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Por que o Brasil parou de subir?

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BLOG DO PAULO GALA

Portal Membro desde 30/08/2017

Segmento: Economia

Premiações: Prêmio Portal do Ano 2021

 


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Fala a repórter das lutas do Sul Global

Ela entrevistou, entre tantos, Fidel, Brizola e Arafat – e conta os bastidores. Uma das fundadoras dos Cadernos do Terceiro Mundo analisa a trajetória do Movimento dos Não-Alinhados. E aponta: hegemonia do Ocidente pode estar chegando ao fim – e, com ela, o da supremacia branca

Beatriz Bissio, doutora em História pela UFF e Professora Associada do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ, revela-se nesta entrevista uma intelectual de rara síntese, cuja atuação rompe os limites da “torre de marfim” acadêmica. 

Sua trajetória é marcada por uma densa e diversa experiência, tendo servido como coordenadora do Comitê de Relações Internacionais do estado do Maranhão durante a administração de Jackson Lago (2007–2009) e, mais recentemente, exercido a vice-direção do prestigioso Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, no biênio de setembro de 2022 a agosto de 2024.

Este percurso de rigor e serviço ao Brasil foi selado com a Medalha da Vitória, concedida em 2013 pelo então ministro da Defesa, o embaixador Celso Amorim, reconhecendo uma vida dedicada à compreensão das dinâmicas globais. Como ensinou Marc Bloch, o historiador busca onde fareja a carne humana; Bissio, contudo, alia a essa busca a sensibilidade de Claude Lévi-Strauss para decifrar as estruturas que moldam a alteridade. Fundadora da revista Cadernos do Terceiro Mundo, ela dialogou com os arquitetos do século XX, de Nelson Mandela a Yasser Arafat, trazendo nesta conversa a “verdade” apreendida no olhar de Fidel Castro e a humanidade resiliente de Leonel Brizola no exílio.


Sua trajetória intelectual e jornalística constituiu uma verdadeira cartografia da subjetividade do Sul Global, tendo a senhora habitado o epicentro das grandes mutações do século XX ao dialogar com figuras que não apenas testemunharam a história, mas a esculpiram. Gostaria de focar na figura de Fidel Castro que, para a minha geração, simboliza a resistência contra o imperialismo. A senhora foi uma das poucas jornalistas brasileiras/uruguaias a entrevistar esse líder revolucionário, que sobreviveu a centenas de tentativas de assassinato da CIA. Gostaria de saber qual foi a sua sensação de estar diante da própria História. O que a senhora viu naqueles olhos e qual foi a “verdade” que aquele homem lhe transmitiu?

Foi, antes de tudo, um sentimento de privilégio e de fascínio. Tive a honra de ser recebida por um homem da estatura de Fidel, sentada em uma pequena mesa onde estávamos apenas eu, ele e uma secretária jovem que tomava notas. Interpretei esse privilégio como um reconhecimento ao trabalho jornalístico desenvolvido pela equipe da revista Cadernos do Terceiro Mundo, em representação da qual, como membro do núcleo que a fundara e dirigia, eu estava lá, sentada ao lado de Fidel Castro.

Foi uma conversa de mais de duas horas, em um dia de muitos compromissos dele, em função dos quais vestia o seu uniforme. O que mais me impressionou foi vê-lo falar com paixão e arrebatamento, especialmente sobre Cuba — um amor pela sua pátria e pela pátria latino-americana que transbordava pelos poros e nos impregnava. Além disso, Fidel era um homem de uma erudição e um conhecimento sem limites; leitor voraz, ele manejava os dados como se tivesse um computador na cabeça. Estávamos em um momento difícil, anterior ao colapso da União Soviética, mas já com sintomas claros do que viria. Fidel ainda mantinha a expectativa de que o desfecho não ocorresse, mas já antevia as dificuldades que viveria Cuba sem o apoio soviético. Nesse contexto, ele me disse uma frase que acabou sendo o título daquela entrevista: “O socialismo não se esgota com uma experiência histórica. O socialismo é mais profundo e transbordará essa experiência”. Se fosse resumir o sentimento que ficou em mim depois dessa conversa, diria que foi o de um sentido respeito por um homem com um profundo senso de responsabilidade perante seu povo e perante a história.

A senhora considera que o experimento socialista cubano foi o mais bem-sucedido no mundo, chegando mais perto do ideal de pensar o ser humano em sua totalidade e igualdade?

Eu não gostaria de fazer comparações. Mas posso falar do que mais admiro no processo cubano: a capacidade de transformar o ser humano, de extrair dele o que há de melhor. Isso é fundamental em qualquer processo de transformação social — elevar a humanidade a um patamar superior onde possamos nos perceber todos iguais. Cuba demonstrou que um processo transformador é capaz de dar dignidade ao ser humano. E constatei isso através de inúmeras experiências históricas, algumas das quais como testemunha, inclusive na África. O internacionalismo do povo cubano mostrou a estatura desse ser humano surgido da experiência revolucionária. Vi a entrega de cubanos anônimos — médicos, professores, biólogos, engenheiros, e até mesmo lutadores de boxe — que partiram em missões internacionalistas para partilhar o conhecimento e a experiência que receberam através da Revolução. Essa solidariedade, que muitas vezes significou a entrega da própria vida, como ocorreu na participação cubana na independência de Angola, é para mim a demonstração irrefutável de uma proposta revolucionária vitoriosa.

Gostaria de tratar agora de Leonel de Moura Brizola. Cresci em uma família profundamente brizolista; minha avó era uma de suas grandes entusiastas do projeto educacional que ele representava, falava com paixão sobre os CIEPs e o projeto de educação dele e de Darcy Ribeiro. Para o povo fluminense, o termo “Brizolão” tinha uma conotação carinhosa, embora a direita tentasse usá-lo para estigmatizar o projeto. A senhora conheceu Leonel Brizola no Uruguai, no exílio. Quem foi esse homem fora dos holofotes? Ele mantinha no privado a mesma emoção e a paixão que víamos em seus discursos?


Brizola era uma pessoa admirável; continuo a ter por ele um profundo carinho e respeito. Eu o conheci no Uruguai (meu país de origem), no exílio, num momento de grandes incertezas em relação ao futuro do Brasil e à possibilidade do retorno. O exílio para Brizola, assim como para outros brasileiros que conheci naquela altura, representava um desgarramento doloroso. Eu mesma vivi essa experiência uns anos mais tarde. Brizola expressava o sofrimento pela distância da pátria e pela impossibilidade de intervir na política nacional. Mas nunca — nem ele nem os demais exilados — deixaram de buscar formas de contribuir para o processo de retorno à democracia. A ditadura sabia disso e pressionou o governo uruguaio a confiná-lo, junto com toda a família, em prisão domiciliar, em Atlântida, um balneário a 80 km de Montevidéu. Essa foi uma etapa muito difícil do exílio, porque levou Brizola e Dona Neusa a optar por enviar os filhos para o Rio Grande do Sul, onde ficaram a cargo da família dela.

Lembro-me vividamente do dia em que o conheci. Imaginei que o encontro seria em um restaurante formal em Montevidéu, mas paramos na estrada, em um local simples. E como fiquei um pouco surpresa do local escolhido para a parada no meio da estrada, Brizola me disse, de forma muito afetuosa: “Beatriz, eu quis te receber aqui porque este é o restaurante preferido dos caminhoneiros, e os caminhoneiros são os que melhor sabem escolher restaurantes”. Brizola era essa figura avassaladora, que irradiava confiança no futuro, amor pelo Brasil e orgulho de seu povo. No privado, era extremamente afetuoso e mantinha uma devoção profunda por Dona Neusa, uma mulher extraordinária. Tendo sido filha de uma família privilegiada do Rio Grande do Sul (ela era irmã do presidente João Goulart), no exílio ela pessoalmente organizava um sopão destinado a alimentar os exiliados que não tinham família nem dinheiro para se sustentar. Lembro-me de ter conversado muito com ela sobre as dores do exílio e a separação dos filhos.

Posso afirmar sem duvidar um instante que Brizola foi um homem de uma coerência e de uma sensibilidade humana admiráveis, além de suas qualidades de estadista.

Diante da necropolítica desenfreada que hoje converte Gaza em um laboratório de extermínio técnico, como você interpreta a persistência do espectro de Yasser Arafat na gramática da resistência atual da Palestina? Como foi entrevistá-lo para Cadernos do Terceiro Mundo?

Entrevistei Yasser Arafat três vezes, sempre cobrindo a questão palestina para Cadernos do Terceiro Mundo, junto com Neiva Moreira. A primeira e mais marcante das entrevistas foi em Beirute, em 1979, em plena guerra civil do Líbano. A segunda foi em Tunes, depois que a OLP foi obrigada a mudar-se para a Tunísia, em 1982, como consequência da invasão israelense ao Líbano. E a terceira foi durante a reunião, em novembro de 1988, em Argel, do Conselho Nacional Palestino (CNP), o Parlamento palestino no exílio. Nessa ocasião histórica, Yasser Arafat leu a Declaração de Independência da Palestina, escrita pelo poeta Mahmoud Darwish, que acabara de ser aprovada pelo CNP. Vou me deter na entrevista feita no Líbano, porque foi a do primeiro impacto com a figura desse líder cuja trajetória eu já acompanhava e continuaria a acompanhar até a sua morte.

Tínhamos sido avisados de que a entrevista poderia acontecer, mas não havia certeza nem data. Só um conselho: “fiquem atentos de noite, pois é o horário em que nosso líder, quando possível, recebe os visitantes”. E assim ocorreu.

Já entrada a madrugada, nos acordou um militante com a missão de nos levar até Abu Amar, como também era conhecido Arafat, seguindo a tradição árabe de chamar a pessoa, carinhosamente, como “pai” ou “mãe de” … Depois de muitas voltas em uma Beirute Ocidental em silêncio — essa era a parte muçulmana da capital libanesa, separada da parte cristã, durante a guerra civil pela Linha Verde — chegamos ao local do encontro. Nos recebeu um Yasser Arafat visivelmente cansado, olhos vermelhos de horas sem dormir, mas profundamente afetuoso. Em inglês, idioma que usou durante toda a entrevista, pede desculpas pelo horário e explica que acaba de chegar de Teerã, de um importante encontro com o aiatolá Khomeini e que, ao tomar conhecimento da nossa presença e do fato de que há dias aguardávamos sermos recebidos por ele, tinha decidido não nos fazer esperar mais. Na verdade, não sabia se poderia nos receber outro dia, em função dos compromissos que lhe aguardavam como consequência daquele encontro no Irã. No momento, nós não tínhamos ideia da importância dessa revelação. Mas esse encontro de Arafat com Khomeini, só seis dias após a vitória da Revolução Islâmica, em 18 de fevereiro de 1979, dava início a uma virada diplomática da maior importância para os palestinos e para toda a região: o Irã, antes fiel aliado de Israel e dos Estados Unidos, assumia a causa palestina como o centro de seu compromisso revolucionário, um compromisso que perdura até hoje. E, como símbolo dessa mudança, quando ainda Arafat estava em solo iraniano, foi colocada uma placa com a inscrição “Embaixada da Palestina” no topo da porta da frente do edifício que até poucos dias antes era a Embaixada de Israel.

A conversa com Arafat fluiu como se já nos conhecêssemos, sem formalidades, à vontade, livre. Ele explicou a longa caminhada desde a fundação da Organização da Libertação da Palestina até aquele momento, as dificuldades de comunicação com as populações dos territórios ocupados, as carências nos campos de refugiados. Também exaltou a solidariedade dos libaneses e dos povos do mundo que se solidarizavam com sua causa. A frase que ficou gravada em mim foi esta: “A nossa luta é complexa. Não estamos enfrentando só a Israel; enfrentamos também os Estados Unidos”. A despedida foi um longo abraço. Esse gesto tão carinhoso e a deferência de priorizar a nossa entrevista mesmo naquelas circunstâncias me cativaram; só fizeram aumentar o meu respeito e admiração por ele. Sei que Arafat não é unanimidade entre os palestinos. Que grande líder o é? Talvez ele tenha confiado demais na correção dos adversários com os quais, anos mais tarde, se reuniu e que o traíram e acabaram assassinando-o. Hoje está demonstrado que ele foi envenenado. Mas ninguém pode negar que a sua entrega à causa palestina foi o eixo de sua vida e que assim ele se tornou um símbolo para o mundo. O genocídio de que é vítima hoje o povo palestino nos conclama a não nos omitir e a denunciar, com todas as nossas forças, os seus perpetradores e os seus aliados! Além de ser um dever, também é um tributo à memória de Yasser Arafat.

Em seu trabalho sobre a continuidade e ruptura na diplomacia do Sul, a senhora identifica os BRICS como herdeiros do “Espírito de Bandung” e da busca por novas regras na economia internacional. Diante da recente expansão para o BRICS+, como manter a coesão desse legado de soberania e não-alinhamento em um bloco com interesses geopolíticos e regimes tão heterogêneos?

A Conferência realizada em Bandung, Indonésia, de 18 a 24 de abril de 1955, reuniu líderes de 30 estados asiáticos e africanos, recém-independentes, e de representantes de movimentos de libertação. Em conjunto, representavam um bilhão e 350 milhões de seres humanos! Uma conferência inédita, só superada em número e representatividade dos participantes pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Simbolicamente, ela anunciava o momento em que uma significativa parcela da Humanidade tomava consciência de seu papel e fazia ouvir sua voz. Em plena Guerra Fria, o “espírito de Bandung” marcou o processo de libertação do mundo colonial e definiu o caminho para a inserção internacional dos países que, dando seguimento a esse legado, fundaram em 1961 o Movimento Não Alinhado, com uma condenação explícita ao racismo, ao colonialismo e ao imperialismo.

O processo de tomada de consciência dos desafios e das potencialidades dos países recém-independentes levou, nos anos 1970, no auge de sua atuação, o Movimento dos Países Não Alinhados a adotar duas importantes reivindicações: a implementação de uma Nova Ordem Econômica Mundial (NOEM) e de uma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (NOMIC). A primeira era uma crítica às regras de jogo da economia e das finanças internacionais herdadas da Segunda Guerra Mundial, com propostas visando a valorização e industrialização das matérias-primas (os recursos naturais, extraídos pelas grandes corporações das antigas metrópoles coloniais, mantendo as relações de dependência com as ex-colônias). A segunda proposta visava equilibrar a produção e o acesso à informação entre os países desenvolvidos e o então chamado Terceiro Mundo (conceito parcialmente incorporado hoje na ideia de Sul ou Sul Global), com uma condenação à atuação dos grandes monopólios informativos internacionais.

O diagnóstico do Movimento Não Alinhado era correto, tanto em relação ao tema das necessárias mudanças na arquitetura da economia mundial quanto às nefastas consequências da concentração informativa em poucas agências e veículos do Norte. Mas a correlação de forças naquele momento histórico não permitiu a implementação dessas alternativas, nem no plano econômico, nem no terreno das comunicações. O próprio movimento foi se enfraquecendo, diante dos impasses políticos e econômicos, e pouco a pouco perdeu protagonismo no cenário internacional.

No entanto, nas primeiras décadas do século XXI, o mundo já era bem diferente daquele das décadas de 1950 a 1990 do século passado. Países do Sul Global, em função de avanços relativos conquistados nesse período, transformaram-se em potências de médio porte e passaram a ser identificados como líderes de suas respectivas regiões. De forma concomitante, as suas respectivas lideranças passaram a identificar interesses comuns no cenário internacional… E daí surge o processo, já conhecido, da formalização do bloco dos BRICS.

E o sucesso dos BRICS, como é natural, atraiu novos parceiros. Foi assim também com o Movimento Não Alinhado. Não tinham todos os membros do movimento as mesmas definições ideológicas, nem os mesmos sistemas de governo, nem a mesma religião, mas havia interesses comuns e tinham em comum a rejeição ao colonialismo, ao imperialismo e ao racismo. Em particular, estavam unidos pela necessidade de enfrentar o trágico legado colonial e o presente, desafiado pela exploração neocolonial.

Em 2025, setenta anos depois da Conferência de Bandung, muitos dos problemas que foram objeto de análise e debate naquele encontro pioneiro continuam desafiando a maior parte da Humanidade. Mas hoje a correlação de forças é diferente. Os BRICS têm a capacidade que nunca teve o Movimento Não Alinhado de, por exemplo, financiar grandes projetos de desenvolvimento, seja com bancos estatais dos seus membros, em particular da China, seja através do Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como banco dos BRICS.

Será o crescimento dos BRICS e a sua diversificação um empecilho para o seu sucesso? É uma questão em aberto. Mas a experiência histórica nos mostra que não foi a diversidade dos países membros do Movimento Não Alinhado o fator que lhe fez perder o seu dinamismo e a sua relevância: foram os fracassos nas suas tentativas de mudar as regras do jogo nas relações com o mundo desenvolvido, nos dois terrenos vitais para o desenvolvimento equitativo, a economia junto com as finanças e a comunicação.

Por enquanto, os BRICS têm conseguido avanços significativos no terreno econômico e financeiro, impulsionando o comércio com o uso de moedas próprias, financiando projetos de infraestrutura e buscando um sistema alternativo ao SWIFT utilizado pelas instituições financeiras capitalistas globais. Se eles continuarem avançando nessa direção, com capacidade real de criar alternativas nesses terrenos, dificilmente diferenças ideológicas ou políticas falarão mais alto.

No capítulo The Concept of Sovereignty and the Experience of the South (2025), a senhora propõe ampliar o conceito de soberania para incluir o direito explícito dos Estados sobre seus recursos naturais para o desenvolvimento. De que forma essa reformulação teórica pode fortalecer juridicamente os países do Sul contra intervenções estrangeiras que se legitimam sob justificativas humanitárias?

Em teoria, o sistema internacional moderno está formado por Estados soberanos com autoridade exclusiva sobre seus territórios, a partir de fronteiras definidas e reconhecidas. Mas essa não é a experiência histórica da maior parte dos países do Sul, ou do Terceiro Mundo, como eram chamados nos anos 60–90 do século passado.

Com poucas exceções, pelo menos desde a segunda metade do século XX, as violações da soberania sofridas por Estados independentes ocorreram em países do Sul. Essas intervenções, sejam elas propiciadas por antigas potências coloniais, pelos novos hegemons ou por alianças militares de várias potências, geralmente têm como objetivo neutralizar uma decisão soberana do país atacado relativa aos seus recursos naturais. E sabemos bem que, na maioria dos casos, as intervenções estrangeiras são disfarçadas com justificativas humanitárias. Na realidade, o princípio da igualdade entre os Estados-membros da ONU nunca foi respeitado pelos mais poderosos.

Isso me lembra os ensinamentos de Confúcio, o sábio chinês nascido em 551 a.C., cuja influência ainda é muito significativa não só na China, mas em toda Ásia. Ele defendia a sinceridade como a base dos procedimentos corretos nas relações sociais. A “necessidade de dizer as coisas por seu nome” é um dos pilares da filosofia confucionista, conhecida como a doutrina da Retificação dos Nomes (Zhengming). Para Confúcio, a desordem social, política e moral resulta da falta de correspondência entre a realidade e as palavras utilizadas para descrevê-la: chamar as coisas pelo seu nome é uma questão de integridade. Quando as palavras perdem o significado ou são usadas para esconder a realidade, em especial as injustiças, o caos se instala.

Que sábio e singelo conceito! Se aplicarmos os ensinamentos de Confúcio, seria necessário reconhecer que, se o interesse das potências imperialistas está em jogo, o conceito de soberania perde validade. Temos o recente caso da agressão à Venezuela por parte dos Estados Unidos e do sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cília Flores. Seguindo as lições de Confúcio, nos perguntamos: qual o motivo? Petróleo!

Em resposta anterior, mencionei a importância do legado da Conferência de Bandung e dos Não Alinhados. A experiência de participar do convívio mundial como países independentes e supostamente soberanos mostrou aos países do Terceiro Mundo que a soberania não ficaria completa até que eles pudessem assumir o controle de seus recursos naturais e de sua economia — o que significava romper definitivamente a dependência das antigas metrópoles.

Hoje torna-se claro que a Carta das Nações Unidas, assinada em junho de 1945 e ratificada pelos 51 países que existiam na época, já não reflete a nova configuração do mundo. Como resultado, a própria organização ficou sem instrumentos para responder a situações cada vez mais conflituosas, perdendo gradualmente a sua eficiência e credibilidade. Com uma ONU composta atualmente por 193 membros plenos, além de observadores, a revisão da Carta e da estrutura da organização está na agenda mundial há tempos. Num momento em que assistimos ao desmantelamento dos alicerces do direito internacional, onde nem mesmo a questionável “ordem internacional baseada em regras” definida pelos Estados Unidos vigora, faz-se evidente que não só o conceito de soberania deve ser revisado. Mas, quando houver condições para promover uma iniciativa internacional destinada a atualizar a Carta e a estrutura das Nações Unidas — uma meta que hoje faz parte, por exemplo, da plataforma dos BRICS — o conceito de soberania, central do convívio internacional, sem dúvida deverá ser definido com clareza e com a amplidão necessária. Tradicionalmente, afirma-se que “soberania é o poder supremo, absoluto e independente de um Estado para governar seu próprio território”, etc. A nova redação deveria incluir de forma explícita o direito de cada Estado de dispor dos seus recursos naturais para promover o seu desenvolvimento.

Analisando seu artigo sobre como a parceria estratégica entre China e Rússia pode mudar o futuro da Eurásia, qual é a sua avaliação sobre o risco de o Sul Global migrar de uma dependência ocidental para uma nova centralidade asiática, sem necessariamente atingir uma autonomia sistêmica real?

Estudos recentes mostram a profundidade das mudanças no cenário internacional. Podemos citar os que afirmam, com base em projeções do FMI, que pela primeira vez em séculos o Produto Interno Bruto dos países do Sul Global ultrapassou o dos países do Norte Global. Uma expressão muito instigante dessas mudanças é a reivindicação do ex-diplomata de Singapura, atualmente professor emérito no seu país, Kishore Mahbubani, de que o assento permanente do Reino Unido no Conselho de Segurança da ONU passe a ser ocupado pela Índia, como parte das reformas necessárias na estrutura das Nações Unidas. “Não há dúvida alguma de que a Índia é hoje a terceira economia mais poderosa do mundo”, afirma Mahbubani. Para o ex-diplomata, o Conselho de Segurança da ONU precisa de reformas urgentes e a Índia deve obter o seu lugar de direito como membro permanente do órgão máximo da organização. “A economia da Índia já ultrapassou a do Reino Unido e, até 2050, espera-se que seja quatro vezes maior do que a britânica”, afirma o ex-diplomata. Em 1945, as maiores potências se reservaram o direito de ter assentos permanentes e poder de veto no Conselho de Segurança. É hora de adotar os mesmos critérios hoje, reconhecendo o lugar que corresponde às potências do século 21.

Optei por começar a minha resposta com estes exemplos porque a aliança estratégica entre a China e a Rússia é consequência e, ao mesmo tempo, expressão das profundas mudanças em curso na geopolítica mundial. Por primeira vez em séculos — pensemos na icônica data de 1492! — o predomínio ocidental no mundo parece estar chegando a um fim. E essa mudança não terá somente um significado geopolítico, também poderá levar à superação do mito da “supremacia da raça branca”, alicerce da justificativa da dominação colonial e neocolonial. Se o historiador Eric Hobsbawn chamou o século 19 de “o século da Europa” e o século 20 foi por ele definido como o “século americano” (dos Estados Unidos), no futuro o século 21 será visto como “o século da Ásia”?

É nesse contexto que deve ser analisada a crescente cooperação entre Rússia e China, definida pelos respectivos chefes de Estado como uma “aliança estratégica”. Por que vincular essa aliança a um novo cenário geopolítico? Porque o Ocidente demonstra não estar preparado (nem resignado) à perda de hegemonia diante do maior peso do continente asiático na economia mundial e das consequências dessa mudança. O exemplo mais evidente é a contínua expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN; em inglês, NATO — North Atlantic Treaty Organization), que deveria ter se dissolvido, como aconteceu com o Tratado de Varsóvia, depois do fim da União Soviética. Mas, ao contrário de desaparecer, a OTAN avançou ano após ano na direção do Oriente.

A partir dos primeiros anos do século 21, a China e a Rússia, superadas as questões fronteiriças e algumas divergências menores em outras esferas, optaram por se fortalecer mutuamente assinando acordos de envergadura em áreas estratégicas — energia e segurança, em particular. O processo avançou para o nível de aliança estratégica com a chegada ao poder de Xi Jinping e sua sintonia com o presidente Vladimir Putin.

Ambos os países também são membros de acordos regionais como a Organização de Cooperação de Xangai (Shanghai Cooperation Organization, SCO), fundada em 2001, chamada em meios de comunicação ocidental de “a OTAN do Oriente”. Ela é, de fato, uma instância chave de articulação euroasiática, mas não tem poder militar, nem objetivos, nem “modus operandi” comparáveis aos da aliança militar do Ocidente.

A China é hoje a principal parceira comercial da Rússia e detalhe importante: os projetos de cooperação são efetivados através de pagamentos recíprocos utilizando as moedas nacionais, pois um dos objetivos da Rússia e da China é diminuir a influência do dólar no comércio internacional e, ao mesmo tempo, evitar riscos cambiais. O fundamento dessa decisão torna-se evidente diante das sanções impostas à Rússia pelos Estados Unidos e seus aliados e das retaliações comerciais em relação à China. A Rússia e a China também são membros fundadores dos BRICS e, nesse contexto, reafirmam constantemente o seu compromisso com os princípios fundamentais do direito internacional e com o papel central das Nações Unidas, acrescentando que os países do bloco rejeitam “a política de pressões coercitivas e de cerceamento da soberania de terceiros Estados”.

Mas é pertinente perguntar o que significará para a Humanidade como um todo a emergência da Ásia e, particularmente, a aliança estratégica Rússia-China, potências de primeira grandeza. Será a repetição de um ciclo de dominação com novos amos? Pessoalmente, me somo aos estudiosos que se apoiam na história e na atuação no presente para afirmar que nem a China nem a Rússia têm atuação comparável às potências ocidentais na relação com o resto do mundo, nem manifestam vocação de conquista colonial ou exploração neocolonial. (Não é diretamente o tema que estamos tratando, mas já deixo claro que não interpreto a guerra na Ucrânia como uma expressão da ambição de conquista territorial por parte da Rússia, mas como fruto de um contexto originado por diversas variáveis, entre elas a expansão da OTAN).

Praticamente até o fim do século 18, a China foi uma das nações mais poderosas do mundo. Mas não há registros de colonização ou agressão contra outros países. A diplomacia da China hoje é fruto do legado cultural milenar de uma nação que sofreu a exploração do Ocidente e se reergueu apelando à sua história e suas tradições. Em particular, a proposta do presidente Xi Jinping de uma “Comunidade Global de Futuro Compartilhado”, conceito central da diplomacia chinesa, deixa claro o quanto a proposta é alicerçada no anseio de reformular a governança global através da cooperação mútua, do respeito à soberania e do desenvolvimento sustentável, promovendo um mundo multipolar como alternativa ao confronto de blocos e ao protecionismo. Todas as manifestações e documentos oficiais chineses trabalham com a ideia da cooperação para a procura de um futuro de justiça para todos. E a mesma proposta está presente nos documentos assinados de forma conjunta com a Rússia.

Não vejo sustentação na história, nos fatos do presente nem nos documentos emitidos pelos respectivos governos, elementos que justifiquem o temor de uma repetição da história de Ocidente, de dominação e exploração, com variável oriental. Pelo contrário, a análise indica uma consciência de que os limites do nosso planeta exigem pensar num futuro comum para toda a Humanidade. E admitir que a resposta aos desafios atuais não virá do confronto, mas da cooperação.

Um dos seus projetos investiga como as teorias de pensadores do Sul Global contribuem para criar “gramáticas de transformação social”. Como essas ferramentas decoloniais podem ser traduzidas em estratégias diplomáticas concretas para que países latino-americanos e africanos superem a condição de subalternidade acadêmica e política?

Em primeiro lugar, necessito registrar que me resulta difícil concordar com a afirmação de que os países latino-americanos e africanos apresentam a condição de subalternidade acadêmica e política.

Lembremos que o termo foi utilizado inicialmente por Antônio Gramsci, na obra “Cartas do Cárcere” (1947). Como filósofo marxista, Gramsci utilizou o termo subalterno para se referir a uma categoria cuja voz não era ouvida e não participava do poder. No contexto de sua obra, entende-se como uma referência ao proletariado. A utilização posterior do termo, principalmente por estudiosos indianos, entre os quais particularmente Gayatri Spivak, com o seu livro “Pode o subalterno falar?”, ampliou o conceito e, em certa medida, o popularizou. Mas também colocou maior peso na condição de inferioridade, subordinação e dependência do subalterno em relação a um grupo dominante.

Daí a necessidade de questionar se a produção acadêmica e a atuação política dos países latino-americanos e africanos podem ser qualificadas de subalternas. Penso que não.

Tanto no terreno das ciências humanas quanto das ciências puras ou fundamentais e das ciências aplicadas, a América Latina e a África têm inúmeras e valiosas contribuições. As nossas universidades, assim como muitas das universidades africanas, estão muito bem avaliadas no ranking global. Aliás, eu faço questão, com os meus alunos, de registrar que houve universidades no continente africano antes de terem sido fundadas universidades no continente europeu.

A percepção dessa suposta subalternidade origina-se, em boa medida, na política dos centros de produção de conhecimento do Norte que criam muitas dificuldades para acolher e valorizar as contribuições vindas das nossas regiões. Também contribui para essa dificuldade certa atitude de círculos acadêmicos mais tradicionais dos nossos países, abertos a acolher como válido o que é oriundo do Norte e menos propícios a reconhecer o valor e a importância da produção dos nossos pesquisadores, acadêmicos e estudiosos. Afortunadamente, isso está mudando e mudando rapidamente.

Mas, indo ao cerne da sua questão, as ferramentas decoloniais não estão pensadas para ter impacto direto na diplomacia ou em outras áreas da política. Mas, citando aquele ditado que diz “os livros não mudam a sociedade, mas mudam a cabeça dos que podem mudar a sociedade”, eu diria que essa ideia se adapta perfeitamente ao impacto das obras dos pensadores do Sul Global conhecidas como teorias decoloniais. Uma frase que nos ajuda a entender o que essas obras representam é a afirmação do sociólogo peruano Anibal Quijano que diz “continuamos a ser o que não somos” … Ou dito de outra forma: continuamos a nos ver através das lentes de quem nos definiu de fora. E quem falou por nós? Quem nos tirou a voz? O poder colonial e o sistema de dominação neocolonial, que se perpetuou depois das nossas independências, não só através da espoliação econômica, mas utilizando um mecanismo mais perverso: a imposição de visões de mundo e de valores nos quais somos apresentados sempre como inferiores. Hoje, a mídia multiplica esse poder de submeter os nossos corações e mentes.

As teorias decoloniais dissecam esses mecanismos de perpetuação da dominação; nos fazem questionar aquilo que tínhamos como a única forma de nos ver, de interpretar a nossa história. E, ao fazê-lo, criam as condições para que cada um de nós, com senso crítico, conhecimento histórico e pensamento articulado, questione o presente para construir um novo futuro.

Com base nas pesquisas desenvolvidas no âmbito do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e as Relações Sul-Sul (NIEAAS), que você coordena, onde é estudada a atuação da mídia hegemônica, é possível afirmar que a persistência de narrativas baseadas no “choque de civilizações” ainda atua como uma barreira invisível para uma integração Sul-Sul mais profunda no século XXI?

O “choque de civilizações” foi uma teoria proposta pelo cientista político Samuel P. Huntington, segundo a qual as identidades culturais e religiosas dos povos seriam a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria. Essa formulação serviu perfeitamente a um projeto dos Estados Unidos e dos seus aliados que foi por eles chamado de “guerra ao terror”. Essa guerra tinha como inimigo preferencial o mundo muçulmano, ou melhor, o Islã, assim, sem definições nem delimitações claras. Ou seja, omitia-se dizer, dentro do conglomerado humano dos seguidores da religião muçulmana, que atualmente superam os 2 bilhões de pessoas, ou 25% da população global, quem era efetivamente o inimigo a ser perseguido.

Além de ser uma construção teórica que serviu a uma estratégia política cujas trágicas consequências foram milhões de mortos e a destruição de vários países (Afeganistão, Iraque, Líbia), o “choque de civilizações” se fundamentava nas diferenças culturais como principais fontes de conflitos. Mas, ao colocar a religião muçulmana como esse “outro” tão diferente culturalmente que só o conflito poderia se esperar na relação com o Ocidente, a teoria partia de um equívoco: a suposta “alteridade absoluta” entre o pensamento muçulmano e o pensamento cristão.

Para mostrar o quanto essa suposição é equivocada e ignora a história, é importante lembrar que Aristóteles foi estudado, traduzido e comentado em Bagdá (e no mundo islâmico em geral) séculos antes de suas obras serem reintroduzidas e estudadas na Europa Ocidental cristã. Durante a “Idade de Ouro” do Islã, especialmente na Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma) fundada no século IX pelos califas em Bagdá, eruditos árabes traduziram a maioria das obras de Aristóteles do grego para o árabe. Aristóteles era conhecido no mundo muçulmano como “O Filósofo” ou “O Primeiro Mestre” e teve profunda influência em pensadores como Al-Kindi, Al-Farabi, Ibn Sina (Avicena), Ibn Rushd (Averróis) muito antes de a Cristandade redescobrir a sua obra. Na Alta Idade Média (após a queda do Império Romano), na parte ocidental do continente europeu, se perdeu o conhecimento do grego e somente algumas obras de Aristóteles foram preservadas. A maior parte do corpus aristotélico só chegou à Europa nos séculos XII e XIII, principalmente através de traduções do árabe para o latim realizadas em Al Andalus, a Península Ibérica muçulmana. Foi esse processo que permitiu a obra de Aristóteles impactar a filosofia escolástica europeia, particularmente pensadores como São Tomás de Aquino.

Ou seja, há na base do pensamento muçulmano e do pensamento cristão influências gregas comuns, de Aristóteles em particular. Isso sem entrar no terreno religioso, estritamente, que não é o meu campo de estudo, mas a respeito do qual posso comentar a importante devoção dos muçulmanos à Virgem Maria, mãe de Jesus. Se a superação dos estereótipos e das deturpações fosse um objetivo real da mídia e de outros atores — as redes sociais, por exemplo — avançaríamos muito na correta compreensão das diferentes tradições culturais e religiosas e, em consequência, no respeito mútuo. Lamentavelmente, salvo exceções, nos defrontamos hoje com a atitude oposta, de exaltação das supostas diferenças, porta de entrada para a discriminação e a violência.

Mas vejo com otimismo nas novas gerações uma atitude aberta ao conhecimento de outras culturas e tradições. As universidades têm um importante papel a desempenhar nesse terreno, através do incentivo aos intercâmbios acadêmicos e à recepção de professores visitantes de diferentes experiências e formações. A ampliação desse intercâmbio é fundamental, em particular com os países latino-americanos e africanos, com os quais o Brasil tem tanto em comum.


Para maiores informações, este historiador recomenda que todos os interessados e interessadas busquem no Repositório de “Múltiplos Acervos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)” 

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Por que a Argentina está em greve geral

Avança, no Congresso, projeto de desmonte de Milei – pior que o vivido pelo Brasil. Permite jornadas de até 12 horas. Legaliza “autônomos” precarizados e reduz indenização por demissões. Quase elimina acordos coletivos. Trabalhadores respondem em luta

Uma greve geral contra uma reforma trabalhista proposta pelo governo de Javier Milei paralisa trens, portos, aeroportos e o transporte público na Argentina nesta quinta-feira (19). No início desta tarde, grupos políticos sindicatos, organizações sociais começam a encher a Praça do Congresso, em Buenos Aires, para acompanhar sessão na Câmara dos Deputados para discutir a reforma trabalhista do Governo. Como já de praxe neste governo, Congresso está cercado por blindados e a polícia pronta para aplicar “protocolo anti-protesto”.

Direitos desfeitos entre a madrugada e a manhã seguinte

Na madrugada de 12 de fevereiro de 2026, enquanto canhões de água e gás lacrimogêneo dispersavam manifestantes na Plaza de los Dos Congresos, o Senado argentino aprovou por 42 votos a 30 o projeto de reforma trabalhista do governo de Javier Milei. A votação ocorreu após 14 horas de debates e 50 concessões negociadas com governadores provinciais e setores do peronismo. Do lado de fora, cerca de 300 pessoas foram feridas e ao menos 70 detidas. A imagem de trabalhadores, aposentados e estudantes enfrentando a polícia de choque não é apenas o registro de um conflito pontual. Ela diz algo sobre como direitos conquistados ao longo de décadas podem ser desmontados numa única sessão legislativa, sob a proteção de forças de segurança armadas contra os próprios cidadãos que aquelas leis deveriam proteger.

O texto aprovado modifica a legislação trabalhista argentina vigente desde a década de 1970 e segue agora para a Câmara dos Deputados. As mudanças incluem a ampliação do período de experiência para até 12 meses em microempresas, a criação de um banco de horas que autoriza jornadas de 12 horas diárias, a fragmentação das férias em blocos mínimos de sete dias a critério exclusivo do empregador e a redução do cálculo de indenizações por demissão, que passa a excluir o 13º salário e a limitar a antiguidade a dez anos. A reforma cria um Fundo de Assistência Laboral financiado por contribuições patronais entre 1% e 3%, muito inferiores aos 8% do FGTS brasileiro. Permite o parcelamento de indenizações em até 18 vezes para microempresas. E classifica os trabalhadores de plataformas digitais como autônomos por força de lei, retirando-os da proteção da legislação trabalhista. Quem se lesionar ou adoecer fora do horário de trabalho receberá apenas 50% do salário.


Para entender o alcance dessas medidas, é preciso escutar as vozes de quem vive e estuda o mercado de trabalho argentino. Daniel Schteingart, diretor do think tank Fundar e doutor em Sociologia, documentou que a economia argentina cresceu em 2025 enquanto o emprego formal privado encolheu, algo que, segundo ele, não ocorria há pelo menos três décadas. Schteingart argumenta que a reforma pode alterar quantos empregos formais cada ponto de crescimento gera, mas que a geração de empregos depende do ciclo econômico, não da redução de direitos. Sebastián Etchemendy, professor da Universidad Torcuato Di Tella e também pesquisador da Fundar, organizou uma proposta alternativa intitulada “Una reforma laboral para la inclusión y el crecimiento”, na qual defende que reformas trabalhistas eficazes são aquelas que melhoram a qualidade do emprego, e não as que rebaixam proteções. Etchemendy comparou a direção adotada por Milei com a tendência oposta observada na Espanha, no Chile, no México e nos Estados Unidos, onde reformas recentes fortaleceram sindicatos e direitos dos trabalhadores.

A crítica se estendeu ao campo jurídico. A Asociación de Abogadas y Abogados Laboralistas (AAL), presidida por Guillermo Pérez Crespo, emitiu comunicado afirmando que nenhum dos conteúdos do projeto é compatível com os tratados internacionais ratificados pela Argentina, as convenções da OIT e a Constituição Nacional. Matías Cremonte, presidente da Asociación Latinoamericana de Abogados y Abogadas Laboralistas (ALAL), organizou audiência internacional no Congresso argentino com juristas de dez países e declarou que a magnitude da reforma terá consequências trágicas se transformada em lei. Roberto Pompa, ex-juiz da Câmara Nacional de Apelações do Trabalho e presidente da Asociación Latinoamericana de Jueces del Trabajo, citou estudo da OIT envolvendo 63 países para afirmar que nenhuma reforma trabalhista que rebaixou direitos conseguiu aumentar o emprego. O Centro de Economía Política Argentina (CEPA) publicou relatório demonstrando que a reforma transfere recursos do trabalho para o capital e estimou que a redução de contribuições patronais representaria um custo fiscal de mais de dois bilhões de dólares anuais, desfinanciando o sistema previdenciário e a saúde pública.

O Brasil conhece esse roteiro. A reforma trabalhista de 2017 (Lei 13.467/2017) alterou mais de 100 dispositivos da CLT com promessas de geração de empregos e formalização do mercado de trabalho. Passados oito anos, o balanço é desigual. Krein (2018) argumentou que a reforma brasileira promoveu o desmonte de direitos e o esvaziamento da ação coletiva, com impacto direto na capacidade dos sindicatos de negociar em condições minimamente equilibradas. Galvão et al. (2019) demonstraram que a precarização do trabalho se aprofundou e os sindicatos enfrentaram perdas de receita superiores a 80% com o fim da contribuição sindical obrigatória. O contrato intermitente, peça central da promessa de formalização, representou menos de 2% dos novos vínculos formais após três anos de vigência. Druck, Dutra e Silva (2019) analisaram como a terceirização irrestrita, liberada para todas as atividades inclusive a atividade-fim, consolidou a precarização como regra nas relações de trabalho brasileiras. O paralelo com a Argentina é direto, mas a reforma de Milei avança em pontos onde a brasileira parou.

A tabela a seguir permite visualizar as diferenças e semelhanças entre as duas reformas. Alguns elementos saltam aos olhos. O período de experiência argentino, de até 12 meses para microempresas, não encontra paralelo no Brasil, onde os 90 dias da CLT permaneceram intactos. A classificação legal dos trabalhadores de plataformas como autônomos é uma novidade argentina que o Brasil ainda não formalizou em nível federal. E a eliminação da ultratividade dos acordos coletivos na Argentina vai além do “negociado sobre o legislado” brasileiro, pois remove a proteção que mantinha as condições anteriores vigentes até a celebração de novo acordo. São dois países que compartilham a mesma receita de austeridade aplicada aos direitos trabalhistas, mas com dosagens distintas.

Tabela 1. Comparativo entre a reforma trabalhista argentina (2026) e a reforma trabalhista brasileira (2017)

DimensãoArgentina (Milei, 2026)Brasil (Lei 13.467/2017)
Período de experiência6 meses (padrão), 8 meses (PMEs), até 12 meses (microempresas)90 dias (inalterado pela reforma)
Indenização por demissãoBase reduzida (exclui 13º e bônus), teto de 10 anos de antiguidade, parcelamento em até 18 vezes, Fundo de Assistência Laboral (1% a 3%)FGTS mantido (8%), rescisão por acordo mútuo (multa de 20%), fim da homologação sindical obrigatória
Negociação coletivaFim da ultraatividade dos acordos, acordo de empresa prevalece sobre o setorial, sindicatos de empresa podem substituir sindicatos de categoriaNegociado prevalece sobre o legislado em 15 matérias, acordo de empresa prevalece sobre convenção setorial
Jornada de trabalhoBanco de horas com jornadas de até 12 horas diárias, férias fragmentadas em blocos de 7 dias a critério do empregadorJornada 12×36 formalizada, banco de horas individual, férias em até 3 períodos (mínimo de 5 dias)
Terceirização e plataformasTerceirização ampla, trabalhadores de plataformas classificados como autônomos por leiTerceirização irrestrita (inclusive atividade-fim), sem regulação federal específica para plataformas
Contribuições sindicaisObrigatórias, mas limitadas a 2% do salário por dois anosContribuição sindical obrigatória abolida (tornada voluntária), queda de 80-90% na receita sindical
Direito de greveFuncionamento mínimo de 75% em ‘serviços essenciais’ (lista ampliada para incluir educação, telecomunicações, aviação)Sem alteração específica pela reforma de 2017
Elaboração própria a partir do texto da reforma argentina (2026), da Lei 13.467/2017 (Brasil), de relatórios do CEPA (2025) e de Fundar (2024).

A economia política da precarização e suas promessas vazias

A história dos direitos trabalhistas na América Latina não pode ser contada apenas pela perspectiva das instituições que os criaram. Ela precisa ser compreendida a partir da experiência concreta de quem os conquistou. Na Argentina, as leis trabalhistas que datam da década de 1970 não caíram do céu burocrático. Foram arrancadas por gerações de trabalhadores organizados em sindicatos, movimentos e greves que moldaram a vida social do país. Quando uma reforma propõe desmontar essa legislação em nome da “modernização”, o que está em jogo não é uma mera atualização técnica. É a reconfiguração das relações de poder entre quem trabalha e quem lucra com esse trabalho. Filgueiras, Lima e Souza (2019) mostraram, no contexto brasileiro, que reformas trabalhistas flexibilizadoras não produzem os efeitos prometidos sobre o emprego e que os impactos recaem de forma desproporcional sobre os trabalhadores mais vulneráveis.

Os dados do mercado de trabalho argentino sob Milei revelam o que o discurso oficial tenta ocultar. Segundo levantamentos da Fundar e do CEPA, a Argentina perdeu cerca de 300 mil empregos formais assalariados desde dezembro de 2023, quando Milei assumiu a presidência. O setor privado respondeu pela maior parte dessas perdas, com quase 200 mil postos eliminados. A construção civil, duramente atingida pela política de obra pública zero, perdeu mais de 76 mil vagas formais. A indústria manufatureira encolheu em mais de 55 mil postos. Schteingart documentou um fenômeno inédito na história econômica recente da Argentina, em que o PIB cresceu ao mesmo tempo em que o emprego formal privado caiu, configurando o que analistas chamaram de recuperação em formato de K. Os setores voltados à exportação e com poucos empregos, como agricultura, energia e mineração, cresceram, enquanto os setores intensivos em mão de obra permaneceram em recessão.


O CEPA estimou que a redução de contribuições patronais prevista na reforma custaria mais de dois bilhões de dólares anuais ao sistema previdenciário argentino, ao PAMI (sistema público de saúde para idosos) e às asignaciones familiares. A compensação fiscal não está prevista. Na prática, o Estado financia a redução de custos para empregadores com recursos que deveriam sustentar aposentadorias e saúde pública. Fontainha, Rodrigues e Fernandes (2021) demonstraram que a reforma brasileira de 2017 produziu efeito semelhante sobre a Justiça do Trabalho, com queda de 34% no fluxo processual do TRT da 1ª Região (Rio de Janeiro), indicando não a redução de conflitos, mas a inibição do acesso à justiça por parte dos trabalhadores.

A questão sindical é outro ponto de convergência entre as duas reformas. Abílio (2020) analisou como a uberização do trabalho produz uma nova forma de controle da força de trabalho, na qual o trabalhador assume os riscos e os custos da atividade produtiva enquanto a plataforma concentra o poder de organização e remuneração. A reforma argentina formaliza essa lógica ao classificar motoristas e entregadores de aplicativos como autônomos. A eliminação da ultraatividade dos acordos coletivos e a possibilidade de sindicatos de empresa substituírem os sindicatos setoriais fragmentam a organização dos trabalhadores e enfraquecem a negociação coletiva. Galvão et al. (2019) descreveram processo análogo no caso brasileiro, onde o fim da contribuição sindical obrigatória e a prevalência do negociado sobre o legislado produziram um esvaziamento da capacidade de ação coletiva dos sindicatos.

A promessa de que a redução de custos trabalhistas gera empregos formais se repete de país em país, de década em década. A experiência argentina dos anos 1990, sob as reformas flexibilizadoras daquele período, oferece evidência concreta do contrário. Aquelas reformas coincidiram com desemprego superior a 24% e informalidade próxima a 50%. A reforma brasileira de 2017 também não entregou a geração de empregos prometida. O que se repete é o padrão de transferência de custos dos empregadores para os trabalhadores e para o sistema público, enquanto os indicadores de emprego formal permanecem estagnados ou em queda. A Argentina de Milei, ao aprovar essa reforma no mesmo momento em que destrói 300 mil postos formais, não está resolvendo a crise do mercado de trabalho. Está aprofundando as condições que a produziram.

Os corpos que pagam a conta. Juventude, gênero e raça no mercado de trabalho

Quem mais sofre com a precarização do trabalho são os jovens. Na Argentina, o desemprego entre pessoas de 15 a 24 anos alcança 19,4%, quase o triplo da média geral. Mais de 62% dos jovens empregados trabalham na informalidade. E 60% dos jovens argentinos vivem abaixo da linha da pobreza. Esses números existiam antes da reforma e não há razão para supor que a flexibilização de direitos os reduza. Pelo contrário, o período de experiência de até 12 meses cria uma porta giratória institucional, na qual o jovem trabalhador pode ser dispensado e substituído sem custo algum para o empregador. A rotatividade se torna a norma, a estabilidade desaparece do horizonte, e a experiência concreta de trabalho se transforma numa sequência de empregos descartáveis.

A dimensão de gênero está ausente do texto da reforma, e essa ausência não é acidental. As mulheres argentinas ganham em média 27% menos que os homens, estão mais concentradas no trabalho informal e doméstico, e respondem por 68% do trabalho de cuidados não remunerado. Uma reforma que fragmenta férias, permite jornadas de 12 horas e transfere ao empregador o poder de definir quando o trabalhador descansa atinge de forma desproporcional quem já carrega a dupla jornada do trabalho produtivo e reprodutivo. A precarização não é neutra em termos de gênero. Ela se distribui de maneira desigual e aprofunda assimetrias que as leis trabalhistas anteriores, mesmo imperfeitas, tentavam mitigar. Mulheres jovens foram as mais atingidas pela crise do governo Milei, com perda de 4 pontos percentuais de participação no emprego e aumento de mais de 11 pontos percentuais na informalidade no segundo trimestre de 2024.

A questão étnico-racial é ainda mais invisibilizada. A Encuesta Permanente de Hogares do INDEC argentino não desagrega dados por raça ou etnia, produzindo um silêncio estatístico sobre populações indígenas, afro-argentinas e imigrantes que compõem parcela expressiva da força de trabalho precarizada. Dados da Organização Internacional para as Migrações indicam que 60% dos trabalhadores imigrantes na Argentina, em sua maioria de origem boliviana, paraguaia e peruana, trabalham na informalidade. O colapso do setor de construção, que eliminou mais de 76 mil vagas formais, atingiu desproporcionalmente esses trabalhadores. Uma reforma que não reconhece a composição real da classe trabalhadora argentina opera como se a desigualdade não existisse e, ao fazer isso, a reproduz.

A repressão que acompanhou a votação no Senado não é acessória ao processo legislativo. Ela é parte da mesma lógica. Desde que assumiu, Milei enfrentou três greves gerais, um recorde para qualquer presidente argentino desde a redemocratização de 1983. O Protocolo Antipiquetes, implementado cinco dias após a posse, trata qualquer protesto de rua como delito flagrante. Em dois anos, mais de 2.500 pessoas foram feridas em manifestações segundo dados da Anistia Internacional. A jornalista Érika Gimenez, que cobriu os protestos de 11 de fevereiro para a ARG Medios, relatou ao Brasil de Fato que a violência contra a imprensa foi terrível e que jornalistas e fotojornalistas são os alvos preferenciais da repressão policial. Quando o Estado reprime com essa intensidade o direito de protestar, está dizendo que os trabalhadores não têm voz nem na lei, nem na rua.

A história das relações de trabalho na América Latina nos ensina que direitos não são concessões espontâneas de governantes. São conquistas arrancadas pela luta organizada de quem depende do próprio trabalho para viver. A reforma trabalhista de Milei, assim como a brasileira de 2017, tenta inverter essa equação, apresentando a retirada de direitos como modernização e o rebaixamento de proteções como incentivo ao emprego. O que a experiência concreta de milhões de trabalhadores na Argentina e no Brasil demonstra é que essa promessa não se cumpre. O que se cumpre é a transferência de renda e de riscos para quem já ocupa a posição mais frágil na relação de trabalho. Discutir reformas trabalhistas sem considerar gênero, raça, idade e classe é operar numa abstração que convém a quem legisla de cima para baixo, mas que não corresponde à vida de quem trabalha, adoece, é demitido e precisa recomeçar.

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Que nunca nos esqueçamos de Gaza

Relatora especial da ONU, perseguida por denunciar os crimes de Israel, radiografa a Palestina hoje, quando o mundo parece esquecer o genocídio. Analisa a hipocrisia da “Junta de Paz” de Trump. E garante: “impunidade não durará para sempre”

Francesca Albanese em entrevista a Samah Salaime, no CTXT

No meio da recente conferência de Francesca Albanese na Escola de Estudos Orientais e Africanos de Londres (SOAS), o jovem sentado ao meu lado na plateia começou a chorar silenciosamente. A relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados estava falando sobre o papel do direito internacional em tempos de genocídio, mas o homem não prestava mais atenção.

Perguntei se ele estava bem e ofereci um lenço. Ele me contou que era médico de Gaza e que havia deixado a Faixa com sua esposa (também médica) nos primeiros meses da guerra.


Foi então que soube o motivo de suas lágrimas. Em dezembro de 2023, quando o exército israelense ordenou a evacuação de seu bairro no norte de Gaza, sua família reuniu seus pertences e entrou em um caminhão para escapar. Mas, enquanto isso, ele correu para a casa de seus sogros para buscar sua esposa, com quem havia se casado recentemente.

“Todos entraram no caminhão, menos eu: meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs, meus tios, minhas tias e seus filhos”, ele me contou. “Antes que eu retornasse, todos morreram em um único ataque aéreo. Eu sobrevivi por acaso. Todos morreram. Não me resta ninguém”.

Parei de ouvir a distinta palestrante e as perguntas irritantes dos membros insatisfeitos do público e continuei conversando com o médico, que me disse se chamar Abdallah. “Minha mãe tinha sua idade”, ele me disse. “Você se parece com ela. Ela tinha muito orgulho de que eu tivesse me formado em Medicina”. Ele chorou novamente e eu chorei com ele.

Abdallah e sua esposa saíram de Gaza pelo Egito. Ela conseguiu uma bolsa de doutorado; ele começará sua residência no Reino Unido. Levou dois anos para obter a permissão para trabalhar aqui como médico. Espero que uma nova vida os aguarde.

“Você tem que ir falar com ela”, eu disse quando Albanese terminou sua palestra. Ele se recusou. “Ela provavelmente já ouviu muitas histórias como a minha. Até escreveu um livro sobre o assunto”. “Não importa”, insisti. “Você tem que contar sua história a ela. Você é a pessoa sobre quem ela está falando aqui em Londres”.

A partir daquele momento, o jovem perdeu o controle do corpo. Arrastei-o pelas escadas, abrindo caminho entre a multidão que cercava Albanese. “Você precisa conhecer Abdallah, este jovem de Gaza”, eu disse em voz alta, como se fôssemos amigos de infância.

Abdallah apertou sua mão, visivelmente emocionado, e falou. Ela o ouviu, o abraçou e lhe disse: “Não se cale. Você deve contar sua história em todos os lugares. Essa é sua missão, porque ninguém o fará pelos palestinos, nem mesmo eu. Falar e compartilhar ajuda a curar suas feridas e a suportar a dor, e ajuda o mundo a compreender e a não esquecer”.


Agora, em seu segundo mandato como relatora especial, Albanese tem sido uma das críticas mais contundentes do genocídio de Israel em Gaza e de seu longo regime de ocupação e apartheid, razão pela qual teve sua entrada em Israel proibida e foi sancionada pelo governo Trump no verão passado. No entanto, ela se recusa a parar de defender e lutar pela justiça.

Em uma entrevista à +972 Magazine após sua visita a Londres, ela fala sobre a crise atual do direito internacional, sobre por que o 7 de outubro e o genocídio em Gaza devem ser um ponto de não retorno, e sobre por que a impunidade de Israel não durará para sempre.

A entrevista foi editada por questões de extensão e clareza.

Após dois anos de genocídio transmitido ao vivo e agora de uma suposta “trégua”, parece que o mundo parou de falar sobre Gaza. Como você vê a situação atual?

Entramos em uma nova fase do genocídio, longe dos olhos e ouvidos da maior parte da comunidade internacional. Acredito que isso se deve não apenas à ilusão de “paz”, mas também ao fato de que muitos jornalistas foram mortos lá. Com todas as dificuldades que a população de Gaza enfrenta, é muito difícil cobrir todos os massacres que continuam ocorrendo.

Por isso acho tão fácil continuar o genocídio enquanto o mundo segue sua rotina habitual. O mesmo ocorreu com os genocídios em Ruanda e na Bósnia: sabíamos que algo horrível estava acontecendo. E, francamente, como europeus, devemos lembrar que o mesmo aconteceu com o genocídio do povo judeu, dos roma e sinti, e do que hoje chamaríamos de comunidade queer há um século [no Holocausto]. Isso aconteceu dentro da Europa: as pessoas foram tiradas de suas casas e das ruas. As pessoas sabiam.

Não é a primeira atrocidade a ocorrer na história do mundo, mas é a primeira a ser televisionada integralmente. Gostaria de perguntar ao povo de Israel: Vocês veem o que está sendo feito em seu nome? Houve relatórios do B’Tselem e de outros grupos de direitos humanos, há soldados que romperam o silêncio e alguns até cometeram suicídio. Os israelenses sabem o que está acontecendo com o povo palestino, mas parece não importar a eles.

Após o massacre de Sabra e Shatila [em 1982], houve uma revolta, inclusive em Israel. Quando a brutalidade do exército israelense [na repressão aos protestos palestinos] durante a Primeira Intifada veio à tona, houve uma reação popular. Mas hoje em dia, até celebram as violações [de prisioneiros palestinos].

Sinto um enorme respeito por aqueles israelenses que conseguiram abrir os olhos e perceber o que estão fazendo. É importante que o maior número possível de israelenses se una à luta contra o apartheid, porque isso também é algo que os mantém cativos. Não se pode cometer crimes e atrocidades e maltratar outro povo sem perder a humanidade no caminho.

Quando era jovem, dizia a mim mesma: se tivesse vivido durante o Holocausto, teria feito algo. Por isso sigo, apesar das dificuldades, tão comprometida em documentar e denunciar com precisão o que está acontecendo nos territórios palestinos ocupados, conforme me foi confiado pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Porque “nunca mais” é todos os dias.

Posso me identificar com isso. Às vezes as pessoas me perguntam por que escrevo em hebraico, árabe e inglês. É pela mesma razão pela qual visitei Gaza poucas semanas antes do início da guerra. Se meus netos me perguntarem, quero poder contar o que fiz: informei, documentei, forneci provas e gravações, mesmo que não tenham sido suficientes para impedir o genocídio.

Parece que o direito internacional está mergulhado em uma profunda crise. As violações de Israel têm sido muito evidentes para a maior parte da opinião pública mundial, mas a lei não é aplicada nem são tomadas medidas no terreno. Em que situação isso nos deixa?

Como advogada internacional, a resposta a esta pergunta é simples para mim, porque está muito claro o que deve ser feito e a questão pode ser resolvida de acordo com o direito internacional. A presença de Israel nos territórios palestinos ocupados foi declarada ilegal pela Corte Internacional de Justiça, portanto Israel deve retirar suas tropas da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e da Faixa de Gaza. Sei que isso pode parecer uma fantasia para muitos israelenses, mas é o que deve ser feito, porque é inconcebível que a Israel [continue sendo permitido] governar militarmente o pouco que resta da Palestina.

Sei que isso não é tudo para os palestinos, mas é um começo; poderia ser um passo em direção a algo mais. Muitos pedem um Estado democrático, outros pedem dois Estados. De uma forma ou de outra, o que a CIJ declarou em julho de 2024 é que a ocupação é ilegal e deve ser desmontada total e incondicionalmente, o que significa retirar as tropas, desmantelar os assentamentos, indenizar os palestinos e permitir o retorno dos refugiados deslocados em 1967.

Você acha isso realista? A comunidade internacional pode realmente fazer com que isso aconteça?

Sem dúvida, é o que prescreve o direito internacional, segundo a interpretação do mais alto órgão judicial do mundo. Há meios pacíficos e não violentos para fazê-lo, e também se pode recorrer a medidas coercitivas quando um país representa uma ameaça à paz e à segurança como Israel faz hoje, e não apenas para a Palestina, mas para toda a região. Está bombardeando um país após o outro, respaldado pela impunidade de Estados cujos líderes pertencem ao século passado e ainda pensam com uma mentalidade colonial.

Mas a nova geração não é assim, e as pesquisas demonstram isso. Portanto, a questão não é se Israel será forçado a pôr fim às suas práticas de apartheid, mas quando. Porque as coisas vão mudar. Por isso faço um apelo aos israelenses para que se juntem a essa causa e ajudem a alcançá-la. Para isso, terão que renunciar não a seus direitos, mas a seus privilégios, privilégios que tiveram às custas de um povo inteiro.

Compreendo que muitos israelenses possam se sentir inseguros e desprotegidos. Mas é possível que nunca mais voltem a estar seguros e protegidos se continuarem a semear ressentimento ao seu redor. Há formas de garantir a estabilidade e a segurança de Israel sem oprimir outros. E ainda há tempo para experimentá-las.

No entanto, o que estamos vendo agora é como a “Junta de Paz” de Trump toma forma, criada aparentemente para supervisionar o cessar-fogo em Gaza, mas que parece ter planos que vão muito além da Faixa, chegando a rivalizar com a ONU.

O futuro de Gaza, assim como o do resto dos territórios palestinos ocupados, deve estar nas mãos dos palestinos. É sua autodeterminação. É desconcertante ver como um grupo que não emana da vontade do povo palestino se encarrega de “reconstruir” Gaza. E é preocupante ver como a ONU fica relegada a um segundo plano e como o processo é liderado por um Estado – os Estados Unidos – que não é uma parte desinteressada e que apoiou amplamente a destruição de Gaza.

A população de Gaza está extremamente exausta e traumatizada. É necessário garantir seu cuidado e bem-estar, mas isso não é visto em lugar algum [nos debates em torno da Junta de Paz]. Além disso, atrocidades foram cometidas em Gaza e precisam ser investigadas. Há evidências a serem coletadas antes que a reconstrução possa ser realizada, portanto, deve-se permitir a entrada de investigadores independentes.

Quando publiquei uma foto no Facebook de nós duas após sua palestra na SOAS, algumas de minhas colegas feministas judias israelenses me removeram de suas listas de amigos porque acreditam que você negou, mesmo que implicitamente, que o Hamas cometeu violações e outras formas de violência sexual contra mulheres israelenses em 7 de outubro ou depois. Você pode esclarecer sua posição sobre isso?

Nunca neguei que abusos sexuais tenham ocorrido. Isso foi amplamente documentado. Há provas em vídeo de [reféns] com suas partes íntimas expostas ou em contato próximo com seus sequestradores, por exemplo. Reconheci e condenei os abusos sexuais relatados pela Comissão de Investigação das Nações Unidas e me solidarizo com essas mulheres.

O que eu disse é que, pessoalmente, não vi nenhum testemunho de pessoas que foram estupradas em 7 de outubro e que, da mesma forma, não surgiu nenhuma prova de “estupros em massa” naquele dia, apesar de essa continuar sendo uma acusação recorrente.

Tenho consciência de que as vítimas de violência sexual e estupro têm dificuldades para falar, e respeito isso enormemente. Mas o que eu disse, e o que condenei, é o fato de que houve alegações generalizadas de estupros em massa, e eu disse que não há evidências disso, assim como as [alegações de] bebês decapitados ou bebês colocados em um forno. Essas são as três coisas que continuam a ser repetidas em vários países europeus, inclusive no meu.

Sempre condenei os ataques contra civis cometidos em 7 de outubro. Disse que atacar, matar e sequestrar civis é um crime de guerra. Não importa se as vítimas são palestinas ou israelenses. Na verdade, em minha primeira entrevista após 7 de outubro, meu desejo era que a comunidade internacional, inclusive aqueles que costumam ficar do lado dos palestinos, mostrasse sabedoria e compaixão, porque aquele foi um momento de enorme sofrimento para os israelenses, um que poderia tê-los aproximado dos palestinos, cujo trauma se tornou intergeracional.

Também foi um dia muito difícil para mim. Enquanto via as imagens de 7 de outubro, e durante vários dias depois, me perguntava como seria capaz de continuar fazendo este trabalho.

Hoje me pergunto: o fato de crianças palestinas serem sequestradas uma a uma no meio da noite, 700 delas a cada ano, as torna menos reféns? É menos brutal que palestinos sejam mortos aos centenas a cada dois anos quando Israel precisa descarregar seu armamento contra Gaza em mais uma guerra “preventiva”?

Por isso devemos garantir que isso seja o fim. Porque os palestinos sofreram demais, e os israelenses também. Este é o ponto de não retorno, a partir do qual devemos avançar para um lugar menos sombrio.

Mas, em vez disso, todos têm atiçado as chamas, e Israel tem recebido o apoio incondicional de grande parte do Ocidente.
É verdade. Por que se apoiaria incondicionalmente qualquer Estado? O respeito aos direitos humanos deve ser sempre uma condição para o apoio. O respeito ao direito internacional humanitário deve ser uma condição para o apoio.

De acordo com o direito internacional, um Estado tem o direito de se proteger, mas não de massacrar outro povo. Até mesmo o exército israelense [sabe] que cerca de 85% das pessoas que matou em Gaza eram civis. Por isso digo que temos que estabelecer um limite, que temos que ser racionais, que temos que reconhecer a humanidade do outro e que temos que reconhecer que Israel vem oprimindo os palestinos com práticas de apartheid há mais tempo do que muitos palestinos conseguem lembrar.

Quando as pessoas me perguntam se Israel tem o direito de existir, respondo simplesmente: Israel existe e, como membro da comunidade internacional, tem que cumprir o direito internacional. Mas o que muitas das pessoas que fazem essa pergunta parecem estar questionando é o direito de Israel existir como um Estado de apartheid, sem prestar contas. Não. Israel não tem o direito de se comportar acima da lei ou contra a lei.

Israel não é uma exceção. Deve descer de seu pedestal e perceber que, embora ainda possa contar com o apoio de líderes fortes, isso não durará para sempre. A opinião pública na Europa está mudando, e o fato de o movimento de solidariedade estar sendo severamente reprimido não ajuda a apresentar Israel sob uma luz mais favorável.

Em 2024, a Alemanha deteve mais pessoas judias do que em qualquer outro ano desde o Holocausto. Por quê? Porque se opunham à violência israelense em Gaza. O Reino Unido tem criminalizado organizações pró-palestinas e tratado ONGs e jornalistas como terroristas. A França tem proibido protestos. E a Itália tem se tornado cada vez mais rígida na negação da liberdade de expressão e de associação.

No ano passado, você escreveu um relatório investigando empresas privadas cúmplices do genocídio e da ocupação de Israel, algo pelo qual a ONU não costuma ser conhecida. Por que era importante para você ir além do nível dos governos para denunciar as empresas que se beneficiam dessas violações do direito internacional?
Passei os últimos dois anos investigando o genocídio. Em certo momento, percebi que, enquanto muita gente, inclusive israelenses, perdia sua renda, a economia palestina entrava em colapso e tanta gente morria, a bolsa israelense continuava subindo; cresceu mais de 200% de seu valor. E isso se deve ao fato de existir uma interconexão entre atores privados: bancos, fundos de pensão, empresas militares, empresas de vigilância e muitos outros estavam se beneficiando disso.

Já existia uma economia de ocupação que permitira o deslocamento e a substituição dos palestinos, então eu poderia ter escrito esse relatório anos atrás. Mas essas empresas continuaram participando mesmo quando ficou claro que Israel possivelmente estava cometendo o crime de genocídio, conforme concluiu a Corte Internacional de Justiça em suas medidas preliminares em janeiro de 2024. As normas empresariais e de direitos humanos deveriam ter levado essas empresas a interromper suas atividades nos territórios palestinos ocupados, mas elas continuaram participando. Por isso era necessário expor isso.

E não estamos falando apenas de empresas israelenses, mas também de empresas ocidentais e outras. Aqui existia a possibilidade de exigir responsabilidades além de Israel.

Como resultado de seu trabalho, você mesma foi alvo de sanções do governo dos Estados Unidos. Como isso afetou sua vida e sua capacidade de realizar seu trabalho?
A censura financeira tem enormes implicações, que afetam tanto meu trabalho quanto minha vida privada. Não posso abrir uma conta bancária em nenhum lugar, o que significa que não posso pedir um táxi, reservar um quarto de hotel nem comprar nada, a menos que possa fazê-lo em dinheiro. Também fui impedida de viajar aos Estados Unidos, e muitos cidadãos estadunidenses deixaram de se relacionar comigo porque correm o risco de serem acusados de cometer um crime grave segundo a legislação dos EUA, que acarreta uma pena de até 20 anos de prisão e uma multa de um milhão de dólares. É absurdo.

Pode-se concordar ou discordar do que digo e faço. Mas fui punida pelo meu trabalho, sem direito a apelação, sem que se provasse que eu estava errada e violando meu status na ONU, que me concede privilégios e imunidades pelas ações realizadas no contexto do meu trabalho.

Seu novo livro, When the World Sleeps: Stories, Words, and Wounds of Palestine(Quando o Mundo Dorme: Histórias, Palavras e Feridas da Palestina), será publicado em inglês em abril deste ano. Que lições você espera que os leitores extraiam dele?
O livro é uma jornada pela Palestina que nasce da minha experiência de viver lá, trabalhar lá e ser relatora especial. Queria contar a história da Palestina tal como a conheci através de diversas pessoas – palestinos e israelenses – para poder apresentar e desvendar diversos temas.

Foi um best-seller na Itália e traduzido para mais de 16 idiomas. Acredito que as pessoas gostam porque provoca um despertar e permite compreender os problemas do presente e do passado de forma holística. Tudo é colocado em contexto. É muito humano, não é crítico. Também pode ser difícil de ler, porque há histórias de crianças e de pessoas que não estão mais entre nós. Mas as pessoas parecem apreciá-lo muito.

E, por último, qual é sua mensagem hoje para os palestinos e para os israelenses que se opõem ao genocídio, ao apartheid e à ocupação?
Nós os vemos. Vocês não estão sozinhos. O movimento de direitos humanos despertou graças à Palestina e ao que aconteceu nos últimos dois anos. As pessoas agora reconhecem a interconexão entre diversas formas de injustiça e diversas formas de resistência pacífica à injustiça. Quero que essa resistência pacífica se normalize em vez da violência.

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O índice que prova: Brasil está regredindo.


11 posições perdidas enquanto o mundo avança


Saiu o ranking atualizado do Economic Complexity Index (ECI), e ele conta uma história brutal sobre a economia brasileira.

Enquanto você lia sobre PIB crescendo, inflação controlada e exportações recordes de commodities, algo muito mais importante estava acontecendo: a estrutura produtiva do Brasil regrediu.

Caímos da posição 38 para 49 no ranking global de complexidade econômica entre 2014 e 2024. Isso não é ruído estatístico. É uma década perdida na corrida que realmente importa—a capacidade de produzir bens sofisticados que o mundo quer comprar.

Hoje vou te mostrar o que o ECI revela sobre o Brasil, por que essa métrica importa mais do que PIB, e o que os países que estão vencendo estão fazendo diferente de nós.

Vamos mergulhar nisso!

O ECI mede o que realmente importa: conhecimento produtivo incorporado.

O Economic Complexity Index não mede o tamanho da sua economia—mede a sofisticação dela.

Pense assim: exportar minério de ferro é fácil.

Qualquer país com depósitos minerais consegue fazer isso. Mas produzir semicondutores, turbinas de avião, equipamentos médicos de precisão?

Isso exige uma rede densa de conhecimento produtivo, instituições, fornecedores especializados e trabalhadores qualificados que levam décadas para se construir.

O ECI captura exatamente isso—a diversidade e sofisticação dos produtos que um país consegue exportar competitivamente. E como estruturas produtivas mudam devagar, a métrica é melhor observada em horizontes longos. Por isso olhamos 2014–2024.

E o que essa década revelou? Que enquanto o Brasil falava de transformação, outros países estavam executando.

Taiwan passou a Alemanha e agora é a #2 economia mais complexa do mundo.

Em 2024, Taiwan assumiu a segunda posição no ranking global, atrás apenas do Japão.

Isso não aconteceu por acaso.

Taiwan construiu sistematicamente clusters de semicondutores (TSMC), componentes eletrônicos e equipamentos de precisão.

A Coreia do Sul subiu para #4 pelo mesmo motivo—apostou em setores de altíssima complexidade como semicondutores, baterias e displays.

A mensagem é clara: os países que lideram o ECI investiram décadas em capacidades produtivas sofisticadas. Eles não esperaram “vantagens comparativas naturais” aparecerem.

Eles as construíram deliberadamente.

Enquanto isso, a Alemanha caiu do pódio (#3 para #5), e o Brasil caiu 11 posições (38 para 49).

A diferença? Taiwan e Coreia estão subindo a escada da complexidade. Brasil e Alemanha estão, na melhor das hipóteses, parados—e na pior, descendo.

China subiu como foguete: de #30 para #21 em uma década.

Aqui está a parte que deveria te tirar o sono.

A China, que todo mundo ainda trata como “fábrica do mundo de produtos baratos”, subiu 9 posições no ECI em apenas 10 anos.

Hoje está na posição #21—e continua subindo.

Como? Investimento massivo em setores estratégicos: veículos elétricos, baterias, painéis solares, semicondutores, equipamentos ferroviários de alta velocidade, drones, robótica.

A China não está apenas produzindo mais—está produzindo coisas mais complexas. E fazendo isso em escala industrial que nenhum outro país consegue replicar.

Enquanto o Brasil comemorava safras recordes de soja, a China estava construindo a BYD, a CATL e a SMIC.

Enquanto discutíamos reforma tributária, eles estavam dominando cadeias globais de tecnologia verde.

A trajetória é clara: em 10-15 anos, a China estará entre as 10 economias mais complexas do mundo.

E nós? Provavelmente ainda discutindo se devemos ou não ter política industrial.

América do Sul está em queda livre—com raras exceções.

Os dados sul-americanos são deprimentes.

Brasil caiu de 38 para 49.

Argentina de 46 para 52.

Venezuela de 83 para 104 (colapso total).

A única exceção? Uruguai, que subiu de 58 para 50—e mesmo assim continua atrás de onde o Brasil estava em 2014.

Por que isso importa? Porque confirma o diagnóstico que muitos economistas heterodoxos vêm fazendo há anos: reprimarização.

A América do Sul está voltando a ser exportadora de matérias-primas, perdendo capacidades industriais e tecnológicas construídas no século XX.

E não, isso não é “só o mercado funcionando”.

→ É política econômica.

→ É câmbio sobrevalorizado.

→ É falta de financiamento para inovação.

→ É infraestrutura sucateada.

→ É educação técnica abandonada.

→ É um sistema tributário que pune manufatura e premia exportação de commodities.

Enquanto isso, países como Vietnã (76 para 57), Indonésia (77 para 69), Camboja (122 para 93) e até El Salvador (73 para 63) estão fazendo o caminho inverso—construindo capacidades manufatureiras e subindo no ranking.

Eles estão fazendo o que a Coreia do Sul fez nos anos 70, o que Taiwan fez nos anos 80, o que a China fez nos anos 2000.

E nós? Estamos fazendo o que a Argentina vem fazendo há 70 anos: regredindo.

Arábia Saudita e Emirados Árabes falharam—apesar dos bilhões investidos.

Aqui tem uma lição importante sobre o que NÃO funciona.

Arábia Saudita e Emirados Árabes gastaram centenas de bilhões tentando diversificar suas economias e subir no ECI. Construíram cidades futuristas, zonas francas, parques tecnológicos, universidades de classe mundial.

E mesmo assim, quase não se moveram no ranking.

Por quê? Porque você não constrói complexidade econômica do zero com dinheiro do petróleo.

Você constrói complexidade com uma base industrial existente que pode ser sofisticada gradualmente. Você precisa de empresas manufatureiras, fornecedores locais, engenheiros com experiência prática, instituições técnicas enraizadas.

Taiwan não virou potência em semicondutores da noite para o dia. Levou 40 anos de política industrial deliberada, começando com eletrônicos simples nos anos 70.

A lição para o Brasil? Temos uma base industrial—mas estamos deixando ela morrer. E uma vez que ela morre, reconstruir é infinitamente mais difícil e caro do que preservar e sofisticar o que já existe.

O que países vencedores estão fazendo que o Brasil não está.

Vamos ser diretos sobre o que separa países que sobem no ECI dos que caem.

Política industrial ativa. Taiwan, Coreia do Sul, China, Vietnã—todos têm estratégias explícitas de quais setores desenvolver. Eles não esperam “o mercado decidir”. Eles direcionam crédito, incentivos fiscais, compras governamentais e P&D para setores estratégicos.

Investimento em educação técnica e P&D. Coreia do Sul investe 4.8% do PIB em P&D. Taiwan 3.5%. China 2.4%. Brasil? 1.2%—e caindo. Sem engenheiros, sem pesquisa aplicada, sem inovação, você não sobe em complexidade.

Câmbio competitivo sustentado. Países do Sudeste Asiático mantêm câmbio desvalorizado para proteger manufatura nascente. Brasil deixa o real se valorizar toda vez que commodities sobem, matando a indústria.

Integração em cadeias globais de valor—mas com upgrading. Vietnã começou montando tênis e camisetas. Hoje monta iPhones e produz componentes eletrônicos. Eles entraram em cadeias globais, mas com estratégia de subir na cadeia. Brasil entrou em cadeias globais nos anos 90—e desceu na cadeia.

Pragmatismo acima de ideologia. Taiwan é capitalista mas tem empresas estatais estratégicas. China é “comunista” mas tem mercados competitivos brutais. Coreia do Sul usou chaebols (conglomerados privados) com direcionamento estatal. Funcionou porque o objetivo era claro: desenvolver capacidades produtivas sofisticadas. Não ideologia, resultados.

Brasil tem duas escolhas: acordar ou aceitar a irrelevância produtiva.

Aqui está a verdade incômoda que o ECI 2024 expõe: o Brasil está perdendo a corrida da complexidade econômica—e perdendo feio.

Enquanto Taiwan, Coreia, China, Vietnã, Indonésia e até Marrocos constroem capacidades produtivas do século XXI, nós estamos regredindo para o século XIX: exportadores de minério, soja e carne.

Você pode aceitar isso. Pode acreditar que “somos competitivos em agro” e que isso basta. Pode continuar comemorando superávits comerciais construídos em cima de commodities enquanto a estrutura produtiva apodrece.

Ou você pode reconhecer que complexidade econômica é destino. Países complexos são ricos, resilientes, inovadores. Países simples são pobres, vulneráveis, irrelevantes.

A escolha é nossa. Mas o relógio está correndo. E cada ano que passa sem uma estratégia séria de transformação produtiva é mais um ano de distância dos países que estão vencendo—e mais um passo em direção à irrelevância permanente.

Os dados de 2024 estão aí. A pergunta é: vamos finalmente prestar atenção?

Se você quer acompanhar dados, rankings completos e visualizações interativas do ECI 2024, acesse o Observatory of Economic Complexity (OEC). E se esta newsletter te fez pensar diferente sobre desenvolvimento econômico, compartilhe com alguém que precisa ler isso.

Até a próxima semana.

P.S. — Se este é um dos primeiros textos que você lê aqui, visite minha [página de boas-vindas clicando aqui. Separei presentes que vão te ajudar a entender desenvolvimento econômico de verdade — incluindo meu livro completo “Brasil, uma economia que não aprende” (grátis).

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Abraços,

Paulo Gala

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Brasil: a Defesa necessária contra Trump

A guerra chegou à América do Sul. Mas Forças Armadas brasileiras estão concebidas como extensão do Pentágono. Transformá-las, preparando-as à defesa da soberania e livrando-as do combate ao “inimigo interno”, precisa estar na agenda nacional

Título original:
Breves anotações sobre Defesa Nacional

A capacidade militar do Brasil é concebida, desde a Segunda Guerra Mundial, como extensão do poderio do Pentágono. Uma nova conflagração generalizada se desenha e, seja qual for o seu desenrolar, obedecendo ou contrariando Washington, seremos afetados.

Se, na melhor hipótese, forem usadas armas convencionais, a carnificina se prolongará por tempo indeterminável. Na pior, armas nucleares encurtarão a guerra e o resultado será inimaginável.


Nas últimas décadas, orientações de nossa Defesa Nacional (DN) foram reescritas sem novidades substantivas. Consistem em generalidades e truísmos sobre o quadro geopolítico acompanhadas de proposições rotineiras das Forças Armadas.

Esses documentos mostram a Defesa como matéria da alçada militar. Revelam que as armas mais complexas são importadas e o desenvolvimento de tecnologia própria não acompanha o ritmo frenético dos grandes atores internacionais. Parcerias tradicionais são preservadas. As fileiras estão prontas para preservar a Lei e a Ordem e cumprir múltiplas funções. Finalmente, concluem que a DN estaria melhor, não fosse a avareza do Estado.

Não creio que essas orientações sejam compatíveis com a aspiração de soberania nacional, nem que possamos dispor de Defesa Nacional convincente acatando conceitos e formulações enraizadas na caserna.

Visando o debate, apresento breves anotações.

A guerra repugna e fascina. Faz parte da experiência humana. É indissociável da construção civilizatória. Não há sociedade que a desconheça. Mas a DN está fora da pauta brasileira, como pode ser constatado no documento “Pilares de um Projeto de Nação”, recentemente lançado pelo Governo Federal. O Brasil projetado nesse documento ignora os solavancos da ordem mundial.

Nos confrontos sangrentos, desde sempre, os mais penalizados são os pobres e desprotegidos. Os beneficiários são os mais ricos. Empresários espertalhões e demagogos veem a guerra como oportunidade de se dar bem.

Mas a guerra pode favorecer mudanças sociais: altera valores, comportamentos e condições de vida; abre rachaduras no poder e açula a vontade de mundo melhor.


Guerra não é simples medição de força bruta: é fenômeno essencialmente político. O político deve conduzi-la – do contrário, será submetido por homens armados. Nos confrontos, guerreiros cobrem-se de glórias e tendem a atravessar o Rubicão. Lula precisa se preparar para exercer o comando supremo. Deve saber que o ambiente guerreiro favorece o golpismo.

Assimetria de forças militares é sempre relativa. Armas são manipuladas por pessoas que podem estar mais ou menos mobilizadas. Exércitos dependem dos humores da sociedade que os sustentam.

Os brasileiros não podem se intimidar com o poderio dos Estados Unidos ou de qualquer outra potência. Grandes potências foram derrotadas por países pobres.

Sociedade fragmentada é presa fácil de agressores estrangeiros. A DN de que precisamos deve contar, essencialmente, com a coesão dos brasileiros e com o que somos capazes de produzir.

O sentimento nacional, ou o “patriotismo”, constitui nossa principal garantia. O “amor à pátria” é o sentimento coletivo mais poderoso, sublime e sangrento já conhecido.

Os inimigos mais temíveis são os nacionais que servem ao estrangeiro hostil. Esses traidores ocupam espaço no aparelho estatal, inclusive nas fileiras.

A DN deve travar combate político renhido aos prosélitos do agressor estrangeiro e às atividades desagregadoras da comunidade nacional. Estímulos explícitos à agressão estrangeira precisam ser alcançados pela lei, assim como incitações à secessão.

Os militares podem contribuir com a coesão nacional evitando atuar na ordem interna. A revisão do Artigo 142 da Constituição é necessária para que o militar firme credibilidade e se concentre no enfrentamento ao estrangeiro hostil.

Pelo bem da coesão nacional, fileiras não devem cultuar os que reprimiram rebeliões populares. O Exército é do nobre que reprimiu os balaios ou do povo brasileiro? A Marinha precisa reverenciar o Almirante Negro, que tanto fez por sua modernização.

Uma DN verossímil deve enfrentar o legado colonial de desigualdades, exclusão e discriminações. A coesão social pede atendimento aos empobrecidos e redução das desigualdades regionais.

A dicotomia entre “questão nacional” e “questão social” é arbitrária e descabida. Propicia à extrema direita o uso despudorado dos símbolos nacionais. Confunde o povo.

Das políticas de Estado, nenhuma supera a DN em complexidade, abrangência e capilaridade. Requer planejamento multidimensional e parcerias com estrangeiros. Pressupõe envolvimento de toda a sociedade e de todo o aparelho de Estado. Não isenta nenhum setor econômico.

Todos precisam entender a ameaça que paira sobre o Brasil. Todos devem saber dos sofrimentos que nos aguardam. Nossa soberania precisa ser debatida nas próximas eleições e os aliados do imperialismo devem desmascarados e derrotados.

Campanhas eleitorais baseadas em benefícios localizados, obtidos por emendas orçamentárias, falseiam o escrutínio e alienam a sociedade. As casas congressuais não contribuem com a soberania nacional quando acatam sem debater demandas da caserna.

Políticas públicas de comunicação, educação, cultura, ciência e tecnologia têm papel crucial na união da sociedade. A sociedade precisa aprender a se defender de operações psicológicas e choques cognitivos engendrados pelos agressores. Escolas e universidades não podem formar alienados. Por que os pobres têm que arcar com a formação de cientistas para trabalhar em empresas de nossos opressores?

A regulamentação das novas mídias e a contenção de danos provocados pela imprensa favorável ao estrangeiro hostil é fundamental a uma DN credível.  “Operações psicológicas” são decisivas na guerra. Interferem ou condicionam o comportamento das massas. Causam pânicos, descrenças, desânimos coletivos ou excitações incontroláveis. 

A submissão pela fome, sede e doença é procedimento guerreiro elementar e nunca desatualizado. Para atenuar consequências de bloqueio de transportes, o governo precisa incentivar a produção local de alimentos e produtos de primeira necessidade, com destaque para medicamentos e equipamentos médicos.

Por obra de sabotadores da distribuição de energia elétrica, milhares de brasileiros podem morrer sem que o inimigo dê um tiro. Cumpre a DN nacional repensar o sistema de abastecimento de eletricidade.

O cultivo da amizade com os vizinhos é a segunda grande âncora da DN. Não cabe alimentar inimizades que favoreçam o cerco e a penetração em nosso território. Desrespeitar a autonomia da Venezuela no seu processo eleitoral e o não reconhecimento de Maduro foi um erro. Bases militares estadunidenses no sul do Continente representam inadmissível ameaça ao Brasil, assim como a intervenção na Venezuela.

Instituições brasileiras precisam priorizar parcerias com os fronteiriços por meio de empreendimentos estruturantes de setores produtivos, proteção ambiental, segurança, desenvolvimento científico e tecnológico, controle de zoonoses e atendimento em saúde pública. É injustificável a ausência de proposições nesse sentido no mencionado “Pilares de um Projeto de Nação”.

Desconheço diagnóstico preciso sobre a dependência das Forças Armadas quanto à importação de material e serviços de guerra. Mas hoje estamos tecnicamente atrelados à potência que ameaça a América Latina, com capacidade de paralisar, em um piscar de olhos, a parafernália comprada com o suor do povo.

O Presidente e o Congresso devem pedir explicações às Forças Armadas acerca da efetiva capacidade militar brasileira. Apenas a análise realista da situação permitirá entrever os passos para a formulação de uma DN que proteja os brasileiros.

As compras de material de guerra devem ser revistas. Corporações militares equipadas com armas estrangeiras disseminam falsa sensação de segurança e reforçam militarmente o vendedor. De que adianta gastar com um caça sueco que não voará sem a aquiescência de Washington?

Cabe suspender as compras de material de guerra de empresas estadunidenses, assim como as de qualquer fabricante, em qualquer país, que produza sob licença de empresas estadunidenses: as aquisições serão inúteis no enfrentamento de nosso potencial agressor e reforçam sua capacidade de nos ofender. Os escritórios militares brasileiros em Washington e Londres devem ser desativados.

A substituição de fornecedores ocidentais por outros produtores de armas e equipamentos representa saída falsa e perigosa: prolonga a dependência, não garante soberania e acirra os ânimos dos atuais fornecedores contra o Brasil.

A terceira âncora da DN é o desenvolvimento científico e tecnológico. Cientistas, técnicos e empresas precisam ser mobilizados. Mas é impossível, sem conhecimento exato de nossas vulnerabilidades, estabelecer projetos adequados para nossos pesquisadores. Que ninguém brinque com o cientista brasileiro. Motivado, sincronizado e amparado, em curto espaço de tempo deixará o mundo embasbacado.

Pensando em capacidade militar, creio ser prioritário o desenvolvimento rigorosamente autônomo de nossa capacidade aeronaval, não apenas em decorrência das dimensões de nosso território mas das mudanças no jeito de guerrear. Não há justificativa para não dispormos de satélites próprios e capacidade de lançá-los ao espaço. Apenas a mentalidade colonizada das elites brasileiras explica a dependência estrutural de nossa DN.

A reconfiguração da DN demanda vultosos recursos. Não pode ser limitada por políticas fiscais. Cabe buscar fontes inusuais de financiamento. O fechamento de unidades militares inúteis à defesa contra o agressor estrangeiro precisa ser estudado, assim como a alienação de imóveis em posse das corporações militares em centros urbanos. Finalmente, é inevitável examinar possíveis gastos perdulários das fileiras.

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O Irã que você não vê

Multidões tomam as ruas para apoiar governo que resiste à ameaça de Trump. Livro revela, em profundidade, riquezas, impasses e desafios de um país que se orgulha de cultura singular, da história que a constituiu e de sua autonomia preservada

Por Natalia Maia Calfat

MAIS:
O texto que você lerá após a apresentação é o prefácio de
Por dentro do Irã, de Media Benjamin
Uma publicação da Autonomia Literária, parceira editorial de Outras Palavas

Evite a Amazon. “Por dentro do Irã” pode ser obtido diretamente no site da Editora Autonomia Literária

De súbito, fez-se o silêncio. Desde 28 de dezembro, os jornais do Ocidente reportavam, com entusiasmo e expectativa crescentes, a onda de protestos que ganhava corpo no Irã. A radicalização de alguns deles, que resultou em queima de mesquitas, cinemas e centros comerciais, foi vista como um prenúncio. Um regime que, apesar de suas contradições, desafiou por cinco décadas o supremacismo orgulhoso do Ocidente, aparentava estar nas cordas. Mas a partir desta segunda-feira (12/1) a crescente euforia deu lugar ao ocultamento.

O braço da viola pareceu mudar. O governo iraniano, visto até então como se estivesse nas cordas, recorreu ao apoio da multidão. A mídia ocidental ignorou, mas nas principais cidades centenas de milhares saíram às ruas em defesa da autonomia do país, vista agora sob ameaça dos Estados Unidos e Israel. A presença gigante não significava apoio integral ao regime – nem este o solicitou. Mas enviava uma mensagem: as maiorias resistem a ser governadas de fora. Ninguém quer um cenário em que Trump atreva-se a se apresentar como “acting presidente of Iran”.

Nas imagens das manifestações de 12/1 aparecem esquifes e se fazem homenagens a “mártires”. Segundo o governo, os protestos das últimas semanas foram infiltrados por provocadores que praticaram atos de violência extrema e a mortes. É impossível verificar, até o momento, a informação. As forças de segurança do regime iraniano já praticaram atos de repressão duríssimos. Mas episódios anteriores – os da Praça Maidan, em Kiev (em 2013-14) e os de Hong Kong (em 2019-2020) podem estar se repetindo. Na Ucrânia, grupos fortemente armados entrincheiraram-se em meio a manifestações e foram decisivos para uma “mudança de regime” patrocinada por Washington. Na China, a tática foi investir de forma muito violenta contra policiais e civis, num esforço (fracassado) de desencadear, como resposta, brutalidade deslegitimadora.

Uma análise do cientista político Vali Nasr, publicada no site Project Syndicate, e reproduzida no Valor, apresenta uma visão verossímil do que está de fato em curso no Irã. Segundo ela, os protestos, que eclodiram em 28/12, opunham-se em especial à alta do custo de vida, provocada por desvalorização da moeda nacional (que tem, como causa essencial, as sanções norte-americanas). O governo adotou, no primeiro momento, uma atitude de diálogo. Houve valorização dos programas de transferência de renda para os mais pobres. A medida, porém não teria sido capaz de aplacar a classe média, que empobreceu nos últimos anos e constituiria o núcleo das manifestações. Quando elas assumiram caráter político, voltando-se contra o regime (a partir de 8/1), houve intervenção policial. Os governantes, porém, estariam cientes de que a coesão nacional foi responsável por salvá-los em 2025, após ataques devastadores de Israel. Por isso, ao invés de confrontar abertamente os protestos, preferiram responder na mesma moeda – e tinham apoio popular para tanto: daí, as manifestações gigantescas pró-regime em 12/1.

Elas não foram, porém, capazes, de conter a arrogância de Donald Trump, nem sua propensão a criar factoides. Na manhã de 13/1, como se ignorasse a mudança de ares (ou talvez para tentar contrarrestá-la), o presidente dos EUA exortou os iranianos a “tomar as instituições” e prometeu que “ajuda está a caminho” – numa clara que referência à intervenção na Venezuela.

As turbulências atuais podem ser uma oportunidade de examinar melhor um país que a mídia ocidental cerca de preconceitos. Em setembro de 2025, a Editora Autonomia Literária publicou Por dentro do Irãde Medea Benjamin, uma ativista norte-americana de longa trajetória nas lutas anticoloniais, pacifistas e feministas. O livro foge ao maniqueísmo. A partir de ampla pesquisa histórica e política, descreve um país singular – culto, diverso e orgulhoso se sua constituição. Nela combinam-se o passado persa e a influência muçulmana (que não impôs o árabe como língua); a ala xiita do Islã, majoritária, com a filosofia sufi e as reminiscências presentes do zoroastrismo. O texto a seguir, da cientista política Natalia Maia Calfat, que preside o Instituto de Cultura Árabe, é o prefácio da obra, agora ainda mais indispensável. (A.M.)


Uma das ativistas feministas mais conhecidas do movimento antiguerra nos Estados Unidos, Medea Benjamin faz seu début ao público brasileiro com uma sofisticada obra sobre o Irã e sua Revolução. A tradução inédita desta publicação da Autonomia Literária aparece num cenário editorial em que as obras sobre o país e sua política contemporânea são escassas, razão pela qual chega ao público brasileiro com urgência indispensável.

Se em português o leitor se via sitiado, de um lado, por autores que condenam a proclamada brutalidade e atraso iranianos e, de outro lado, por outros poucos mais entusiastas da revolução enquanto revolta subalterna, a autora nos oferece uma espécie de meio-termo entre o orientalismo eurocêntrico e inferiorizante e o ocidentalismo purista.

Em linguagem simples, mas oferecendo um conteúdo nuançado e complexo, com habilidade e lucidez, Medea escapa do simplismo pró ou contra a Revolução Iraniana, raro mesmo entre estudiosos. Ao longo da obra, o leitor poderá ver por que o povo iraniano é culto e orgulhoso de seu passado, suas ciências e suas artes. A não binariedade talvez seja reflexo do próprio caráter iraniano, que convive com a dualidade persa de ter sido islamizado mas não arabizado, que mantém a tradição zoroastra ao lado da xiita, da filosofia sufi que convive com elementos

pré-islâmicos, de ser palco da efervescência cultural a despeito do autoritarismo, dos elementos republicanos e descentralizados paralelos ao governo islâmico – ou do forte antiamericanismo e antissionismo ao lado da admiração aos estadunidenses e judeus.

A riqueza histórica e cultural foi frequentemente rodeada por episódios de ingerência e manipulações estrangeiras, russas, britânicas, francesas e estadunidenses. Demonstrando resiliência única, o Irã foi capaz de manter a unidade territorial e a soberania mesmo tendo sido repetidamente invadido desde o Império Aquemênida. Ainda assim, foi justamente através das diferentes invasões mongóis, timúridas e árabes que puderam exportar ou fazer os diferentes povos incorporarem elementos da língua, literatura e arquitetura persas. Aliás, a Era de Ouro deve em boa medida aos persas que traduziram filósofos, cientistas e matemáticos gregos ao árabe. O leitor verá, ao longo da obra, como a autora se coloca em constante diálogo com essa dualidade constitutiva da identidade iraniana.

A era moderna, marcada por desconfiança e disputa por soberania autônoma, registrou sucessivas concessões econômicas de recursos naturais, industriais e de infraestrutura aos britânicos mesmo antes da dinastia Pahlavi. Uma das características marcantes de Por dentro do Irã é dar notoriedade à habilidade política dos clérigos desde muito antes da Revolução Islâmica.

Como demonstra Medea, o clero xiita era politicamente forte e ativo desde a estabilidade permitida pelo período safávida, quando o persa era a “língua da diplomacia e da literatura” – ou seja, desde o início da história persa moderna, período de forte florescimento cultural e comercial e que instalou o xiismo como religião oficial, com características marcadamente sufis.


A exemplo da Fatwa do Tabaco em 1890, do seu papel na Revolução Constitucional de 1906 e durante a guerra civil de 1908-1910, do apoio à Frente Nacional contra as concessões à Anglo–Iranian Oil Company e da oposição à imunidade diplomática total dos militares estadunidenses concedida na década de 1960, os clérigos xiitas se opuseram firmemente à corrupção e posição dos monarcas em favor de interesses estrangeiros, limitando seu poder e demandando que os tribunais equilibrassem as leis parlamentares com as religiosas. Ao lado dos comerciantes dos bazares1, o clero demandava reformas tributárias, combatia

concessões econômicas e demandava mais descentralização administrativa e poder ao parlamento.

Ainda que seu conservadorismo tenha, ao longo do século xx, sido alvo da oposição liberal e das classes mais abastadas pró-monarquia, o que a obra demonstra é que, apesar de ter ocorrido sem precedentes e tendo verdadeiramente alterado as estruturas sociopolíticas e econômicas do Irã, a Revolução de 1979 não se tratou de um fenômeno excepcional ex machina. Em outras palavras, foi possível porque as bases já estavam postas décadas antes, ou seja, não aparece num vácuo, sendo reflexo dos vários ensaios constitucionalistas e em oposição ao Ocidente realizados anteriormente.

Assim, a obra nos convida a perceber que a Revolução Islâmica ocorre não porque o Irã seja uma sociedade intratavelmente religiosa, ou pela suposta radicalidade intrínseca aos xiitas, mas pelo poder reunido ao longo de décadas pelo seu clero, por sua capacidade de mobilização popular, por sua narrativa político-ideológica e pelos setores da sociedade que foi capaz de reunir em torno de si. Foi, igualmente, resultado da própria repressão conduzida pela dinastia Pahlavi, que baniu organizações políticas e partidos seculares – restando somente ao clero xiita a autoridade moral e robustez institucional enquanto oposição ao status quo.

Ademais, a modernização cultural autoritária do xá forjou o caráter moderno iraniano, estabelecendo administração de infraestrutura, defesa e identidade nacional, mas afastou-a da persa e gerou forte clientelismo, esvaziou o poder do parlamento e promoveu severa repressão política – além de reprimir manifestações culturais e linguísticas tradicionais, inclusive religiosas. A liberalização dos costumes foi acompanhada de uma apropriação por parte do regime da direção religiosa e espiritual, de forma que o revivalismo xiita responde precisamente a esta insatisfação. Nesse cenário, além dos estudantes e da intelectualidade, da classe trabalhadora urbana e do jovem clero, o carismático Khomeini unificou em torno de si também as demandas dos comerciantes da classe média conservadora dos bazares, as insatisfações dos liberais seculares e dos grandes proprietários.

Medea demonstra como a Revolução Islâmica refletia a latente disputa social sobre as formas que o bom governo deveria assumir no Irã. Fruto do engajamento das elites clericais de forma crescente nas arenas político-sociais, o revivalismo e o ressurgimento do ativismo político xiita no Irã e no Levante se deu desde antes da década de 1970, cujo ethos concentra-se na luta contra a opressão e a injustiça das quais o segmento se percebe como sendo alvo. Dentro dessa cosmovisão, a resistência contra a opressão, marginalização e sub-representação, o chamado à ação contra a tirania e o despotismo (ingerência externa, doméstica e regional pró-Ocidente) apresentam-se como dever. Deste modo, dentro da doutrina do jurisconsulto ou do wilayat al-faqih (tutela bem guiada na ausência do Mahdi), autossuficiência e soberania autônoma, boa governança, equidade, moralidade e justiça estão mutuamente imbricadas. Ao longo da obra é possível identificar como os debates em torno desses elementos estão presentes e vão se modificando no decorrer do tempo depois da Revolução de 1979.

Com igual desembaraço ao dedicado aos inúmeros episódios de deslealdade e ingerência ocidental – da coordenação da cia no golpe de 1953 ao prolongamento da guerra Irã-Iraque e do continuado apoio ao obscuro Mojahedin-e-Khalq (mek) –, a autora não se furta de abordar as contradições internas geradas como consequências indesejadas do novo regime. Tratando a revolução enquanto processo e dando destaque aos seus matizes, o leitor não deixará de entrar em contato com as novas formas de clientelismo e monopólio econômico, com a hierarquia clerical produzida, a repressão aos direitos políticos e civis e o aumento da pobreza rural e desigualdade econômica.

Volume significativo da obra de Medea é apresentado como que em formato de manual para leigos, debruçando-se sobre todas as questões que seguramente o público brasileiro gostará de saber acerca do Irã: indo de como é o trabalho dos ativistas e o panorama geral dos direitos humanos no país até como o regime lida com o álcool, o sexo, o aborto e as drogas, além da liberdade de culto e representação legislativa de minorias religiosas como zoroastras, povos do livro e outras denominações. Medea tampouco se omite de analisar o já conhecido fetiche pela mulher iraniana e pelo uso do véu, reforçando a atuação das iranianas como agentes de mudança antes e depois da Revolução.

Passados 45 anos, o Irã permanece se apresentando como uma ideologia emancipadora e de resistência terceiro-mundista, que, ao se opor tanto à esquerda marxista quanto ao secularismo pan-arabista, tanto ao liberalismo quanto ao wahabismo, se propõe como um paradigma alternativo antiocidental não marxista. O caráter marcadamente transnacional dessa terceira via lhe permite não somente promover seus interesses políticos e securitários na região, cooperando financeira, logística e tecnicamente com seus aliados, como oferecer um eixo moral e narrativo-ideológico enquanto vanguardista do chamado Eixo da Resistência, composto também pelo Hezbollah no Líbano, Ansar Allah no Iêmen, Hashd al-Shaabi no Iraque e pelo Hamas na Palestina. Essa posição permite ao Irã desempenhar um papel fundamental na região e no universo islâmico como plataforma que se propõe unificadora por ser pró-Palestina e antissectária. Essa atuação, contraditoriamente, se dá em reação ao isolamento imposto sobre os iranianos e a recusa a sua participação nos arranjos securitários pós-guerra na região.

Sendo o Oriente Médio um palco de mudanças constantes, a obra de Medea é anterior ao prolongamento da guerra israelense contra Gaza desde outubro de 2023 e à abertura de novos fronts regionais, como no Líbano. É também anterior tanto à queda do regime de Bashar al-Assad na Síria, em dezembro de 2024, meses após a morte do presidente iraniano Ebrahim Raisi e seu ministro das Relações Exteriores, Hossein Amir-Abdollahian, quanto ao assassinato de Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah. Esses eventos, agora sob o segundo mandato do presidente estadunidense Donald Trump – que se retirara unilateralmente do acordo nuclear histórico com o Irã alcançado em 2018 – podem significar o desenho de uma nova arquitetura de segurança para o Oriente Médio. A nova conjuntura deve considerar, particularmente, a restauração dos laços diplomáticos entre Irã e Arábia Saudita, esforço mediado pela China em 2023, e os Acordos de Abrão normalizando as relações entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein em 2020.

Se por um lado a evolução dos eventos conjunturais recentes aponta para cenários potencialmente distintos, por outro reflete a própria complexidade desta esfera e a ausência de linearidade da política externa iraniana. Oscilando de forma pendular entre o rompimento do isolacionismo internacional conduzido por presidentes mais pragmáticos e reformistas e as reações conservadoras retroagindo a abertura quando suas expectativas se provaram frustradas, a autora demonstra como nas últimas décadas o país vem sofrendo o forte impacto das sanções e demandas internas por reforma. Paradoxalmente, não somente as sanções geram efeitos-rebote no que diz respeito à legitimidade do regime, como elas os levam a desenvolver estratégias criativas de autossuficiência, como uso de engenharia reversa, diversificação da indústria nacional e desenvolvimento da cultura tradicional.

Por dentro do Irã, além de se propor a um resgate honesto da história política recente iraniana, se apresenta como um grande convite para que o leitor, após tomar posse desse instrumental, possa refletir sobre sua legitimidade, seus avanços e retrocessos.

A obra, ademais, nos convida a pensar como tradição e modernidade devem se inter-relacionar, como política e religião podem ser combinadas através de um sistema sofisticado de pesos e contrapesos e como agentes transnacionais disruptivos respondem à crise da democracia e do multilateralismo.

O convite que nos faz a Autonomia Literária é principalmente para refletirmos de que modo a população iraniana pode ser a protagonista formuladora de uma modalidade de governo soberano e independente que esteja acompanhado do seu sistema jurídico equivalente. E que esse resultado ressignifique a tradição e reformule seu nacionalismo a partir desta e em concerto com os anseios e contradições domésticas – oriundas das demandas morais, (a)religiosas, econômicas e políticas da sociedade iraniana – mas sem que esse resultado de governança signifique, necessariamente, entrar no registro do sistema ocidental. Afastando-se ao mesmo tempo de um paroquialismo essencializante que tudo culturaliza e de um orientalismo estranhado que tudo exotiza, o leitor verá que a obra reforça a multiplicidade da identidade iraniana, abandonando uma visão estática e linear sobre seu presente mas também sobre seu futuro.

1Apesar do português ter diferentes significados para a expressão “bazar”, aqui é usado sempre o sentido original, do persa: mercados públicos abertos com diferentes tipos de lojas e comércios, como uma espécie de “feira” sob um teto. [n.t.]

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