CIÊNCIAS

 


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Por que o Brasil não precisa da energia nuclear

Intermitência dos ventos e da luz solar é utilizada para a defesa da geração atômica. Porém, é cara e perigosa. País possui conjunto de fontes renováveis – como a hídrica – que permitem sanar problema. Privatização e baixo investimento em tecnologias são grandes entraves…

Educar é formar para a liberdade, não para a obediência.|
Noam Chomsky (linguista, filósofo, sociólogo, ativista político norte-americano)

Os defensores da energia nuclear para a produção de energia elétrica sempre tiveram um discurso moldado às circunstâncias e às suas conveniências. Antes do acidente nuclear de Fukushima, em um dos países mais desenvolvidos nas ciências e tecnologia, os argumentos utilizados eram de uma soberba e arrogância sobre a infalibilidade da tecnologia nuclear. Chegavam a afirmar que era impossível ocorrer um acidente nestas usinas (risco zero!), tal o desenvolvimento tecnológico alcançado. Bastou o fatídico 11 de março de 2011 para desmoronar a pregação messiânica pró-deus-tecnologia nuclear.

Com a crise climática e o crescimento das fontes renováveis de energia na matriz elétrica mundial, o discurso voltou-se ao alto custo da energia solar e eólica, e o papel de “salvação” do nuclear na mitigação do aquecimento global, como uma fonte de energia de baixa emissão de carbono. Afirmam descaradamente que não existe emissão de gases de efeito estufa no ciclo do combustível nuclear, portanto é uma fonte “limpa”, e assim a nucleoeletricidade seria uma componente crucial no enfrentamento das mudanças climáticas.


Nem a eletricidade nuclear é “limpa”; caso fosse, não geraria “lixo”, nem mais barata que a gerada pelo Sol e ventos, ao contrário, chegando a ser de quatro a seis vezes mais cara. Mais uma vez, o poderoso lobby nuclear perdeu o discurso. Mas a insistência é permanente, pois os negócios neste setor envolvem bilhões, com cada usina de 1.000 MW custando em torno de 5 bilhões de dólares. Ao mesmo tempo, é reconhecido que obras de grande complexidade, como usinas nucleares, raramente respeitam cronograma e previsões orçamentárias, e que o custo final costuma ser, em média, três vezes maior do que previsto inicialmente. 

Atualmente, o discurso da hora do setor nuclear é apontar a “fragilidade” da geração de fontes renováveis (solar, eólica), pela sua irregularidade devido à ausência de Sol e ventos, o que não garantiria a estabilidade do sistema elétrico. A intermitência energética justificaria a necessidade da fonte nuclear?

Quem defende usinas nucleares afirma que o principal papel desta tecnologia é a estabilidade que aporta para o sistema elétrico, tratando-se de uma fonte firme, não intermitente. Pelo fato de uma usina nuclear poder operar quase o tempo todo, constituiria uma fonte de “carga de base” (baseload) necessária para a estabilidade da rede elétrica, pois complementaria a geração solar e eólica, que variam conforme as condições climáticas.

Todavia, para lidar com a intermitência de fontes renováveis, várias alternativas existem sem que haja a necessidade da nucleoeletricidade que é cara, perigosa e suja. Dentre as tecnologias existentes inclui sistemas híbridos, combinando diferentes fontes e armazenamento para compensar a falta de energia, à noite ou em dias sem vento; o armazenamento do excesso de energia gerada com baterias, hidrogênio e armazenamento térmico; fontes despacháveis podendo ser ativadas sob demanda, com térmicas a biomassa, hidrelétricas; redes inteligentes no gerenciamento da oferta e demanda de energia de forma mais eficiente, melhoria na infraestrutura das redes de transmissão para que a energia gerada em um local possa ser transportada para onde é necessária, aumentando a flexibilidade do sistema; e soluções com inteligência artificial para previsão de geração e demanda, otimização do despacho de energia e gestão de mercados, garantindo um fornecimento contínuo e estável. 

Do ponto de vista tecnológico, não faltam alternativas para atender às características intrínsecas das fontes renováveis, como a intermitência.  O que falta são escolhas corajosas, que levem em conta a participação social e a transparência, contra as ações de lobbies poderosos que defendem interesses de grupos econômicos contrários aos da população, e que influenciam nas decisões de políticas públicas do setor energético.

O que tem favorecido o discurso da intermitência, e assim da necessidade da geração nuclear, é que mesmo tendo disponibilidade de energia, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), uma entidade privada, tem limitado, e até cortado parte da energia produzida por fontes renováveis, principalmente porque a expansão da rede de transmissão e a demanda não acompanharam o ritmo de instalação de novos parques de geração, que crescem a taxas mais aceleradas, incentivados pelo grande potencial destas fontes, do baixo custo da energia gerada, e das condições favoráveis de financiamento e benefícios fiscais. Ou seja, temos energia, mas não temos linhas de transmissão para seu aproveitamento pelo sistema elétrico nacional.

A redução ou corte intencional de energia, denominado de “curtailment”, tem acontecido com frequência no Nordeste, maior produtor de energia elétrica a partir do Sol e dos ventos, por razões elétricas, como a capacidade limitada de transmissão, ou razões energéticas, com excesso de oferta em relação à demanda. Por exemplo, em junho de 2025, no Nordeste, os cortes na geração de projetos de grande porte — solar e eólico — não injetados na rede, determinados pela ONS, atingiram o valor de 27,3% do total produzido, sendo 19,6% por razões energéticas. No ano de 2025, estimativas apontam que o “curtailment” atingiu cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido gerada no país.


Este desperdício ocorre pela falta de planejamento estratégico. É privilegiada a oferta descolada da demanda, além de atrasos na conexão de projetos à rede. A desnecessária demora em adotar o armazenamento por baterias, a integração de fato de múltiplas fontes renováveis (solar, eólica, biomassa, etc.) reduzindo a dependência de uma única fonte e aumentando a resiliência, e o uso de outras possibilidades tecnológicas, seriam as condições para evitar o desperdício. Também a definição de diretrizes claras nos marcos legais, sem a presença e interferência perniciosa dos lobbies, que, ao defender interesses corporativos, acabam prejudicando interesses da população.

Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. Os exemplos da China, que detém cerca de 34% da capacidade global de energia renovável, da União Europeia que atualmente produz mais eletricidade com renováveis que com outras formas de energia, e do Brasil com mais de 80% da matriz elétrica com a participação do Sol, dos ventos e da água, constituindo a espinha dorsal da matriz elétrica; mostram claramente que as fontes renováveis em um contexto de colapso ambiental podem garantir a segurança e sustentabilidade energética, desde que a diversificação e complementaridade andem juntas.

Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira, a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis.

Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”

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IA: Assim os “impérios digitais” destroem o planeta

Desertos chilenos perfurados em busca de lítio. Rios desviados para resfriar servidores. Montanhas de lixo tóxico que podem atingir 5 milhões de toneladas em 2030. Emissões da Amazon superam as de Nova York. Uma análise das falácias do “utopismo tecnológico”

A IA é frequentemente apresentada como uma tecnologia imaterial, limpa e puramente digital. A narrativa dominante a posiciona como um motor de produtividade, eficiência e inovação. Entretanto, há um custo ambiental para sustentar esse universo digital e esse tema ainda é secundarizado. Enquanto se celebra os avanços dos algoritmos, uma cadeia global de devastação opera nos bastidores: desertos chilenos perfurados em busca de lítio, rios desviados para resfriar servidores famintos por energia e montanhas de lixo eletrônico tóxico se acumulando em nações no Sul Global.

A partir desta perspectiva crítica é que os pesquisadores John Downey, da Universidade de Loughborough no Reino Unido, e Weili Wang, da Xi’an Universidade de Jiaotong, na China, abordam temas controversos e importantes para pensar a desigualdade e os custos do desenvolvimento da IA. Em seu artigo “For a Political Ecology of Communication: AI and Ecological Imperialism”, publicado no periódico Global Media and China, os autores investigam as implicações ambientais e geopolíticas da expansão da IA, argumentando que ela pode estar reforçando antigas estruturas de poder globais.

A materialidade por trás dos algoritmos que fazem funcionar as IAs se manifesta de várias formas concretas e alarmantes. Em primeiro lugar, haveria um custo pela extração mineral para suprir a demanda de hardware, como lítio e cobalto. Essas atividades de mineração frequentemente ocorrem em regiões ecologicamente sensíveis, causando destruição de habitats, esgotamento de lençóis freáticos e poluição. Há uma demanda cada vez maior por energia, já que um data center típico pode consumir a mesma quantidade de eletricidade uma cidade de média. As projeções indicam que, até 2028, essas infraestruturas poderão consumir até 12% de toda a eletricidade dos EUA.


Há uma necessidade cada vez maior pelo consumo de água para o resfriamento desses data centers, exacerbando a pressão sobre recursos hídricos em diversas localidades, podendo levar até o esgotamento de água potável disponível para certas regiões. Por fim, há a produção cada vez maior de lixo eletrônico, já que a rápida obsolescência do hardware acelera a troca de equipamentos. Estima-se que isso possa chegar entre 1,2 e 5 milhões de toneladas até 2030 e, na maioria das vezes, o material é exportado para nações pobres como descarte.

Há custos ambientais e ecológicos enormes e eles são desigualmente divididos porque as assimetrias de poder estão sendo reforçadas com os serviços de IAs.

Imperialismo ecológico em nova roupagem

O conceito central do artigo é o que os autores convencionam como “imperialismo ecológico”, termo originalmente cunhado por Alfred Crosby para descrever como as potências coloniais remodelaram os ambientes de territórios dominados para seu próprio benefício econômico. Hoje, descreveria como a prosperidade do Norte Global depende estruturalmente da apropriação de recursos e da externalização de custos ambientais para o Sul Global.

O Imperialismo ecológico também se expressa na uma “apropriação atmosférica”, na medida que as emissões de gases provocadores do efeito estufa a partir do Norte Global já consumiram a maior parte dos limites para planeta, deixando as nações do Sul com uma dívida climática impagável e sem margem para seu próprio desenvolvimento.

Assim, o Norte Global colhe os principais benefícios do desenvolvimento da IA enquanto a degradação ambiental causada pela extração mineral e pelo descarte de lixo eletrônico é desproporcionalmente suportada por regiões vulneráveis no Sul. Essa dinâmica reforça desigualdades históricas, nas quais o progresso tecnológico de alguns é sustentado pelo sacrifício ecológico de outros, afirmam os autores do estudo.

A escala do extrativismo digital é estarrecedora e rivaliza e até supera o consumo de metrópoles globais. A emissão anual de uma única gigante da tecnologia como a Amazon, por exemplo, é maior que de toda a cidade de Nova Iorque. As emissões da Microsoft e Google, individualmente, superam as emissões de Tóquio.

A expansão da IA cria contradições nos próprios objetivos de sustentabilidade dessas empresas. A Microsoft, por exemplo, que possui a meta de se tornar carbono neutro até 2030, aumentou seu consumo em 25% devido às operações de IA.


Uma solução que alimenta o problema

Existe um contra-argumento, frequentemente chamado de “futurismo da IA” ou “utopismo tecnológico”, que afirma que a IA pode ser uma ferramenta crucial para a sustentabilidade. Segundo essa visão, a IA pode aumentar a eficiência dos recursos, aprimorar a modelagem climática e transformar sistemas complexos para combater as mudanças climáticas.

Downey e Wang criticam essa perspectiva otimista. Eles apontam que tais cenários frequentemente ignoram que um aumento na eficiência de uso de um recurso tende a aumentar, em vez de diminuir, o consumo geral desse recurso. É como quando um carro mais eficiente em consumo de combustível incentiva o motorista a dirigir mais, anulando ou até superando a economia de emissões. Os autores consideram que, diante das contradições atuais entre crescimento econômico e proteção ambiental, essas visões otimistas são no máximo um “pensamento positivo”.

A análise revela uma verdade inconveniente: por trás da promessa de um futuro digital limpo, a IA carrega um pesado fardo ambiental e social, distribuído de forma desigual pelo mundo. O progresso tecnológico não pode ser avaliado isoladamente de seus custos materiais e de suas implicações para a justiça global.

O artigo conclui com um chamado à ação: a necessidade urgente de criar um novo campo de estudo, uma “ecologia política da comunicação”, fazendo referência a tradição dos estudos de economia política da comunicação das décadas de 1970 e 1980. Essa nova área não se limitaria a medir os custos e benefícios ambientais de tecnologias como a IA, mas também analisaria como esses impactos são distribuídos de forma desigual globalmente, combinando dados empíricos com uma análise ética.

A verdadeira questão, levantada pelo estudo, não é se a IA pode nos salvar, mas se podemos desenvolver a responsabilidade política e ética para salvá-la de si mesma, garantindo que o progresso tecnológico sirva à justiça global e não a uma nova era de sacrifício ecológico.

Capitalismo de vigilância no Sul Global

A ecologia política da comunicação proposta por Downey e Wang se enquadra no eixo de pesquisa que OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância pelo Sul Global”. Essa perspectiva prioriza o foco na importância das assimetrias de diferentes tipos de poder (político, econômico, simbólico) entre diversos atores, mas mais especificamente entre Norte e Sul.

Nesse caso específico, inclusive, adiciona algo que não tratamos como temática, mas que cada vez tem se tornado uma questão relevante nas pesquisas: a questão ambiental e o uso de IAs, principalmente no que se refere a infraestrutura necessária para que esses novos modelos de linguagem sejam disponibilizados pelas big techs.

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