamdani), tornou-se um episódio emblemático sobre os limites materiais do socialismo da DSA. Essa atrofia teórica já era conhecida nas posturas de Sanders e Cortez, indivíduos apesar da promoção de um estado de bem-estar nos EUA parecem incapazes de relacionar o sionismo, o subdesenvolvimento na América Latina e África, as criminosas sanções contra o Irã, Cuba e Venezuela – por exemplo – com a natureza imperialista do desenvolvimento capitalista. Mamdani não exibe uma postura diferente.

Maduro foi sequestrado por Trump e levado para Nova York onde passará por seu criminoso “julgamento”. A reação de Zohran foi tímida, abstendo-se de comentar a natureza superestrutural da invasão e comprometendo-se apenas a isolar a problemática internacional do convívio nova-iorquino. Evidentemente o prefeito de Nova York se vê limitado a combater a postura de Trump, que governa os Estados Unidos acima de qualquer institucionalidade. Paralelamente a relação entre estes atores é marcada por contradições. Donald Trump mobilizou forças para evitar a eleição de Mamdani, caracterizando a possibilidade de ter um socialista como prefeito da maior cidade dos Estados Unidos como uma catástrofe, chegando a apoiar o antigo governador democrata Cuomo.

Entretanto, após o encontro dos dois governantes na Casa Branca, no dia 21 de novembro de 2025, Trump parece ter ficado encantado com o socialista, trocando mensagens regularmente com Mamdani. O movimento “MAGA for Mamdani” teve forte apoio em Nova York e caracteriza o grau de despolitização e contradição política que assombra aos EUA. Ainda esta semana, Zohran não foi tímido ao criticar os episódios de assassinatos crueis pela ICE, destacando a necessidade de abolir uma instituição que pratica “terrorismo de Estado”. Sua aparição no programa de talk-show de Jimmy Fallonlogo no momento em que o apresentador caçoava de Trump, pode ser lida como uma tentativa de se afastar do presidente, que não poupa elogios a Mamdani.

Conclusão

A experiência de Mamdani como prefeito de Nova York será marcada por contradições, limitações, erros e acertos. Entretanto, os indícios do primeiro mês do líder socialista na Gracie Mansion,indica a possibilidade de uma revolução dentro da psicologia social estadunidense, fortalecendo o ideal cívico de um novo republicanismo e possibilitando, talvez, a constituição de um governo popular de bem-estar social. É um novo capítulo do desenvolvimento da luta de classes nos Estados Unidos. Merece ser estudado com compromisso teórico e reflexão crítica, visto que pode ditar tendências nos próximos anos como oposição popular ao proto-fascismo de Donald Trump.

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Em Davos, império, arrogância e… declínio

Brutalidade de Trump choca, mas não é raio em céu azul. Por décadas, mundo das corporações sequestrou a riqueza coletiva e zombou da democracia e dos direitos. Resultado: um sistema arcaico e cada vez mais indesejado, mas em crise aguda

Por Mariana Mazzucato | Tradução: Antonio Martins

Enquanto o Fórum Econômico Mundial (FEM) se reúne em Davos sob o lema “Um Espírito de Diálogo”, os Estados Unidos assumiram o controle da infraestrutura petrolífera da Venezuela, instalando o que o presidente Donald Trump chama de administração norte-americana “indefinida” das reservas de petróleo do país, ao mesmo tempo que chantageiam países europeus com sua exigência pela Groenlândia. A desconexão entre o apelo do FEM ao diálogo e a agressão unilateral norte-americana é, no mínimo, chocante.

A intervenção dos EUA na América Latina pode estar assumindo novas formas, mas a apropriação da infraestrutura petrolífera ecoa antigas apropriações de recursos. Enquanto os participantes de Davos analisam as nuances do “capitalismo de partes interessadas” [stakeholder capitalism], as antigas regras da política de poder e da extração de recursos estão sendo ativadas novamente.

Em 2019, o historiador holandês Rutger Bregman desvendou o espetáculo de Davos com precisão cirúrgica: “Impostos, impostos, impostos. Todo o resto é conversa fiada.” Com essas nove palavras, ele expôs o abismo entre a retórica e a realidade, entre a linguagem da prosperidade compartilhada e a prática da concentração de riqueza.


É claro que as empresas devem pagar seus impostos devidos. Mas, além disso, precisamos analisar, em primeiro lugar, como o valor é criado – não apenas a redistribuição , mas também a pré-distribuição. Ela diz respeito a reestruturar a forma como o valor é criado e compartilhado desde o início, e não apenas à redistribuição de migalhas após sua extração. Requer que se criem novos contratos sociais, com condições concretas e responsabilização. É por isso que a estratégia industrial moderna deve ser organizada em torno de missões: metas específicas e mensuráveis que abordem os desafios da sociedade, ao mesmo tempo que catalisem a inovação e o investimento em todos os setores.

O crescimento não é uma missão; é o resultado do investimento em soluções para problemas reais. Uma missão para descarbonizar a economia, por exemplo, transformaria simultaneamente os setores de energia, transporte, alimentação e tecnologia digital. Uma missão para alcançar “saúde para todos” poderia promover melhorias na saúde pública por meio da inovação em áreas como as ciências da vida. Não se trata de favorecer um setor específico, mas de estabelecer o papel de cada setor na concretização de uma missão.

Isso exige liderança, confiança e atenção aos detalhes. As iniciativas de inovação colaborativa devem ser estruturadas para evitar que pesquisas financiadas com recursos públicos sejam privatizadas por meio de patentes muito amplas e difíceis de licenciar, e para proibir preços excessivos que ignorem a origem do valor.

O Reino Unido oferece um exemplo magistral de como não estruturar parcerias público-privadas, e o governo trabalhista, “incondicionalmente pró-empresarial”, corre o risco de repetir erros caríssimos. Considere o crescente domínio da empresa americana de dados e análises Palantir sobre os serviços públicos britânicos. Durante a pandemia, a empresa ofereceu seus serviços ao Serviço Nacional de Saúde (NHS) gratuitamente – um gesto que seu diretor no Reino Unido comparou depois a uma assinatura experimental de revista. Hoje, a Palantir detém contratos no valor de mais de £ 330 milhões (US$ 443 milhões) com o NHS, além de um novo contrato de defesa de £ 240 milhões concedido sem licitação.

O exército suíço rejeitou a Palantir após sete anos de negociações, pois especialistas alertaram que a propriedade norte-americana da empresa criava riscos de acesso à inteligência e que a dependência em elação a especialistas da Palantir poderia “limitar a capacidade do exército de agir em situações de crise”. No entanto, o novo contrato do Reino Unido com a Palantir triplica os gastos com a empresa desde 2022, e o ministério da Defesa admite que a mudança de fornecedor exigiria a reconstrução de toda a arquitetura de dados a um “custo significativo”. Evitar a dependência de um único fornecedor e a probabilidade de custos exorbitantes para o público exige contratos que incluam condições para o desenvolvimento de capacidades estatais.

O caso da Thames Water [que gere a água e esgotos de Londres], onde a gestora de ativos australiana Macquarie endividou a empresa em £2 bilhões enquanto lucrava com isso, oferece outro exemplo lamentável. Com o financiamento substancial de infraestrutura no Reino Unido vindo de empresas como Blackstone e Macquarie, um padrão claro emerge: riscos socializados, recompensas privatizadas e serviços essenciais comprometidos por engenharia financeira. O Bônus para Indústria Limpa, da semana passada, destinado à energia eólica offshore e que exige investimento em cadeias de suprimentos britânicas, sugere que o governo está aprendendo algumas lições. Só o tempo dirá se essas condições serão suficientes para impedir o parasitismo.

Parcerias público-privadas eficazes incluem condicionalidades capazes de garantir que o apoio público gere valor público. A Lei CHIPS e a Lei de Ciência dos EUA condicionaram o financiamento de empresas à limitação da recompra de ações, ao investimento no desenvolvimento da força de trabalho e à oferta de creches. O banco público alemão KfW vincula empréstimos com juros baixos a metas de descarbonização. A estratégia do Chile para o lítio garante que as mineradoras invistam em atividades de valor agregado no país e atendam a padrões de sustentabilidade, com o Estado assegurando uma parcela significativa dos lucros.


Não são medidas antiempresariais; são estruturas pró-reciprocidade que alinham incentivos privados com objetivos públicos. Quando o Reino Unido forneceu 65,5 milhões de libras para apoiar a vacina Oxford/AstraZeneca, exigiu que a empresa operasse sem fins lucrativos durante a pandemia. É assim que se identifica uma parceria genuína: riscos compartilhados, recompensas compartilhadas e propósito compartilhado.

Por isso, a implementação é tão importante quanto o planejamento. Construir capacidade estatal significa resistir à tentação de terceirizar funções essenciais para consultores. Requer coordenação interministerial, parcerias significativas com sindicatos e empresas, e investimento em capacitação do funcionalismo público para projetar, implementar e adaptar ferramentas, desde licitações até infraestrutura pública digital.

A agência de inovação sueca Vinnova demonstra essa abordagem, utilizando a aquisição de refeições escolares “saudáveis, sustentáveis, saborosas e acessíveis” como alavanca para transformar todo o sistema alimentar. Para atingir esse objetivo, a Vinnova reúne agências governamentais, municípios e atores privados de diferentes setores em torno dos objetivos comuns de saúde, sustentabilidade e desenvolvimento local.

Esta semana, Davos apresentará os habituais compromissos sobre capitalismo de stakeholders, negócios com propósito e desenvolvimento sustentável. Mas, sem mecanismos concretos – condicionalidades vinculativas, estruturas de responsabilização e partilha equitativa de riscos que distingam os verdadeiros criadores de valor dos parasitas – tudo continua a ser um teatro. À medida que mais um capítulo da longa história da extração de recursos se desenrola na América Latina, os participantes de Davos devem questionar-se: estamos construindo parcerias genuínas ou sofisticados mecanismos de extração?

A resposta parece clara, com os titãs da tecnologia se alinhando para jurar lealdade a Trump: Mark Zuckerberg, da Meta, acaba com a verificação de fatos, e Jeff Bezos, da Amazon, elimina a independência editorial do Washington Post , curvando-se ao poder em troca de liberdade para usar suas plataformas e extrair valor por meio de rendas algorítmicas . Enquanto isso, executivos do setor petrolífero discutem abertamente a divisão das reservas da Venezuela, com Trump prometendo-lhes “segurança total” para extrair riqueza de um país em caos.

Como as instituições multilaterais tradicionais se mostram ineficazes, precisamos de coalizões de países dispostos a forjar novas estruturas para a governança global. Os países que levam a sério o desenvolvimento sustentável devem trabalhar juntos para incorporar mecanismos de consenso e desenvolver a capacidade estatal necessária para promover o crescimento verde. Isso significa passar de compromissos voluntários para acordos vinculativos sobre transferência de tecnologia, financiamento verde e estruturas de inovação compartilhada – os alicerces de uma nova ordem econômica que sirva às pessoas e ao planeta.

O espírito do diálogo é vazio de significado se não for acompanhado por novas formas fundamentalmente eficazes de gerar valor. A verdadeira reciprocidade exige novos contratos que reflitam uma relação público-privada mais simbiótica, com condições efetivas e que compartilhem tanto os riscos quanto os benefícios. Caso contrário, acabaremos repetindo os erros do passado. Como disse Giuseppe Tomasi di Lampedusa : “Tudo precisa mudar para que tudo possa permanecer igual”.

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Colômbia: crônica de uma intervenção anunciada

Ao demonstrar que o extrativismo, a “guerra às drogas” e o alinhamento automático aos EUA não são leis naturais, país desperta a fúria de Trump. Precedente venezuelano mostra os novos mecanismos de coerção no roteiro de Washington – seu desfecho ainda está em disputa

Por Sahasranshu Dash, no El Salto, com tradução na Revista Opera

“A única diferença entre a morte e as más notícias é que a morte não piora”. Em Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, o horror não reside no assassinato, mas em seu anúncio. A violência é antecipada, comentada, normalizada e lentamente transformada em destino. Todos sabem o que vai acontecer; ninguém o impede. Quando ocorre, já não parece uma decisão, mas o cumprimento de um roteiro coletivamente aceito.

Essa lógica estrutura cada vez mais a forma como o poder dos Estados Unidos é exercido sobre a América Latina sob Donald Trump. A intervenção já não precisa se materializar para ser eficaz. Funciona como ameaça, como ensaio, como condição prévia. Descertificações, sanções, retirada de vistos, ameaças tarifárias, acusações públicas de criminalidade e referências explícitas à força militar tornam-se instrumentos de disciplina. A violência não precisa ser executada se seu anúncio já ordena o comportamento. A política externa torna-se assim uma crônica escrita de antemão.


É nesse contexto que a Colômbia, sob o presidente Gustavo Petro, se torna intolerável para o imaginário conservador de Washington. Petro não é simplesmente um governante de esquerda com um programa redistributivo; ele representa uma negação estrutural de três pilares que, durante décadas, sustentaram a influência dos Estados Unidos na região: o extrativismo fóssil, a proibição militarizada das drogas e a subordinação geopolítica. A Colômbia não é um caso marginal nem um ator irrelevante. Por mais de meio século, foi o aliado modelo dos Estados Unidos na América do Sul, o laboratório da contrainsurgência, o maior receptor de ajuda militar na região e o parceiro mais disciplinado na guerra global contra as drogas. Se a Colômbia sai do roteiro, o próprio roteiro perde autoridade.

A base do projeto de Petro é econômica, mas não no sentido tecnocrático habitual. Os combustíveis fósseis representam mais da metade das exportações colombianas e cerca de metade do investimento estrangeiro direto. A Colômbia é um dos maiores exportadores de carvão do mundo, com mais de 90% de sua produção destinada ao exterior, e depende do petróleo para financiar boa parte do Estado. No entanto, a extração não só gerou receitas: organizou a violência. As zonas carboníferas e petrolíferas coincidem historicamente com territórios de deslocamento forçado, controle paramilitar e economias armadas. A riqueza se concentrou; a guerra se territorializou.

A decisão de Petro de suspender novos contratos de exploração de petróleo, gás e carvão em 2022 – respeitando os contratos existentes – não foi um gesto ambientalista simbólico, mas uma ruptura planejada com esse modelo. O fracking foi explicitamente proibido. Em uma indústria que sobrevive substituindo permanentemente reservas, encerrar a exploração equivale a aceitar o declínio. Petro não prometeu uma transição indolor; prometeu administrar o fim de um ciclo antes que o mercado o impusesse de forma caótica.

As consequências foram imediatas e visíveis. Sem novas explorações, diferentes análises estimam que a produção petrolífera colombiana poderá cair fortemente no início da próxima década. A Ecopetrol, empresa estatal responsável por cerca de dois terços da produção nacional, poderá esgotar as reservas exploráveis até 2031. A perfuração foi reduzida, o investimento estrangeiro no setor caiu significativamente e a Exxon se retirou do país após o cancelamento dos projetos pilotos de fracking. Petro assumiu esses custos como o preço de sair de uma economia governada pela ilusão da perpetuidade extrativa.

As críticas trabalhistas são reais, mas incompletas. Os combustíveis fósseis não produzem apenas empregos; eles produzem disciplina política. Eles centralizam o capital, militarizam territórios e vinculam a política nacional a interesses externos. A transição energética de Petro não se baseia na substituição imediata do barril pelo painel fotovoltaico, mas na descentralização do poder. Em 2025, mais de trezentas comunidades energéticas funcionavam em territórios rurais, indígenas, afrocolombianos e pós-conflito, com centenas mais em planejamento. Em apenas três anos, a capacidade solar instalada no país multiplicou-se quase por dez. Não prometem riqueza rápida nem rendimentos extraordinários, mas redistribuem o poder, reduzem a dependência e quebram a lógica segundo a qual a energia só pode existir sob controle corporativo e militar.

A mesma lógica atravessa a política de drogas. Durante décadas, a Colômbia foi o palco central da guerra contra as drogas impulsionada pelos Estados Unidos, recebendo bilhões de dólares em ajuda militar, treinamento e armamento. No entanto, o resultado é eloquente: a Colômbia continua sendo o maior produtor mundial de coca, com aproximadamente 253 mil hectares cultivados, segundo estimativas das Nações Unidas. A erradicação em massa das drogas puniu os camponeses sem desmantelar as redes criminosas. A violência se deslocou, mas não desapareceu. Não é por acaso que essa história tenha sido transformada em entretenimento global em séries como Narcos, onde a caça aos chefões oferece uma narrativa de encerramento – a morte de Pablo Escobar, a queda de um cartel – enquanto a estrutura que produz o narcotráfico permanece intacta, repetindo-se temporada após temporada sob novos nomes.

Essa recusa em aceitar a culpa eterna explica a fúria de Donald Trump. Suas ameaças, insultos e advertências a Petro não respondem a indicadores técnicos, mas a uma lógica ideológica. Trump acusou publicamente a Colômbia de “fabricar cocaína”, advertiu que ela poderia ser “a próxima”, sugeriu que países ligados ao narcotráfico estão “sujeitos a ataques” e insinuou ações militares. Em 2025, seu governo descertificou os esforços antidrogas da Colômbia pela primeira vez desde 1997, ameaçou impor tarifas de até 50%, revogou o visto de Petro e aplicou sanções pessoais. Esses gestos funcionam menos como política pública e mais como lembretes de hierarquia.


O precedente venezuelano é fundamental. Trump normalizou a linguagem da “decapitação” política, da punição exemplar e da intervenção preventiva como ferramentas legítimas de ordem regional. Nesse contexto, a Colômbia aparece não apenas como um parceiro rebelde, mas como um aviso para outros. A ameaça não precisa ser executada: basta ser credível.

A Colômbia importa precisamente porque sempre obedeceu. Se até mesmo a Colômbia se permite questionar a extração, a guerra contra as drogas e a subordinação estratégica, o poder dos Estados Unidos deixa de parecer inevitável. Como García Márquez compreendeu, é aí que começa seu declínio: quando a violência deixa de parecer natural e se revela como uma escolha.

O final continua em aberto. Petro não pode ser reeleito. Setores da direita prometem reabrir licenças, autorizar o fracking, restaurar o alinhamento automático com Washington e reviver a erradicação em massa. A violência contra líderes ambientais continua. A transição é frágil, incompleta e disputada. Nada está garantido. Mas algo já mudou de forma irreversível: a Colômbia demonstrou que o extrativismo, a proibição e a subordinação não são leis naturais, mas acordos políticos sustentados pelo costume e pela força. A crônica está escrita. O desfecho ainda está em disputa.

Tradução de Raul Chiliani

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