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Que nunca nos esqueçamos de Gaza

Relatora especial da ONU, perseguida por denunciar os crimes de Israel, radiografa a Palestina hoje, quando o mundo parece esquecer o genocídio. Analisa a hipocrisia da “Junta de Paz” de Trump. E garante: “impunidade não durará para sempre”

Francesca Albanese em entrevista a Samah Salaime, no CTXT

No meio da recente conferência de Francesca Albanese na Escola de Estudos Orientais e Africanos de Londres (SOAS), o jovem sentado ao meu lado na plateia começou a chorar silenciosamente. A relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados estava falando sobre o papel do direito internacional em tempos de genocídio, mas o homem não prestava mais atenção.

Perguntei se ele estava bem e ofereci um lenço. Ele me contou que era médico de Gaza e que havia deixado a Faixa com sua esposa (também médica) nos primeiros meses da guerra.


Foi então que soube o motivo de suas lágrimas. Em dezembro de 2023, quando o exército israelense ordenou a evacuação de seu bairro no norte de Gaza, sua família reuniu seus pertences e entrou em um caminhão para escapar. Mas, enquanto isso, ele correu para a casa de seus sogros para buscar sua esposa, com quem havia se casado recentemente.

“Todos entraram no caminhão, menos eu: meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs, meus tios, minhas tias e seus filhos”, ele me contou. “Antes que eu retornasse, todos morreram em um único ataque aéreo. Eu sobrevivi por acaso. Todos morreram. Não me resta ninguém”.

Parei de ouvir a distinta palestrante e as perguntas irritantes dos membros insatisfeitos do público e continuei conversando com o médico, que me disse se chamar Abdallah. “Minha mãe tinha sua idade”, ele me disse. “Você se parece com ela. Ela tinha muito orgulho de que eu tivesse me formado em Medicina”. Ele chorou novamente e eu chorei com ele.

Abdallah e sua esposa saíram de Gaza pelo Egito. Ela conseguiu uma bolsa de doutorado; ele começará sua residência no Reino Unido. Levou dois anos para obter a permissão para trabalhar aqui como médico. Espero que uma nova vida os aguarde.

“Você tem que ir falar com ela”, eu disse quando Albanese terminou sua palestra. Ele se recusou. “Ela provavelmente já ouviu muitas histórias como a minha. Até escreveu um livro sobre o assunto”. “Não importa”, insisti. “Você tem que contar sua história a ela. Você é a pessoa sobre quem ela está falando aqui em Londres”.

A partir daquele momento, o jovem perdeu o controle do corpo. Arrastei-o pelas escadas, abrindo caminho entre a multidão que cercava Albanese. “Você precisa conhecer Abdallah, este jovem de Gaza”, eu disse em voz alta, como se fôssemos amigos de infância.

Abdallah apertou sua mão, visivelmente emocionado, e falou. Ela o ouviu, o abraçou e lhe disse: “Não se cale. Você deve contar sua história em todos os lugares. Essa é sua missão, porque ninguém o fará pelos palestinos, nem mesmo eu. Falar e compartilhar ajuda a curar suas feridas e a suportar a dor, e ajuda o mundo a compreender e a não esquecer”.


Agora, em seu segundo mandato como relatora especial, Albanese tem sido uma das críticas mais contundentes do genocídio de Israel em Gaza e de seu longo regime de ocupação e apartheid, razão pela qual teve sua entrada em Israel proibida e foi sancionada pelo governo Trump no verão passado. No entanto, ela se recusa a parar de defender e lutar pela justiça.

Em uma entrevista à +972 Magazine após sua visita a Londres, ela fala sobre a crise atual do direito internacional, sobre por que o 7 de outubro e o genocídio em Gaza devem ser um ponto de não retorno, e sobre por que a impunidade de Israel não durará para sempre.

A entrevista foi editada por questões de extensão e clareza.

Após dois anos de genocídio transmitido ao vivo e agora de uma suposta “trégua”, parece que o mundo parou de falar sobre Gaza. Como você vê a situação atual?

Entramos em uma nova fase do genocídio, longe dos olhos e ouvidos da maior parte da comunidade internacional. Acredito que isso se deve não apenas à ilusão de “paz”, mas também ao fato de que muitos jornalistas foram mortos lá. Com todas as dificuldades que a população de Gaza enfrenta, é muito difícil cobrir todos os massacres que continuam ocorrendo.

Por isso acho tão fácil continuar o genocídio enquanto o mundo segue sua rotina habitual. O mesmo ocorreu com os genocídios em Ruanda e na Bósnia: sabíamos que algo horrível estava acontecendo. E, francamente, como europeus, devemos lembrar que o mesmo aconteceu com o genocídio do povo judeu, dos roma e sinti, e do que hoje chamaríamos de comunidade queer há um século [no Holocausto]. Isso aconteceu dentro da Europa: as pessoas foram tiradas de suas casas e das ruas. As pessoas sabiam.

Não é a primeira atrocidade a ocorrer na história do mundo, mas é a primeira a ser televisionada integralmente. Gostaria de perguntar ao povo de Israel: Vocês veem o que está sendo feito em seu nome? Houve relatórios do B’Tselem e de outros grupos de direitos humanos, há soldados que romperam o silêncio e alguns até cometeram suicídio. Os israelenses sabem o que está acontecendo com o povo palestino, mas parece não importar a eles.

Após o massacre de Sabra e Shatila [em 1982], houve uma revolta, inclusive em Israel. Quando a brutalidade do exército israelense [na repressão aos protestos palestinos] durante a Primeira Intifada veio à tona, houve uma reação popular. Mas hoje em dia, até celebram as violações [de prisioneiros palestinos].

Sinto um enorme respeito por aqueles israelenses que conseguiram abrir os olhos e perceber o que estão fazendo. É importante que o maior número possível de israelenses se una à luta contra o apartheid, porque isso também é algo que os mantém cativos. Não se pode cometer crimes e atrocidades e maltratar outro povo sem perder a humanidade no caminho.

Quando era jovem, dizia a mim mesma: se tivesse vivido durante o Holocausto, teria feito algo. Por isso sigo, apesar das dificuldades, tão comprometida em documentar e denunciar com precisão o que está acontecendo nos territórios palestinos ocupados, conforme me foi confiado pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Porque “nunca mais” é todos os dias.

Posso me identificar com isso. Às vezes as pessoas me perguntam por que escrevo em hebraico, árabe e inglês. É pela mesma razão pela qual visitei Gaza poucas semanas antes do início da guerra. Se meus netos me perguntarem, quero poder contar o que fiz: informei, documentei, forneci provas e gravações, mesmo que não tenham sido suficientes para impedir o genocídio.

Parece que o direito internacional está mergulhado em uma profunda crise. As violações de Israel têm sido muito evidentes para a maior parte da opinião pública mundial, mas a lei não é aplicada nem são tomadas medidas no terreno. Em que situação isso nos deixa?

Como advogada internacional, a resposta a esta pergunta é simples para mim, porque está muito claro o que deve ser feito e a questão pode ser resolvida de acordo com o direito internacional. A presença de Israel nos territórios palestinos ocupados foi declarada ilegal pela Corte Internacional de Justiça, portanto Israel deve retirar suas tropas da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e da Faixa de Gaza. Sei que isso pode parecer uma fantasia para muitos israelenses, mas é o que deve ser feito, porque é inconcebível que a Israel [continue sendo permitido] governar militarmente o pouco que resta da Palestina.

Sei que isso não é tudo para os palestinos, mas é um começo; poderia ser um passo em direção a algo mais. Muitos pedem um Estado democrático, outros pedem dois Estados. De uma forma ou de outra, o que a CIJ declarou em julho de 2024 é que a ocupação é ilegal e deve ser desmontada total e incondicionalmente, o que significa retirar as tropas, desmantelar os assentamentos, indenizar os palestinos e permitir o retorno dos refugiados deslocados em 1967.

Você acha isso realista? A comunidade internacional pode realmente fazer com que isso aconteça?

Sem dúvida, é o que prescreve o direito internacional, segundo a interpretação do mais alto órgão judicial do mundo. Há meios pacíficos e não violentos para fazê-lo, e também se pode recorrer a medidas coercitivas quando um país representa uma ameaça à paz e à segurança como Israel faz hoje, e não apenas para a Palestina, mas para toda a região. Está bombardeando um país após o outro, respaldado pela impunidade de Estados cujos líderes pertencem ao século passado e ainda pensam com uma mentalidade colonial.

Mas a nova geração não é assim, e as pesquisas demonstram isso. Portanto, a questão não é se Israel será forçado a pôr fim às suas práticas de apartheid, mas quando. Porque as coisas vão mudar. Por isso faço um apelo aos israelenses para que se juntem a essa causa e ajudem a alcançá-la. Para isso, terão que renunciar não a seus direitos, mas a seus privilégios, privilégios que tiveram às custas de um povo inteiro.

Compreendo que muitos israelenses possam se sentir inseguros e desprotegidos. Mas é possível que nunca mais voltem a estar seguros e protegidos se continuarem a semear ressentimento ao seu redor. Há formas de garantir a estabilidade e a segurança de Israel sem oprimir outros. E ainda há tempo para experimentá-las.

No entanto, o que estamos vendo agora é como a “Junta de Paz” de Trump toma forma, criada aparentemente para supervisionar o cessar-fogo em Gaza, mas que parece ter planos que vão muito além da Faixa, chegando a rivalizar com a ONU.

O futuro de Gaza, assim como o do resto dos territórios palestinos ocupados, deve estar nas mãos dos palestinos. É sua autodeterminação. É desconcertante ver como um grupo que não emana da vontade do povo palestino se encarrega de “reconstruir” Gaza. E é preocupante ver como a ONU fica relegada a um segundo plano e como o processo é liderado por um Estado – os Estados Unidos – que não é uma parte desinteressada e que apoiou amplamente a destruição de Gaza.

A população de Gaza está extremamente exausta e traumatizada. É necessário garantir seu cuidado e bem-estar, mas isso não é visto em lugar algum [nos debates em torno da Junta de Paz]. Além disso, atrocidades foram cometidas em Gaza e precisam ser investigadas. Há evidências a serem coletadas antes que a reconstrução possa ser realizada, portanto, deve-se permitir a entrada de investigadores independentes.

Quando publiquei uma foto no Facebook de nós duas após sua palestra na SOAS, algumas de minhas colegas feministas judias israelenses me removeram de suas listas de amigos porque acreditam que você negou, mesmo que implicitamente, que o Hamas cometeu violações e outras formas de violência sexual contra mulheres israelenses em 7 de outubro ou depois. Você pode esclarecer sua posição sobre isso?

Nunca neguei que abusos sexuais tenham ocorrido. Isso foi amplamente documentado. Há provas em vídeo de [reféns] com suas partes íntimas expostas ou em contato próximo com seus sequestradores, por exemplo. Reconheci e condenei os abusos sexuais relatados pela Comissão de Investigação das Nações Unidas e me solidarizo com essas mulheres.

O que eu disse é que, pessoalmente, não vi nenhum testemunho de pessoas que foram estupradas em 7 de outubro e que, da mesma forma, não surgiu nenhuma prova de “estupros em massa” naquele dia, apesar de essa continuar sendo uma acusação recorrente.

Tenho consciência de que as vítimas de violência sexual e estupro têm dificuldades para falar, e respeito isso enormemente. Mas o que eu disse, e o que condenei, é o fato de que houve alegações generalizadas de estupros em massa, e eu disse que não há evidências disso, assim como as [alegações de] bebês decapitados ou bebês colocados em um forno. Essas são as três coisas que continuam a ser repetidas em vários países europeus, inclusive no meu.

Sempre condenei os ataques contra civis cometidos em 7 de outubro. Disse que atacar, matar e sequestrar civis é um crime de guerra. Não importa se as vítimas são palestinas ou israelenses. Na verdade, em minha primeira entrevista após 7 de outubro, meu desejo era que a comunidade internacional, inclusive aqueles que costumam ficar do lado dos palestinos, mostrasse sabedoria e compaixão, porque aquele foi um momento de enorme sofrimento para os israelenses, um que poderia tê-los aproximado dos palestinos, cujo trauma se tornou intergeracional.

Também foi um dia muito difícil para mim. Enquanto via as imagens de 7 de outubro, e durante vários dias depois, me perguntava como seria capaz de continuar fazendo este trabalho.

Hoje me pergunto: o fato de crianças palestinas serem sequestradas uma a uma no meio da noite, 700 delas a cada ano, as torna menos reféns? É menos brutal que palestinos sejam mortos aos centenas a cada dois anos quando Israel precisa descarregar seu armamento contra Gaza em mais uma guerra “preventiva”?

Por isso devemos garantir que isso seja o fim. Porque os palestinos sofreram demais, e os israelenses também. Este é o ponto de não retorno, a partir do qual devemos avançar para um lugar menos sombrio.

Mas, em vez disso, todos têm atiçado as chamas, e Israel tem recebido o apoio incondicional de grande parte do Ocidente.
É verdade. Por que se apoiaria incondicionalmente qualquer Estado? O respeito aos direitos humanos deve ser sempre uma condição para o apoio. O respeito ao direito internacional humanitário deve ser uma condição para o apoio.

De acordo com o direito internacional, um Estado tem o direito de se proteger, mas não de massacrar outro povo. Até mesmo o exército israelense [sabe] que cerca de 85% das pessoas que matou em Gaza eram civis. Por isso digo que temos que estabelecer um limite, que temos que ser racionais, que temos que reconhecer a humanidade do outro e que temos que reconhecer que Israel vem oprimindo os palestinos com práticas de apartheid há mais tempo do que muitos palestinos conseguem lembrar.

Quando as pessoas me perguntam se Israel tem o direito de existir, respondo simplesmente: Israel existe e, como membro da comunidade internacional, tem que cumprir o direito internacional. Mas o que muitas das pessoas que fazem essa pergunta parecem estar questionando é o direito de Israel existir como um Estado de apartheid, sem prestar contas. Não. Israel não tem o direito de se comportar acima da lei ou contra a lei.

Israel não é uma exceção. Deve descer de seu pedestal e perceber que, embora ainda possa contar com o apoio de líderes fortes, isso não durará para sempre. A opinião pública na Europa está mudando, e o fato de o movimento de solidariedade estar sendo severamente reprimido não ajuda a apresentar Israel sob uma luz mais favorável.

Em 2024, a Alemanha deteve mais pessoas judias do que em qualquer outro ano desde o Holocausto. Por quê? Porque se opunham à violência israelense em Gaza. O Reino Unido tem criminalizado organizações pró-palestinas e tratado ONGs e jornalistas como terroristas. A França tem proibido protestos. E a Itália tem se tornado cada vez mais rígida na negação da liberdade de expressão e de associação.

No ano passado, você escreveu um relatório investigando empresas privadas cúmplices do genocídio e da ocupação de Israel, algo pelo qual a ONU não costuma ser conhecida. Por que era importante para você ir além do nível dos governos para denunciar as empresas que se beneficiam dessas violações do direito internacional?
Passei os últimos dois anos investigando o genocídio. Em certo momento, percebi que, enquanto muita gente, inclusive israelenses, perdia sua renda, a economia palestina entrava em colapso e tanta gente morria, a bolsa israelense continuava subindo; cresceu mais de 200% de seu valor. E isso se deve ao fato de existir uma interconexão entre atores privados: bancos, fundos de pensão, empresas militares, empresas de vigilância e muitos outros estavam se beneficiando disso.

Já existia uma economia de ocupação que permitira o deslocamento e a substituição dos palestinos, então eu poderia ter escrito esse relatório anos atrás. Mas essas empresas continuaram participando mesmo quando ficou claro que Israel possivelmente estava cometendo o crime de genocídio, conforme concluiu a Corte Internacional de Justiça em suas medidas preliminares em janeiro de 2024. As normas empresariais e de direitos humanos deveriam ter levado essas empresas a interromper suas atividades nos territórios palestinos ocupados, mas elas continuaram participando. Por isso era necessário expor isso.

E não estamos falando apenas de empresas israelenses, mas também de empresas ocidentais e outras. Aqui existia a possibilidade de exigir responsabilidades além de Israel.

Como resultado de seu trabalho, você mesma foi alvo de sanções do governo dos Estados Unidos. Como isso afetou sua vida e sua capacidade de realizar seu trabalho?
A censura financeira tem enormes implicações, que afetam tanto meu trabalho quanto minha vida privada. Não posso abrir uma conta bancária em nenhum lugar, o que significa que não posso pedir um táxi, reservar um quarto de hotel nem comprar nada, a menos que possa fazê-lo em dinheiro. Também fui impedida de viajar aos Estados Unidos, e muitos cidadãos estadunidenses deixaram de se relacionar comigo porque correm o risco de serem acusados de cometer um crime grave segundo a legislação dos EUA, que acarreta uma pena de até 20 anos de prisão e uma multa de um milhão de dólares. É absurdo.

Pode-se concordar ou discordar do que digo e faço. Mas fui punida pelo meu trabalho, sem direito a apelação, sem que se provasse que eu estava errada e violando meu status na ONU, que me concede privilégios e imunidades pelas ações realizadas no contexto do meu trabalho.

Seu novo livro, When the World Sleeps: Stories, Words, and Wounds of Palestine(Quando o Mundo Dorme: Histórias, Palavras e Feridas da Palestina), será publicado em inglês em abril deste ano. Que lições você espera que os leitores extraiam dele?
O livro é uma jornada pela Palestina que nasce da minha experiência de viver lá, trabalhar lá e ser relatora especial. Queria contar a história da Palestina tal como a conheci através de diversas pessoas – palestinos e israelenses – para poder apresentar e desvendar diversos temas.

Foi um best-seller na Itália e traduzido para mais de 16 idiomas. Acredito que as pessoas gostam porque provoca um despertar e permite compreender os problemas do presente e do passado de forma holística. Tudo é colocado em contexto. É muito humano, não é crítico. Também pode ser difícil de ler, porque há histórias de crianças e de pessoas que não estão mais entre nós. Mas as pessoas parecem apreciá-lo muito.

E, por último, qual é sua mensagem hoje para os palestinos e para os israelenses que se opõem ao genocídio, ao apartheid e à ocupação?
Nós os vemos. Vocês não estão sozinhos. O movimento de direitos humanos despertou graças à Palestina e ao que aconteceu nos últimos dois anos. As pessoas agora reconhecem a interconexão entre diversas formas de injustiça e diversas formas de resistência pacífica à injustiça. Quero que essa resistência pacífica se normalize em vez da violência.

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O índice que prova: Brasil está regredindo.


11 posições perdidas enquanto o mundo avança


Saiu o ranking atualizado do Economic Complexity Index (ECI), e ele conta uma história brutal sobre a economia brasileira.

Enquanto você lia sobre PIB crescendo, inflação controlada e exportações recordes de commodities, algo muito mais importante estava acontecendo: a estrutura produtiva do Brasil regrediu.

Caímos da posição 38 para 49 no ranking global de complexidade econômica entre 2014 e 2024. Isso não é ruído estatístico. É uma década perdida na corrida que realmente importa—a capacidade de produzir bens sofisticados que o mundo quer comprar.

Hoje vou te mostrar o que o ECI revela sobre o Brasil, por que essa métrica importa mais do que PIB, e o que os países que estão vencendo estão fazendo diferente de nós.

Vamos mergulhar nisso!

O ECI mede o que realmente importa: conhecimento produtivo incorporado.

O Economic Complexity Index não mede o tamanho da sua economia—mede a sofisticação dela.

Pense assim: exportar minério de ferro é fácil.

Qualquer país com depósitos minerais consegue fazer isso. Mas produzir semicondutores, turbinas de avião, equipamentos médicos de precisão?

Isso exige uma rede densa de conhecimento produtivo, instituições, fornecedores especializados e trabalhadores qualificados que levam décadas para se construir.

O ECI captura exatamente isso—a diversidade e sofisticação dos produtos que um país consegue exportar competitivamente. E como estruturas produtivas mudam devagar, a métrica é melhor observada em horizontes longos. Por isso olhamos 2014–2024.

E o que essa década revelou? Que enquanto o Brasil falava de transformação, outros países estavam executando.

Taiwan passou a Alemanha e agora é a #2 economia mais complexa do mundo.

Em 2024, Taiwan assumiu a segunda posição no ranking global, atrás apenas do Japão.

Isso não aconteceu por acaso.

Taiwan construiu sistematicamente clusters de semicondutores (TSMC), componentes eletrônicos e equipamentos de precisão.

A Coreia do Sul subiu para #4 pelo mesmo motivo—apostou em setores de altíssima complexidade como semicondutores, baterias e displays.

A mensagem é clara: os países que lideram o ECI investiram décadas em capacidades produtivas sofisticadas. Eles não esperaram “vantagens comparativas naturais” aparecerem.

Eles as construíram deliberadamente.

Enquanto isso, a Alemanha caiu do pódio (#3 para #5), e o Brasil caiu 11 posições (38 para 49).

A diferença? Taiwan e Coreia estão subindo a escada da complexidade. Brasil e Alemanha estão, na melhor das hipóteses, parados—e na pior, descendo.

China subiu como foguete: de #30 para #21 em uma década.

Aqui está a parte que deveria te tirar o sono.

A China, que todo mundo ainda trata como “fábrica do mundo de produtos baratos”, subiu 9 posições no ECI em apenas 10 anos.

Hoje está na posição #21—e continua subindo.

Como? Investimento massivo em setores estratégicos: veículos elétricos, baterias, painéis solares, semicondutores, equipamentos ferroviários de alta velocidade, drones, robótica.

A China não está apenas produzindo mais—está produzindo coisas mais complexas. E fazendo isso em escala industrial que nenhum outro país consegue replicar.

Enquanto o Brasil comemorava safras recordes de soja, a China estava construindo a BYD, a CATL e a SMIC.

Enquanto discutíamos reforma tributária, eles estavam dominando cadeias globais de tecnologia verde.

A trajetória é clara: em 10-15 anos, a China estará entre as 10 economias mais complexas do mundo.

E nós? Provavelmente ainda discutindo se devemos ou não ter política industrial.

América do Sul está em queda livre—com raras exceções.

Os dados sul-americanos são deprimentes.

Brasil caiu de 38 para 49.

Argentina de 46 para 52.

Venezuela de 83 para 104 (colapso total).

A única exceção? Uruguai, que subiu de 58 para 50—e mesmo assim continua atrás de onde o Brasil estava em 2014.

Por que isso importa? Porque confirma o diagnóstico que muitos economistas heterodoxos vêm fazendo há anos: reprimarização.

A América do Sul está voltando a ser exportadora de matérias-primas, perdendo capacidades industriais e tecnológicas construídas no século XX.

E não, isso não é “só o mercado funcionando”.

→ É política econômica.

→ É câmbio sobrevalorizado.

→ É falta de financiamento para inovação.

→ É infraestrutura sucateada.

→ É educação técnica abandonada.

→ É um sistema tributário que pune manufatura e premia exportação de commodities.

Enquanto isso, países como Vietnã (76 para 57), Indonésia (77 para 69), Camboja (122 para 93) e até El Salvador (73 para 63) estão fazendo o caminho inverso—construindo capacidades manufatureiras e subindo no ranking.

Eles estão fazendo o que a Coreia do Sul fez nos anos 70, o que Taiwan fez nos anos 80, o que a China fez nos anos 2000.

E nós? Estamos fazendo o que a Argentina vem fazendo há 70 anos: regredindo.

Arábia Saudita e Emirados Árabes falharam—apesar dos bilhões investidos.

Aqui tem uma lição importante sobre o que NÃO funciona.

Arábia Saudita e Emirados Árabes gastaram centenas de bilhões tentando diversificar suas economias e subir no ECI. Construíram cidades futuristas, zonas francas, parques tecnológicos, universidades de classe mundial.

E mesmo assim, quase não se moveram no ranking.

Por quê? Porque você não constrói complexidade econômica do zero com dinheiro do petróleo.

Você constrói complexidade com uma base industrial existente que pode ser sofisticada gradualmente. Você precisa de empresas manufatureiras, fornecedores locais, engenheiros com experiência prática, instituições técnicas enraizadas.

Taiwan não virou potência em semicondutores da noite para o dia. Levou 40 anos de política industrial deliberada, começando com eletrônicos simples nos anos 70.

A lição para o Brasil? Temos uma base industrial—mas estamos deixando ela morrer. E uma vez que ela morre, reconstruir é infinitamente mais difícil e caro do que preservar e sofisticar o que já existe.

O que países vencedores estão fazendo que o Brasil não está.

Vamos ser diretos sobre o que separa países que sobem no ECI dos que caem.

Política industrial ativa. Taiwan, Coreia do Sul, China, Vietnã—todos têm estratégias explícitas de quais setores desenvolver. Eles não esperam “o mercado decidir”. Eles direcionam crédito, incentivos fiscais, compras governamentais e P&D para setores estratégicos.

Investimento em educação técnica e P&D. Coreia do Sul investe 4.8% do PIB em P&D. Taiwan 3.5%. China 2.4%. Brasil? 1.2%—e caindo. Sem engenheiros, sem pesquisa aplicada, sem inovação, você não sobe em complexidade.

Câmbio competitivo sustentado. Países do Sudeste Asiático mantêm câmbio desvalorizado para proteger manufatura nascente. Brasil deixa o real se valorizar toda vez que commodities sobem, matando a indústria.

Integração em cadeias globais de valor—mas com upgrading. Vietnã começou montando tênis e camisetas. Hoje monta iPhones e produz componentes eletrônicos. Eles entraram em cadeias globais, mas com estratégia de subir na cadeia. Brasil entrou em cadeias globais nos anos 90—e desceu na cadeia.

Pragmatismo acima de ideologia. Taiwan é capitalista mas tem empresas estatais estratégicas. China é “comunista” mas tem mercados competitivos brutais. Coreia do Sul usou chaebols (conglomerados privados) com direcionamento estatal. Funcionou porque o objetivo era claro: desenvolver capacidades produtivas sofisticadas. Não ideologia, resultados.

Brasil tem duas escolhas: acordar ou aceitar a irrelevância produtiva.

Aqui está a verdade incômoda que o ECI 2024 expõe: o Brasil está perdendo a corrida da complexidade econômica—e perdendo feio.

Enquanto Taiwan, Coreia, China, Vietnã, Indonésia e até Marrocos constroem capacidades produtivas do século XXI, nós estamos regredindo para o século XIX: exportadores de minério, soja e carne.

Você pode aceitar isso. Pode acreditar que “somos competitivos em agro” e que isso basta. Pode continuar comemorando superávits comerciais construídos em cima de commodities enquanto a estrutura produtiva apodrece.

Ou você pode reconhecer que complexidade econômica é destino. Países complexos são ricos, resilientes, inovadores. Países simples são pobres, vulneráveis, irrelevantes.

A escolha é nossa. Mas o relógio está correndo. E cada ano que passa sem uma estratégia séria de transformação produtiva é mais um ano de distância dos países que estão vencendo—e mais um passo em direção à irrelevância permanente.

Os dados de 2024 estão aí. A pergunta é: vamos finalmente prestar atenção?

Se você quer acompanhar dados, rankings completos e visualizações interativas do ECI 2024, acesse o Observatory of Economic Complexity (OEC). E se esta newsletter te fez pensar diferente sobre desenvolvimento econômico, compartilhe com alguém que precisa ler isso.

Até a próxima semana.

P.S. — Se este é um dos primeiros textos que você lê aqui, visite minha [página de boas-vindas clicando aqui. Separei presentes que vão te ajudar a entender desenvolvimento econômico de verdade — incluindo meu livro completo “Brasil, uma economia que não aprende” (grátis).

~

Abraços,

Paulo Gala

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Premiações: Prêmio Portal do Ano 2021

 


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Brasil: a Defesa necessária contra Trump

A guerra chegou à América do Sul. Mas Forças Armadas brasileiras estão concebidas como extensão do Pentágono. Transformá-las, preparando-as à defesa da soberania e livrando-as do combate ao “inimigo interno”, precisa estar na agenda nacional

Título original:
Breves anotações sobre Defesa Nacional

A capacidade militar do Brasil é concebida, desde a Segunda Guerra Mundial, como extensão do poderio do Pentágono. Uma nova conflagração generalizada se desenha e, seja qual for o seu desenrolar, obedecendo ou contrariando Washington, seremos afetados.

Se, na melhor hipótese, forem usadas armas convencionais, a carnificina se prolongará por tempo indeterminável. Na pior, armas nucleares encurtarão a guerra e o resultado será inimaginável.


Nas últimas décadas, orientações de nossa Defesa Nacional (DN) foram reescritas sem novidades substantivas. Consistem em generalidades e truísmos sobre o quadro geopolítico acompanhadas de proposições rotineiras das Forças Armadas.

Esses documentos mostram a Defesa como matéria da alçada militar. Revelam que as armas mais complexas são importadas e o desenvolvimento de tecnologia própria não acompanha o ritmo frenético dos grandes atores internacionais. Parcerias tradicionais são preservadas. As fileiras estão prontas para preservar a Lei e a Ordem e cumprir múltiplas funções. Finalmente, concluem que a DN estaria melhor, não fosse a avareza do Estado.

Não creio que essas orientações sejam compatíveis com a aspiração de soberania nacional, nem que possamos dispor de Defesa Nacional convincente acatando conceitos e formulações enraizadas na caserna.

Visando o debate, apresento breves anotações.

A guerra repugna e fascina. Faz parte da experiência humana. É indissociável da construção civilizatória. Não há sociedade que a desconheça. Mas a DN está fora da pauta brasileira, como pode ser constatado no documento “Pilares de um Projeto de Nação”, recentemente lançado pelo Governo Federal. O Brasil projetado nesse documento ignora os solavancos da ordem mundial.

Nos confrontos sangrentos, desde sempre, os mais penalizados são os pobres e desprotegidos. Os beneficiários são os mais ricos. Empresários espertalhões e demagogos veem a guerra como oportunidade de se dar bem.

Mas a guerra pode favorecer mudanças sociais: altera valores, comportamentos e condições de vida; abre rachaduras no poder e açula a vontade de mundo melhor.


Guerra não é simples medição de força bruta: é fenômeno essencialmente político. O político deve conduzi-la – do contrário, será submetido por homens armados. Nos confrontos, guerreiros cobrem-se de glórias e tendem a atravessar o Rubicão. Lula precisa se preparar para exercer o comando supremo. Deve saber que o ambiente guerreiro favorece o golpismo.

Assimetria de forças militares é sempre relativa. Armas são manipuladas por pessoas que podem estar mais ou menos mobilizadas. Exércitos dependem dos humores da sociedade que os sustentam.

Os brasileiros não podem se intimidar com o poderio dos Estados Unidos ou de qualquer outra potência. Grandes potências foram derrotadas por países pobres.

Sociedade fragmentada é presa fácil de agressores estrangeiros. A DN de que precisamos deve contar, essencialmente, com a coesão dos brasileiros e com o que somos capazes de produzir.

O sentimento nacional, ou o “patriotismo”, constitui nossa principal garantia. O “amor à pátria” é o sentimento coletivo mais poderoso, sublime e sangrento já conhecido.

Os inimigos mais temíveis são os nacionais que servem ao estrangeiro hostil. Esses traidores ocupam espaço no aparelho estatal, inclusive nas fileiras.

A DN deve travar combate político renhido aos prosélitos do agressor estrangeiro e às atividades desagregadoras da comunidade nacional. Estímulos explícitos à agressão estrangeira precisam ser alcançados pela lei, assim como incitações à secessão.

Os militares podem contribuir com a coesão nacional evitando atuar na ordem interna. A revisão do Artigo 142 da Constituição é necessária para que o militar firme credibilidade e se concentre no enfrentamento ao estrangeiro hostil.

Pelo bem da coesão nacional, fileiras não devem cultuar os que reprimiram rebeliões populares. O Exército é do nobre que reprimiu os balaios ou do povo brasileiro? A Marinha precisa reverenciar o Almirante Negro, que tanto fez por sua modernização.

Uma DN verossímil deve enfrentar o legado colonial de desigualdades, exclusão e discriminações. A coesão social pede atendimento aos empobrecidos e redução das desigualdades regionais.

A dicotomia entre “questão nacional” e “questão social” é arbitrária e descabida. Propicia à extrema direita o uso despudorado dos símbolos nacionais. Confunde o povo.

Das políticas de Estado, nenhuma supera a DN em complexidade, abrangência e capilaridade. Requer planejamento multidimensional e parcerias com estrangeiros. Pressupõe envolvimento de toda a sociedade e de todo o aparelho de Estado. Não isenta nenhum setor econômico.

Todos precisam entender a ameaça que paira sobre o Brasil. Todos devem saber dos sofrimentos que nos aguardam. Nossa soberania precisa ser debatida nas próximas eleições e os aliados do imperialismo devem desmascarados e derrotados.

Campanhas eleitorais baseadas em benefícios localizados, obtidos por emendas orçamentárias, falseiam o escrutínio e alienam a sociedade. As casas congressuais não contribuem com a soberania nacional quando acatam sem debater demandas da caserna.

Políticas públicas de comunicação, educação, cultura, ciência e tecnologia têm papel crucial na união da sociedade. A sociedade precisa aprender a se defender de operações psicológicas e choques cognitivos engendrados pelos agressores. Escolas e universidades não podem formar alienados. Por que os pobres têm que arcar com a formação de cientistas para trabalhar em empresas de nossos opressores?

A regulamentação das novas mídias e a contenção de danos provocados pela imprensa favorável ao estrangeiro hostil é fundamental a uma DN credível.  “Operações psicológicas” são decisivas na guerra. Interferem ou condicionam o comportamento das massas. Causam pânicos, descrenças, desânimos coletivos ou excitações incontroláveis. 

A submissão pela fome, sede e doença é procedimento guerreiro elementar e nunca desatualizado. Para atenuar consequências de bloqueio de transportes, o governo precisa incentivar a produção local de alimentos e produtos de primeira necessidade, com destaque para medicamentos e equipamentos médicos.

Por obra de sabotadores da distribuição de energia elétrica, milhares de brasileiros podem morrer sem que o inimigo dê um tiro. Cumpre a DN nacional repensar o sistema de abastecimento de eletricidade.

O cultivo da amizade com os vizinhos é a segunda grande âncora da DN. Não cabe alimentar inimizades que favoreçam o cerco e a penetração em nosso território. Desrespeitar a autonomia da Venezuela no seu processo eleitoral e o não reconhecimento de Maduro foi um erro. Bases militares estadunidenses no sul do Continente representam inadmissível ameaça ao Brasil, assim como a intervenção na Venezuela.

Instituições brasileiras precisam priorizar parcerias com os fronteiriços por meio de empreendimentos estruturantes de setores produtivos, proteção ambiental, segurança, desenvolvimento científico e tecnológico, controle de zoonoses e atendimento em saúde pública. É injustificável a ausência de proposições nesse sentido no mencionado “Pilares de um Projeto de Nação”.

Desconheço diagnóstico preciso sobre a dependência das Forças Armadas quanto à importação de material e serviços de guerra. Mas hoje estamos tecnicamente atrelados à potência que ameaça a América Latina, com capacidade de paralisar, em um piscar de olhos, a parafernália comprada com o suor do povo.

O Presidente e o Congresso devem pedir explicações às Forças Armadas acerca da efetiva capacidade militar brasileira. Apenas a análise realista da situação permitirá entrever os passos para a formulação de uma DN que proteja os brasileiros.

As compras de material de guerra devem ser revistas. Corporações militares equipadas com armas estrangeiras disseminam falsa sensação de segurança e reforçam militarmente o vendedor. De que adianta gastar com um caça sueco que não voará sem a aquiescência de Washington?

Cabe suspender as compras de material de guerra de empresas estadunidenses, assim como as de qualquer fabricante, em qualquer país, que produza sob licença de empresas estadunidenses: as aquisições serão inúteis no enfrentamento de nosso potencial agressor e reforçam sua capacidade de nos ofender. Os escritórios militares brasileiros em Washington e Londres devem ser desativados.

A substituição de fornecedores ocidentais por outros produtores de armas e equipamentos representa saída falsa e perigosa: prolonga a dependência, não garante soberania e acirra os ânimos dos atuais fornecedores contra o Brasil.

A terceira âncora da DN é o desenvolvimento científico e tecnológico. Cientistas, técnicos e empresas precisam ser mobilizados. Mas é impossível, sem conhecimento exato de nossas vulnerabilidades, estabelecer projetos adequados para nossos pesquisadores. Que ninguém brinque com o cientista brasileiro. Motivado, sincronizado e amparado, em curto espaço de tempo deixará o mundo embasbacado.

Pensando em capacidade militar, creio ser prioritário o desenvolvimento rigorosamente autônomo de nossa capacidade aeronaval, não apenas em decorrência das dimensões de nosso território mas das mudanças no jeito de guerrear. Não há justificativa para não dispormos de satélites próprios e capacidade de lançá-los ao espaço. Apenas a mentalidade colonizada das elites brasileiras explica a dependência estrutural de nossa DN.

A reconfiguração da DN demanda vultosos recursos. Não pode ser limitada por políticas fiscais. Cabe buscar fontes inusuais de financiamento. O fechamento de unidades militares inúteis à defesa contra o agressor estrangeiro precisa ser estudado, assim como a alienação de imóveis em posse das corporações militares em centros urbanos. Finalmente, é inevitável examinar possíveis gastos perdulários das fileiras.

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O Irã que você não vê

Multidões tomam as ruas para apoiar governo que resiste à ameaça de Trump. Livro revela, em profundidade, riquezas, impasses e desafios de um país que se orgulha de cultura singular, da história que a constituiu e de sua autonomia preservada

Por Natalia Maia Calfat

MAIS:
O texto que você lerá após a apresentação é o prefácio de
Por dentro do Irã, de Media Benjamin
Uma publicação da Autonomia Literária, parceira editorial de Outras Palavas

Evite a Amazon. “Por dentro do Irã” pode ser obtido diretamente no site da Editora Autonomia Literária

De súbito, fez-se o silêncio. Desde 28 de dezembro, os jornais do Ocidente reportavam, com entusiasmo e expectativa crescentes, a onda de protestos que ganhava corpo no Irã. A radicalização de alguns deles, que resultou em queima de mesquitas, cinemas e centros comerciais, foi vista como um prenúncio. Um regime que, apesar de suas contradições, desafiou por cinco décadas o supremacismo orgulhoso do Ocidente, aparentava estar nas cordas. Mas a partir desta segunda-feira (12/1) a crescente euforia deu lugar ao ocultamento.

O braço da viola pareceu mudar. O governo iraniano, visto até então como se estivesse nas cordas, recorreu ao apoio da multidão. A mídia ocidental ignorou, mas nas principais cidades centenas de milhares saíram às ruas em defesa da autonomia do país, vista agora sob ameaça dos Estados Unidos e Israel. A presença gigante não significava apoio integral ao regime – nem este o solicitou. Mas enviava uma mensagem: as maiorias resistem a ser governadas de fora. Ninguém quer um cenário em que Trump atreva-se a se apresentar como “acting presidente of Iran”.

Nas imagens das manifestações de 12/1 aparecem esquifes e se fazem homenagens a “mártires”. Segundo o governo, os protestos das últimas semanas foram infiltrados por provocadores que praticaram atos de violência extrema e a mortes. É impossível verificar, até o momento, a informação. As forças de segurança do regime iraniano já praticaram atos de repressão duríssimos. Mas episódios anteriores – os da Praça Maidan, em Kiev (em 2013-14) e os de Hong Kong (em 2019-2020) podem estar se repetindo. Na Ucrânia, grupos fortemente armados entrincheiraram-se em meio a manifestações e foram decisivos para uma “mudança de regime” patrocinada por Washington. Na China, a tática foi investir de forma muito violenta contra policiais e civis, num esforço (fracassado) de desencadear, como resposta, brutalidade deslegitimadora.

Uma análise do cientista político Vali Nasr, publicada no site Project Syndicate, e reproduzida no Valor, apresenta uma visão verossímil do que está de fato em curso no Irã. Segundo ela, os protestos, que eclodiram em 28/12, opunham-se em especial à alta do custo de vida, provocada por desvalorização da moeda nacional (que tem, como causa essencial, as sanções norte-americanas). O governo adotou, no primeiro momento, uma atitude de diálogo. Houve valorização dos programas de transferência de renda para os mais pobres. A medida, porém não teria sido capaz de aplacar a classe média, que empobreceu nos últimos anos e constituiria o núcleo das manifestações. Quando elas assumiram caráter político, voltando-se contra o regime (a partir de 8/1), houve intervenção policial. Os governantes, porém, estariam cientes de que a coesão nacional foi responsável por salvá-los em 2025, após ataques devastadores de Israel. Por isso, ao invés de confrontar abertamente os protestos, preferiram responder na mesma moeda – e tinham apoio popular para tanto: daí, as manifestações gigantescas pró-regime em 12/1.

Elas não foram, porém, capazes, de conter a arrogância de Donald Trump, nem sua propensão a criar factoides. Na manhã de 13/1, como se ignorasse a mudança de ares (ou talvez para tentar contrarrestá-la), o presidente dos EUA exortou os iranianos a “tomar as instituições” e prometeu que “ajuda está a caminho” – numa clara que referência à intervenção na Venezuela.

As turbulências atuais podem ser uma oportunidade de examinar melhor um país que a mídia ocidental cerca de preconceitos. Em setembro de 2025, a Editora Autonomia Literária publicou Por dentro do Irãde Medea Benjamin, uma ativista norte-americana de longa trajetória nas lutas anticoloniais, pacifistas e feministas. O livro foge ao maniqueísmo. A partir de ampla pesquisa histórica e política, descreve um país singular – culto, diverso e orgulhoso se sua constituição. Nela combinam-se o passado persa e a influência muçulmana (que não impôs o árabe como língua); a ala xiita do Islã, majoritária, com a filosofia sufi e as reminiscências presentes do zoroastrismo. O texto a seguir, da cientista política Natalia Maia Calfat, que preside o Instituto de Cultura Árabe, é o prefácio da obra, agora ainda mais indispensável. (A.M.)


Uma das ativistas feministas mais conhecidas do movimento antiguerra nos Estados Unidos, Medea Benjamin faz seu début ao público brasileiro com uma sofisticada obra sobre o Irã e sua Revolução. A tradução inédita desta publicação da Autonomia Literária aparece num cenário editorial em que as obras sobre o país e sua política contemporânea são escassas, razão pela qual chega ao público brasileiro com urgência indispensável.

Se em português o leitor se via sitiado, de um lado, por autores que condenam a proclamada brutalidade e atraso iranianos e, de outro lado, por outros poucos mais entusiastas da revolução enquanto revolta subalterna, a autora nos oferece uma espécie de meio-termo entre o orientalismo eurocêntrico e inferiorizante e o ocidentalismo purista.

Em linguagem simples, mas oferecendo um conteúdo nuançado e complexo, com habilidade e lucidez, Medea escapa do simplismo pró ou contra a Revolução Iraniana, raro mesmo entre estudiosos. Ao longo da obra, o leitor poderá ver por que o povo iraniano é culto e orgulhoso de seu passado, suas ciências e suas artes. A não binariedade talvez seja reflexo do próprio caráter iraniano, que convive com a dualidade persa de ter sido islamizado mas não arabizado, que mantém a tradição zoroastra ao lado da xiita, da filosofia sufi que convive com elementos

pré-islâmicos, de ser palco da efervescência cultural a despeito do autoritarismo, dos elementos republicanos e descentralizados paralelos ao governo islâmico – ou do forte antiamericanismo e antissionismo ao lado da admiração aos estadunidenses e judeus.

A riqueza histórica e cultural foi frequentemente rodeada por episódios de ingerência e manipulações estrangeiras, russas, britânicas, francesas e estadunidenses. Demonstrando resiliência única, o Irã foi capaz de manter a unidade territorial e a soberania mesmo tendo sido repetidamente invadido desde o Império Aquemênida. Ainda assim, foi justamente através das diferentes invasões mongóis, timúridas e árabes que puderam exportar ou fazer os diferentes povos incorporarem elementos da língua, literatura e arquitetura persas. Aliás, a Era de Ouro deve em boa medida aos persas que traduziram filósofos, cientistas e matemáticos gregos ao árabe. O leitor verá, ao longo da obra, como a autora se coloca em constante diálogo com essa dualidade constitutiva da identidade iraniana.

A era moderna, marcada por desconfiança e disputa por soberania autônoma, registrou sucessivas concessões econômicas de recursos naturais, industriais e de infraestrutura aos britânicos mesmo antes da dinastia Pahlavi. Uma das características marcantes de Por dentro do Irã é dar notoriedade à habilidade política dos clérigos desde muito antes da Revolução Islâmica.

Como demonstra Medea, o clero xiita era politicamente forte e ativo desde a estabilidade permitida pelo período safávida, quando o persa era a “língua da diplomacia e da literatura” – ou seja, desde o início da história persa moderna, período de forte florescimento cultural e comercial e que instalou o xiismo como religião oficial, com características marcadamente sufis.


A exemplo da Fatwa do Tabaco em 1890, do seu papel na Revolução Constitucional de 1906 e durante a guerra civil de 1908-1910, do apoio à Frente Nacional contra as concessões à Anglo–Iranian Oil Company e da oposição à imunidade diplomática total dos militares estadunidenses concedida na década de 1960, os clérigos xiitas se opuseram firmemente à corrupção e posição dos monarcas em favor de interesses estrangeiros, limitando seu poder e demandando que os tribunais equilibrassem as leis parlamentares com as religiosas. Ao lado dos comerciantes dos bazares1, o clero demandava reformas tributárias, combatia

concessões econômicas e demandava mais descentralização administrativa e poder ao parlamento.

Ainda que seu conservadorismo tenha, ao longo do século xx, sido alvo da oposição liberal e das classes mais abastadas pró-monarquia, o que a obra demonstra é que, apesar de ter ocorrido sem precedentes e tendo verdadeiramente alterado as estruturas sociopolíticas e econômicas do Irã, a Revolução de 1979 não se tratou de um fenômeno excepcional ex machina. Em outras palavras, foi possível porque as bases já estavam postas décadas antes, ou seja, não aparece num vácuo, sendo reflexo dos vários ensaios constitucionalistas e em oposição ao Ocidente realizados anteriormente.

Assim, a obra nos convida a perceber que a Revolução Islâmica ocorre não porque o Irã seja uma sociedade intratavelmente religiosa, ou pela suposta radicalidade intrínseca aos xiitas, mas pelo poder reunido ao longo de décadas pelo seu clero, por sua capacidade de mobilização popular, por sua narrativa político-ideológica e pelos setores da sociedade que foi capaz de reunir em torno de si. Foi, igualmente, resultado da própria repressão conduzida pela dinastia Pahlavi, que baniu organizações políticas e partidos seculares – restando somente ao clero xiita a autoridade moral e robustez institucional enquanto oposição ao status quo.

Ademais, a modernização cultural autoritária do xá forjou o caráter moderno iraniano, estabelecendo administração de infraestrutura, defesa e identidade nacional, mas afastou-a da persa e gerou forte clientelismo, esvaziou o poder do parlamento e promoveu severa repressão política – além de reprimir manifestações culturais e linguísticas tradicionais, inclusive religiosas. A liberalização dos costumes foi acompanhada de uma apropriação por parte do regime da direção religiosa e espiritual, de forma que o revivalismo xiita responde precisamente a esta insatisfação. Nesse cenário, além dos estudantes e da intelectualidade, da classe trabalhadora urbana e do jovem clero, o carismático Khomeini unificou em torno de si também as demandas dos comerciantes da classe média conservadora dos bazares, as insatisfações dos liberais seculares e dos grandes proprietários.

Medea demonstra como a Revolução Islâmica refletia a latente disputa social sobre as formas que o bom governo deveria assumir no Irã. Fruto do engajamento das elites clericais de forma crescente nas arenas político-sociais, o revivalismo e o ressurgimento do ativismo político xiita no Irã e no Levante se deu desde antes da década de 1970, cujo ethos concentra-se na luta contra a opressão e a injustiça das quais o segmento se percebe como sendo alvo. Dentro dessa cosmovisão, a resistência contra a opressão, marginalização e sub-representação, o chamado à ação contra a tirania e o despotismo (ingerência externa, doméstica e regional pró-Ocidente) apresentam-se como dever. Deste modo, dentro da doutrina do jurisconsulto ou do wilayat al-faqih (tutela bem guiada na ausência do Mahdi), autossuficiência e soberania autônoma, boa governança, equidade, moralidade e justiça estão mutuamente imbricadas. Ao longo da obra é possível identificar como os debates em torno desses elementos estão presentes e vão se modificando no decorrer do tempo depois da Revolução de 1979.

Com igual desembaraço ao dedicado aos inúmeros episódios de deslealdade e ingerência ocidental – da coordenação da cia no golpe de 1953 ao prolongamento da guerra Irã-Iraque e do continuado apoio ao obscuro Mojahedin-e-Khalq (mek) –, a autora não se furta de abordar as contradições internas geradas como consequências indesejadas do novo regime. Tratando a revolução enquanto processo e dando destaque aos seus matizes, o leitor não deixará de entrar em contato com as novas formas de clientelismo e monopólio econômico, com a hierarquia clerical produzida, a repressão aos direitos políticos e civis e o aumento da pobreza rural e desigualdade econômica.

Volume significativo da obra de Medea é apresentado como que em formato de manual para leigos, debruçando-se sobre todas as questões que seguramente o público brasileiro gostará de saber acerca do Irã: indo de como é o trabalho dos ativistas e o panorama geral dos direitos humanos no país até como o regime lida com o álcool, o sexo, o aborto e as drogas, além da liberdade de culto e representação legislativa de minorias religiosas como zoroastras, povos do livro e outras denominações. Medea tampouco se omite de analisar o já conhecido fetiche pela mulher iraniana e pelo uso do véu, reforçando a atuação das iranianas como agentes de mudança antes e depois da Revolução.

Passados 45 anos, o Irã permanece se apresentando como uma ideologia emancipadora e de resistência terceiro-mundista, que, ao se opor tanto à esquerda marxista quanto ao secularismo pan-arabista, tanto ao liberalismo quanto ao wahabismo, se propõe como um paradigma alternativo antiocidental não marxista. O caráter marcadamente transnacional dessa terceira via lhe permite não somente promover seus interesses políticos e securitários na região, cooperando financeira, logística e tecnicamente com seus aliados, como oferecer um eixo moral e narrativo-ideológico enquanto vanguardista do chamado Eixo da Resistência, composto também pelo Hezbollah no Líbano, Ansar Allah no Iêmen, Hashd al-Shaabi no Iraque e pelo Hamas na Palestina. Essa posição permite ao Irã desempenhar um papel fundamental na região e no universo islâmico como plataforma que se propõe unificadora por ser pró-Palestina e antissectária. Essa atuação, contraditoriamente, se dá em reação ao isolamento imposto sobre os iranianos e a recusa a sua participação nos arranjos securitários pós-guerra na região.

Sendo o Oriente Médio um palco de mudanças constantes, a obra de Medea é anterior ao prolongamento da guerra israelense contra Gaza desde outubro de 2023 e à abertura de novos fronts regionais, como no Líbano. É também anterior tanto à queda do regime de Bashar al-Assad na Síria, em dezembro de 2024, meses após a morte do presidente iraniano Ebrahim Raisi e seu ministro das Relações Exteriores, Hossein Amir-Abdollahian, quanto ao assassinato de Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah. Esses eventos, agora sob o segundo mandato do presidente estadunidense Donald Trump – que se retirara unilateralmente do acordo nuclear histórico com o Irã alcançado em 2018 – podem significar o desenho de uma nova arquitetura de segurança para o Oriente Médio. A nova conjuntura deve considerar, particularmente, a restauração dos laços diplomáticos entre Irã e Arábia Saudita, esforço mediado pela China em 2023, e os Acordos de Abrão normalizando as relações entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein em 2020.

Se por um lado a evolução dos eventos conjunturais recentes aponta para cenários potencialmente distintos, por outro reflete a própria complexidade desta esfera e a ausência de linearidade da política externa iraniana. Oscilando de forma pendular entre o rompimento do isolacionismo internacional conduzido por presidentes mais pragmáticos e reformistas e as reações conservadoras retroagindo a abertura quando suas expectativas se provaram frustradas, a autora demonstra como nas últimas décadas o país vem sofrendo o forte impacto das sanções e demandas internas por reforma. Paradoxalmente, não somente as sanções geram efeitos-rebote no que diz respeito à legitimidade do regime, como elas os levam a desenvolver estratégias criativas de autossuficiência, como uso de engenharia reversa, diversificação da indústria nacional e desenvolvimento da cultura tradicional.

Por dentro do Irã, além de se propor a um resgate honesto da história política recente iraniana, se apresenta como um grande convite para que o leitor, após tomar posse desse instrumental, possa refletir sobre sua legitimidade, seus avanços e retrocessos.

A obra, ademais, nos convida a pensar como tradição e modernidade devem se inter-relacionar, como política e religião podem ser combinadas através de um sistema sofisticado de pesos e contrapesos e como agentes transnacionais disruptivos respondem à crise da democracia e do multilateralismo.

O convite que nos faz a Autonomia Literária é principalmente para refletirmos de que modo a população iraniana pode ser a protagonista formuladora de uma modalidade de governo soberano e independente que esteja acompanhado do seu sistema jurídico equivalente. E que esse resultado ressignifique a tradição e reformule seu nacionalismo a partir desta e em concerto com os anseios e contradições domésticas – oriundas das demandas morais, (a)religiosas, econômicas e políticas da sociedade iraniana – mas sem que esse resultado de governança signifique, necessariamente, entrar no registro do sistema ocidental. Afastando-se ao mesmo tempo de um paroquialismo essencializante que tudo culturaliza e de um orientalismo estranhado que tudo exotiza, o leitor verá que a obra reforça a multiplicidade da identidade iraniana, abandonando uma visão estática e linear sobre seu presente mas também sobre seu futuro.

1Apesar do português ter diferentes significados para a expressão “bazar”, aqui é usado sempre o sentido original, do persa: mercados públicos abertos com diferentes tipos de lojas e comércios, como uma espécie de “feira” sob um teto. [n.t.]

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